Tuesday, February 06, 2007

degraus

“When I sat down on this chair, of course I believed it would
bear me. I had no thought of its possibly collapsing.”


Wittgenstein




aparentemente tudo decorre como previsto. eu ponho o pé direito no degrau, depois o esquerdo. e vou subindo os degraus um a um, distraído do que fazem os meus pés e as minhas pernas. quando chego ao cimo vejo-as sentadas num banco de madeira, de pernas cruzadas, a conversar. as minhas pernas param, mas logo a seguir a minha cabeça decide que elas não deviam ter parado e elas movem-se, um pé segue o outro pé. cortei à esquerda mas podia ter cortado à direita. creio que me deixei perturbar pelas pernas nuas da mais jovem, a que estava de saia de veludo cor de laranja. memórias, emoções, não devia surpreender-me. a outra estava de calças pretas de seda e eu não a conhecia. depois de ter dado uns dez passos parei, olhei para o bico dos meus sapatos, cocei a cabeça e voltei para trás. não sei se alguém me olhava, mas eu comportava-me como se estivesse a ser observado. quando voltei a passar diante delas fiz um esforço, passei como se não as tivesse visto, como se elas não despertassem, ali naquele sítio, a atenção de quem passava. fui até ao fundo do hall e parei diante de uma janela. estávamos no quarto andar, lá em baixo havia jardins. não havia nada de particular a descobrir, mas se eu não fizesse de conta que estava ocupado com qualquer coisa ter-me-ia sentido mal. podiam estar a observar-me e a interrogar-se sobre a minha presença no edifício ou até sobre a minha pessoa. também tinha ficado combinado que seria ela a vir ter comigo quando me visse.


fiquei ali uns minutos à janela a olhar para o jardim e então ela aproximou-se e perguntou-me se eu não seria o homem de quem ela estava à espera. eu não a via há uns oito meses e achei que a sua maneira de reatar a conversa era curiosa. achei-a um pouco mais magra, mas gostei de a ver. gostei mesmo muito de a ver e ela deve ter percebido porque logo a seguir pegou-me no braço e sem dizer nada levou-me com ela até ao cimo das escadas. a das calças pretas tinha desaparecido. sempre agarrada ao meu braço e em silêncio ela começou a descer as escadas. porque não vamos de elevador, perguntei eu. ela não me respondeu e continuámos a descer escadas até que chegámos ao rés-do-chão. a seguir saímos do edifício e já na rua ela mandou parar um táxi. aonde é que vamos, perguntei eu. ela não respondeu e eu não me importei com isso. a companhia dela agradava-me, uma mistura de mel com vinagre, de prazer com amargura. eu tinha esperado com ansiedade por este reencontro. o que podia acontecer era imprevisível. logo se via. quando chegámos a covent garden ela mandou parar o táxi, pagou. depois levou-me por ruas estreitas até à pastelaria francesa onde quando eu ainda estava em londres íamos nas quintas-feiras tomar chá. o silêncio dela e o meu começavam a divertir-me. mas confesso que me deu jeito. entrámos, sentámo-nos, ela pediu chá para mim e para ela. depois pôs as mãos cruzadas em cima da mesa e sem sorrir chamou-me patife. desapareceste sem me dizer nada, nunca te dignaste escrever nem telefonar, é inadmissível. agora decidiste ressuscitar. não sei por onde andaste nem o que fizeste. tu também não sabes onde eu estive nem o que eu fiz durante estes oito meses. deve estar bem assim, não há razão para repreensões nem para queixas. eu não sabia que dizer. não me apetecia falar do passado. sem me irritar, disse-lhe: temos tempo mais tarde de falar nisso. peguei-lhe na mão: se eu disser que estou feliz por te ver, emocionado por estar aqui de novo contigo, basta-te? uma das meninas da pastelaria estava a pôr o bule do chá e as chávenas na mesa e eu tive de tirar a minha mão da dela. quando a menina terminou e se afastou eu voltei a pegar-lhe na mão e perguntei-lhe se tinha ouvido o que eu tinha dito. ela disse que tinha ouvido muito bem porque não era surda, mas que as coisas não eram certamente tão simples como eu imaginava. fui tomando o chá. entretanto voltei a sugerir: deixamos as conversas sérias para mais tarde, agora podíamos só olhar um para o outro, se estiveres de acordo. ela não respondeu nem sorriu, deixou apenas de olhar para mim.



ver não é saber nem conhecer. por detrás do rosto que nós reconhecemos esconde-se o mistério. o que é que eu sabia dela? ela própria, o que é que sabia de si? o mesmo poderia ser perguntado a meu respeito exactamente da mesma maneira, o que torna a questão muito interessante. a primeira vez que olhei para ela, há quase três anos, pensei o quê? fiquei a conhecer quem? devo ter pensado que ela merecia atenção. tive curiosidade, dei-lhe atenção. depois, entre duas portas, no hotel onde estávamos os dois, os nossos olhos cruzaram-se. mais tarde, no bar do hotel, reconhecemo-nos. perguntei-lhe se me deixava sentar à mesa dela, ela olhou para mim, hesitou, disse que sim. mas acrescentou: estou à espera do meu namorado. foi a minha vez de hesitar. mas sentei-me. falámos. ela tinha um livro em cima da mesa, pedi-lhe para ver o que era. humilhados e ofendidos, dostoievski. eu disse hmmm. porquê hmm, perguntou ela. por nada, disse eu. nunca li, mas imagino que não será leitura amena. ela olhou-me com ar de quem se estava a perguntar se eu era estúpido ou estava apenas a fazer de conta. eu não disse nada, estava à espera que chegasse o namorado dela. chegou mais tarde. não se espantou por vê-la sentada com outra pessoa. disse olá e sentou-se. conversaram ternamente, beijaram-se discretamente, estavam tranquilos. eram os dois bonitos e estavam bem vestidos. entretanto eu acabei o meu whisky, levantei-me e fui-me embora. claro, disse muito prazer e obrigado antes de me afastar.

no dia seguinte encontrei-a na piscina do hotel. ela estava só e viu-me. fui sentar-me ao seu lado. passámos a manhã a namorar discretamente, com o ar mais inocente deste mundo. as pernas dela fascinavam-me. o olhar dela perturbava-me, excitava-me. além disso a voz dela, um pouco grave mas feminina, entrava por mim a dentro de tal maneira que o meu estômago estremecia. perguntei-lhe pelo namorado ela respondeu-me que ele era engenheiro electrónico e que se tinham conhecido há dois anos. não perguntei mais nada e ela também não acrescentou mais nada. eu já estava há algum tempo, sem me dar conta disso, a imaginá-la nos meus braços e a dar-lhe beijos no pescoço. a pele dela devia ser quente e macia. apostei comigo que dada a maneira como tudo se estava a passar antes de chegar a hora do jantar estaríamos na cama dela ou na minha. não me enganei.

vivemos dois anos juntos. ainda hoje não sei se ela era uma mulher interessante ou se o que nos ligou foi apenas a curiosidade e algumas afinidades de temperamento. ou terão sido as nossas brigas? ou foi um malentendido? eu gostava da sua elegância discreta, da sua doçura, da ternura despropositada e infantil que lhe merecia. mas as nossas relações só foram tranquilas durante três meses. ao fim de três meses ela começou a queixar-se, a exigir, aborrecia-se. achava que eu não lhe prestava atenção, que a tratava como se ela fosse uma boneca de borracha com quem dormia de vez em quando. achei a comparação divertida. uma manhã de sábado, enraivecida, atirou-me com um sapato. eu queria dormir e ela queria ir passear. tinha alguma razão, eu passava muitas horas diante do computador em vez de lhe fazer companhia e de me deitar quando ela se deitava. hoje tenho muitos remorsos da minha superficialidade, de não lhe ter prestado a atenção que ela merecia, de não a ter valorizado como devia. e sobretudo lamento não ter percebido que ela era uma criança meio torturada e meio caprichosa.


os meus remorsos, evidentemente, só abrangem os dois anos das nossas relações. a mulher em que ela se transformou posteriormente deixou de me interessar. esses dois anos não foram fáceis. ela falava de assuntos que me não interessavam e falava de mais. tinha uma obsessãozinha com roupas e sapatos, estava convencida de que ela é que tinha bom gosto em tudo. mas as coisas entre nós não estavam tão mal como ela mais tarde pretendeu, eu gostava dela. sem me prevenir, porém, ofendida por eu lhe dizer que fosse viver uns tempos com uma amiga chinesa ou japonesa que às vezes vinha lá a casa, ela desapareceu um sábado à tarde para ir viver com um tipo que tinha conhecido na national gallery. portou-se muito mal comigo. estávamos juntos há um ano, eu merecia outra forma de tratamento. fiquei furioso e infeliz. mas ela fartou-se depressa do pintor e voltou a casa ao fim de dez dias. não me apetece alongar-me em grandes explicações. os dois anos que duraram as nossas acidentadas relações e o seus múltiplos malentendidos terminaram quando ela, que nesse momento andava comigo pelas salas da national gallery, reencontrou o pintor. eu dei-me logo conta dos modos submissos com que ela lhe falava, da admiração com que o olhava. e não foi necessário grande esforço à minha inteligência para concluir que o meu tempo com ela tinha passado. compreendi isso e entendi que não me apetecia continuar a aborrecer-me em londres, precisava de outras paisagens. fiz as malas, deixei o apartamento que tinha alugado, fui para lisboa. e tentei esquecê-la. houve uma noite ou duas em que me senti tão só, tão triste, que saí de casa à meia-noite e fui a um bar à procura de uma mulher. encontrei logo uma menina brasileira de cabelos longos e sedosos com quem fiquei a conversar e a beber whisky. o vinho que eu já tinha bebido ao jantar e os dois whiskies que acabava de beber não me permitiram corresponder como gostaria ao carinho e à contemplação da beleza da menina. mas ela foi simpática, teve paciência, acabou por levar o barco aos solavancos até ao porto. o barco chegou em condições precárias, sem fanfarras nem foguetes. eu não consegui nunca esquecer-me da outra e imagens do corpo, expressões do rosto dela misturavam-se às minhas carícias esforçadas mas pouco convincentes ao corpo da brasileira, que era perfeito. perfeito, jovem, mas não conseguiu, apesar de bem real,sobrepor-se às minhas recordações. prova de que o amor, como eu já sabia, é de facto coisa mental.

relendo alguns dos meus cadernos no apartamento de lisboa chocou-me a quantidade de páginas que eu tinha dedicado às nossas relações. dúvidas, complicações, suspeitas de mentiras, insatisfação, revolta, queixas do mau feitio dela eram frequentes. várias vezes, nesses dois anos que durara o nosso convívio, eu escrevera de maneira clara nas páginas do meu diário que a minha relação com ela era absurda, um malentendido. ela não sabia o que era amar. várias vezes decidi e escrevi que, para salvaguardar a minha saúde mental ou o que dela me ia restando, tinha de separar-me dela, deixar de a ver. mas depois vinham as páginas em que eu me desdizia, em que admitia que tinha exagerado na severidade das minhas críticas, que a julgara injustamente. e assim foram passando os dois anos, entre o êxtase, a excitação, a irritação, a insatisfação, as suspeitas, o prazer, o tédio, a dúvida e a minha crescente convicção de que apesar de continuarmos muito ligados um ao outro as nossas relações eram um desastre. para as salvar seria preciso fazer qualquer coisa. mas faltou-me a paciência para dar ao assunto a atenção que ele merecia e faltou-me o talento para me entregar a essa reconstrução. sempre achei que a amava, mesmo quando ela me irritava. mas ela cada vez mais me parecia sofrer de bipolaridade, alternava a ternura exagerada com atitudes agressivas de menina mimada. não me tratava com consideração, não me tratava bem. eu não tinha solução para os problemas que a relação com ela constantemente me levantava. o bom senso obrigava-me também a reconhecer, por muito que isso me doesse, que uma mulher que impulsivamente me deixara ao fim de dois meses, sem sequer me avisar, para ir viver com um tipo que encontrara na national gallery, não merecia ser tida em grande consideração. ela voltou pela segunda vez aos braços do seu pintor e eu, como já disse, parti para lisboa furioso e desagradado comigo por tê-la aturado durante tanto tempo.

que vinha agora fazer a londres, então? mudara de ideias, começara a acreditar de novo que a relação com ela era possível? tinha saudades dela e concluíra que afinal nenhum amor é perfeito? apesar das nossas disputas e do seu comportamento incerto, tinha saudades dela, reconheço. apeteceu-me vê-la. telefonei-lhe e vim, sem me preocupar sequer em saber qual era a sua vida actual, se continuava a viver com o aspirante a pintor ou se vivia com outra pessoa. esse primeiro encontro no museu da ciência e da tecnologia levara-nos a covent garden. de covent garden fomos para o meu hotel em belgrave square e fizemos amor. a seguir fomos jantar ao entreprise. não falámos do passado nem do futuro. levei-a à meia-noite aos subúrbios de londres, onde ela morava numa casa com jardim, perto de uma escola secundária que se não erro se chamava st. francis. ficou combinado que nos veríamos no dia seguinte para almoçar. já tinha entendido que ela trabalhava numa galeria de pintura em south kensington e marcámos encontro para o ricardo’s, um restaurante italiano onde antes íamos jantar com frequência.


ela chegou elegante, sorridente, decotada. e depressa percebi que não mudara nada. a mesma alternância de ternura infantil e de mau humor. mas eu estava encantado. peguei-lhe na mão, ela não a retirou. perguntei-lhe se tinha sentido saudades minhas, disse-me que nunca me tinha esquecido, que eu havia de ser sempre o seu menino preferido. perguntei-lhe se queria jantar comigo, respondeu-me que não podia porque tinha um namorado e não era boa educação deixá-lo duas noites seguidas sozinho. pensei que tinha ouvido mal, mas não lhe pedi para repetir. ela não mudara, definitivamente não mudara. tu tens um namorado, perguntei-lhe. oh, é o mesmo, o pintor. mas não o amas, insisti eu. claro que sim, protestou ela. e riu-se. mas tu fizeste amor comigo ontem, disse eu timidamente. qual é o problema, respondeu ela, não fizemos já amor tantas vezes antes? e acrescentou: sexo é sexo, amor é amor, são coisas distintas, já cheguei a essa conclusão. arrisquei–me a perguntar: e eu para ti, sou sexo ou sou amor? tu? pegou-me na mão e ficou a olhar para o tecto do restaurante. acho que contigo é sexo e amor ao mesmo tempo. mas creio que é sobretudo amor, um amor antigo a que se volta de vez em quando porque se têm saudades. fiquei calado, perplexo. eu: porque te foste embora, então? ela: estava confusa, não sabia então o que sei hoje, tive de aprender. eu: se eu te pedisse para voltares, voltavas? calou-se outra vez, pensativa. disse: acho que não, quais eram as vantagens para ti ou para mim? as nossas relações eram quezilentas. apesar de eu gostar muito de ti, o amor do princípio, aquela paixão que cega, foi-se. o que é o amor para ti, perguntei eu, inquieto. não queres que te explique a ti o que é o amor, era o que faltava, disse ela. perguntei: amas o pintor de aguarelas? acho que sim, disse ela, nem penso nisso. eu: em que é que a relação com ele é diferente da que tinhas comigo? onde está, como se manifesta esse amor que na tua opinião já não existe entre nós? entre nós deixou de haver paixão, já te disse. tu deixaste de me admirar, não me ouvias, não levavas a sério o que eu fazia, eu aborrecia-te. não duvido de que gostasses de mim, mas as minhas conversas e o meu projecto de vida não te interessavam, a minha presença incomodava-te. não te esqueças de que quando nos separámos já não fazíamos amor há mais de três meses. o teu interesse por sexo desde que eu voltei a casa depois de ter estado com o pintor era irregular, nunca mais te mereci inteira confiança nem empenho suficiente na cama. faltava-te a paciência para os longos detalhes. não te ofendas, mas encontrei melhor, um homem mais atento e mais paciente. irritou-me. idiota. eu estava farto de a ouvir dizer parvoíces. calei-me. estava de mau humor, decidi ir-me embora. pagámos e fomos andando a pé até old brompton road. vou apanhar um táxi, disse eu. eu levo-te ao hotel, ofereceu-se ela, fica no meu caminho. não estejas melindrado comigo, tu sabes que eu te adoro, disse ela. não sentiste ontem, quando estivemos juntos e fizemos amor, a ternura que ainda sinto por ti, que ainda existe entre nós? claro, o amor é outra coisa, mas não nos queixemos, tu sobretudo não te queixes. é preferível levar estas coisas com um espírito um pouco desportivo. os corpos vão e vêm, os espíritos não se confundem nem protestam. espero que não voltes a chamar-me puta, como o fizeste antes, infantilmente. não sejas retrógrado. vê se entendes o que sentes. aprende a comportar-te de acordo com o que sentes em vez de seres escravo de ideias aprendidas e de modelos de comportamento absurdos e irracionais. sê objectivo. lê os filósofos pragmáticos americanos, talvez te ajude. eu dormi contigo ontem porque gosto de ti. não quero viver contigo sempre porque não gosto de ti o suficiente para partilhar tudo contigo. o homem com quem vivo não me aborrece, adora-me, o que me dá muito jeito. é confortável. além disso não é ciumento, não se mete na minha vida, está-se nas tintas para o que eu faço porque está seguro de que eu o amo. pois, entendo, disse eu em voz baixa, pesaroso, muito confuso, com sentimento de culpa. dei-lhe um beijo, despedi-me dela ao pé do carro vermelho que ela tinha deixado estacionado perto do restaurante.

fui a pé para o hotel. como já disse, sentia-me confuso e triste, nostálgico e pesaroso. eu de certo modo não deixara de a amar. ela é que não podia ou não queria ser amada como eu a queria amar. eu não lhe era necessário. ter voltado a londres para a ver tinha sido um erro, viera remexer em cinzas ainda quentes. as pessoas não mudam. ela não mudara. evoluíra. essa evolução não me favorecia a mim em particular, só era evolução para ela. eu, porém, também continuava a ser o mesmo. e para ser sincero, estava contente por ter voltado a londres. o meu regresso não fora má ideia, não fora inútil nem desagradável. e não só por ter estado com ela, pois andar a pé em londres é um dos meus grandes prazeres. os momentos que tinha passado com ela, por outro lado, tinham sido tão intensos, tão perfeitos como nos melhores dias das nossas relações. em resumo: de que me queixava? de não a poder ter só para mim? quando a tivera só para mim as coisas não tinham corrido bem, eu aborrecera-me, ela desinteressara-me e acabara por procurar uma relação mais intensa com outra pessoa. a evolução dela, uma vez que nos permitira passar uma noite juntos como antigamente sem termos de nos preocupar com nada nem com ninguém, na realidade também me favorecera a mim. ela não me pertencia. mas também não pertencia ao outro. não pertencia a ninguém. não havia portanto ofendidos nesta história, apenas beneficiados. aceitaria eu, se vivesse ainda com ela, semelhante situação? pensei um pouco no assunto e torci o nariz, pareceu-me que não. mas sabe-se lá. cheguei ao hotel e fui logo deitar-me. ficaria em londres pelo menos mais uma semana só para poder ter o prazer de estar com ela mais duas ou três vezes. no caso de lhe apetecer, evidentemente.


p.s. quando acordei na manhã seguinte continuava confuso e tinha mudado de ideias. vieram-me as saudades do sul da frança, onde tinha alguns amigos. decidi partir no comboio da tarde para paris. em paris apanharia o tgv para marselha ou aix.
provavelmente voltaria a sentir saudades dela, mas não me apeteceu vê-la de novo. não a julgava nem a condenava, concluí apenas que não me convinha viver sem princípios nem fronteiras.

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