Friday, February 16, 2007

curioso

curioso como a ausência de resposta
faz crescer até limites insuportáveis
a solidão daquele que falou daquele
que usa as palavras como se elas não
tivessem o poder de como lâminas
entrar pela carne invisível do espírito
daquele que usa as palavras as frases
como se elas e o que elas dizem fossem
apenas literatura nada de importante
nada para ser levado a sério vício vão

realmente curioso como bruscamente
se afasta de nós magoada aquela que
nós queríamos beijar e abraçar o amor
é uma arte difícil a única arte talvez
que merece o sagrado nome de sublime

não havia razão para tanta inquietação
nem há razão para tanta ansiedade mas
como viver no corpo dos outros como
convencer quem nos ama da nossa fé e
mais sincera vontade de amar ser amado

e então a porta do carro abre-se e ela diz
até amanhã obrigado pelo jantar depois
telefono-te e tu dizes não me dás um beijo
e ela diz noutra ocasião e vês que ela se
afasta cheia de nuvens na cabeça sem sorrir
os olhos no chão como se fosse necessário
meu deus como se fosse necessário ainda
perder passos e horas nos desvios veredas
do desentendimento como se fosse preciso

eu sei eu disse que a nossa maior ambição
é sempre destruir o amor destruir aquela
ou aquele que amamos para que enfim livres
dela ou dele o espírito possa reencontrar a
paz interrompida de acordo eu disse isso e
esqueci-me de dizer que o amor que resiste
a esse ataque traiçoeiro é o único que merece
ser considerado amor verdadeiro mas seria
motivo para te calares ao meu lado no carro

também disseste que eu falava sobretudo de
mim mesmo não tinha interesse em conhecer
a tua vida e disseste que eu te interrompia
quando tu começavas a falar de ti e eu senti
vergonha de mim porque sabia que tu tinhas
razão mas também te expliquei que não queria
intrometer-me demasiado na tua vida que tu
podias pensar que eu estava a investigar o teu
passado e já não sei porque me perguntaste se
era importante eu saber com quantos homens
tinhas dormido eu disse que não que era uma
pergunta absurda nem sequer me interessa
disse eu descuidadamente ouvir-te falar
daqueles que amaste no passado meu deus
tu complicas tudo e depois eu não sei onde
está o erro fico perdido quando foi que eu
disse o que não devia ter dito quando foi
que o teu rosto se fechou e deixei de merecer
os beijos da despedida aqueles que me devias
dar antes de abrires a porta do carro e saíres
disparada infeliz pensativa para a tua solidão

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