Tuesday, January 23, 2007

a santa

cada um de nós tem o seu destino um volume
encadernado em coiro com o nosso nome
em letras doiradas na capa e na lombada

a minha ambição é modesta quero amar
uma santa um rosto puro mãos brancas
onde se desenha tenuemente o azul das

veias olhos limpos a ternura emanando
da auréola sagrada do seu corpo nunca
tocado pelas mãos de outro homem e que

ela me ame como os cordeiros amam os
prados em que vão pastar o sonho nunca
se concretizará mas a minha vida seria árida

se não a dignificasse a aspiração a um
sublime amor não tenho remorsos não me
condeno por pensar o que penso estou ainda

sentado em casa uma vez mais sentado em casa
o tempo vai passando a noite igual a tantas outras
monotonia estou cansado disto tudo sei coisas de

mais a minha ignorância cresce à medida que vou
aprendendo se fosse possível parar deter-se no
lugar do percurso da vida em que nos sentimos

bem mas quem quer saber dos nossos desejos
há sempre alguém à nossa espera mas nós não
vamos ficamos à janela a ver se chega aquela

que nunca chegará quando nos falta a paciência
sentamo-nos a ler um livro e adormecemos ela
a amada visita-nos no sonho que nos levou por

paisagens desconhecidas ao despertar estamos
sós porém e a escuridão da noite cresceu sobre
si mesma ventre insaciável trevas da paz da dor

a santa paciente espera por mim no seu altar
o rosto branco inspira respeito e devoção eu
timidamente ponho-me de joelhos e inclino

a cabeça fecho os olhos fico à espera de que
com a sua voz ela me desperte da morte em
vida da inconsolável monotonia do tédio de

uma existência sem amor à medida do meu
coração a santa ouvirá a minha prece a santa
compreenderá o que eu penso a santa estará

disposta a prestar-me uma atenção sincera
pergunto-me eu os automóveis passam na
auto-estrada fazem ruídos profanam a minha

meditação a minha oração hoje não chegará aos
ouvidos da santa já percebi é melhor ir deitar-me
dormir esperar pela boa ocasião o destino não se

decide quando nós queremos é sempre assim
será castigo divino a severa justiça suprema
que deus nos acuda agora e à hora da morte

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