Sunday, January 07, 2007

Violentamente

Entrei num bar sábado à noite e vi-a logo, encostada ao balcão. Como havia muita gente, fiquei-me por ali, à entrada. Um encontrão deslocou-me para o corredor. Consegui manter-me ao canto do balcão e pedi uma água tónica. O rosto dela seduzia-me violentamente. Não pela sua beleza convencional, como tantas vezes acontece; mas devido à força do seu olhar, a uma espécie de tranquilidade que lhe alisava a pele e a mantinha ali, num ambiente em que dominava a excitação, senhora do seu corpo, do seu espírito. Ela olhou-me quando eu a olhei e por várias vezes quase surgiu um sorriso de cumplicidade na sua boca. Terá surgido? Mais tarde pedi uma cerveja. Entre nós uma loira banal servia de muro, separava-nos. Não tive coragem para arriscar tudo numa jogada única. Ela acabou por ir-se embora e eu fiquei de cerveja na mão (não me apetecia beber) a ver se ainda havia alguém à minha volta que merecesse atenção. Sentia-me bem, seguro de mim. Não tinha vindo à espera de nada exactamente. Por outro lado, pensei a dado momento, não convém precipitar-se. Quem sabe se o meu espírito, ansioso por encontrar onde se amarrar, não estava já a comportar-se estupidamente? Entendi, quando ela se foi embora e disse adeus com a mão ao barman, que vinha ali regularmente. Por um lado não gostei de a saber amiga do tipo que estava ao balcão. Por outro ela comportou-se de maneira tão natural (tão europeia, apeteceu-me dizer) que admiti logo a possibilidade de voltar a encontrá-la de novo. Talvez então seja possível, caso o seu olhar de novo se cruze com o meu, falarmos e eu dizer-lhe: lembro-me de si, daquela noite de sábado, quando você estava aqui com uns amigos e eu tinha vindo sozinho beber um copo; fiquei com uma curiosidade enorme de a conhecer. Quando cheguei a casa ainda não me tinha esquecido do seu rosto, da sua serenidade, do bem-estar que parecia irradiar da sua pessoa. Mas nunca mais voltei àquele bar, nunca mais a vi.

(1995?)

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