Tuesday, January 09, 2007

A surpresa

O real resplandece e a ilusão
de estar no lugar certo, em casa,
visita o corpo como a amada que bate
à porta daquele que não se cansa de
pensar nela. Cessara a esperança, talvez,
ou afastara-se das margens e viajava no rio
largo da fantasia, esquecido, aquele que dá
forma e intensidade à figura da ausente.
Cada dia, porém, é original: um homem
levanta-se, olha o desconhecido diante de si,
não sabe o que o espera. Por isso se apressa
e, distraído, lava-se e veste-se. Quando ele
sai de casa a intuição da novidade, do
momento único, começa a revelar-se
tenuemente. A surpresa surge, inesperada
ainda, apesar da preparação. E o homem
eleva o rosto e o olhar na direcção da luz
divina: o real resplandece. Desejo?
Nostalgia? Conforto? Reconciliou-se
com o destino o exilado da vida? Não
sabe. Não quer saber. Abandona-se
(abandona o corpo e o espírito)
ao desconhecido, deixa-se afundar
lentamente na volúpia de ser.

Santa Barbara, 8 de Dezembro de 1994

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