Monday, January 08, 2007

Variações sobre a cómoda inglesa (2)

Eu tinha uma cómoda inglesa,
objecto de estimação.
Não valia grande coisa,
só que dava-me um jeitão.
Nela guardava segredos,
cartas, charutos, pastilhas;
e alguns retratos teus
em calções, de sapatilhas.
Ó móvel de estimação,
ó cómoda das maravilhas.

Numa das suas gavetas,
enrolados num jornal,
tinha dois sorrisos teus,
minha duquesa real.
Se estava triste, beijava-os,
já não me sentia mal.

Trouxe marcado na alma
o brilho do teu olhar.
Mas não me serviu de nada,
tu tinhas a quem beijar.
Agora se penso em ti
apetece-me chorar.

Os teus olhos, os teus lábios
brilhavam na noite escura
como o casco de um navio,
doido, de um porto à procura.
Eu ia para beijar-te
mas achei que era loucura.

Tu sentaste-te ao meu lado
e eu sentia o teu calor.
Mas como saber se era
curiosidade ou ardor?
Encostei-me à velha cómoda
cheio de medo do amor.
Mas confesso que hesitei.
Agora que já estou longe
é que digo o que sonhei.

Naquela cómoda inglesa
onde guardava o que tinha
guardei também o meu sonho
de um dia chamar-te minha.
Tu não soubeste de nada.
Agora digo: parvinha!

Ó cómoda utilitária,
sempre disposta a aceitar
os meus delírios e as cartas
que só falavam de amar.
Tu talvez fosses banal;
mas eu só sei suspirar.

Tu tinhas um namorado
que te amava com paixão
por isso em vez de beijar-te
calei o meu coração.
Guardei-o na velha cómoda,
tapei-lhe a respiração.

Já cansada de me ouvir
gemer e falar de ti
disse-me a cómoda velha:
ó rapaz, relax e ri.
E eu segui o seu conselho,
pus-me a rir, já não sofri.

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