Sunday, January 28, 2007

Índices de realidade

Eu não minto, mas sei como se mente. Tive a sorte de ter uma professora que era uma sumidade na matéria, ela ensinou-me como dar aparência indiscutível de verdade à mentira mais escandalosa, mais desnecessária, mais inacreditável. Mentir, de facto, é uma arte que não está ao alcance de toda a gente. É preciso muito talento, sangue-frio, alguma memória, imaginação, agilidade mental, teimosia, persistência - e falta de escrúpulos. Além da imaginação e da sabedoria adequada, é necessário ter ainda a capacidade de dissimulação de um actor profissional. Se me pedissem que isolasse, entre tudo o que aprendi, uma técnica eficaz, susceptível de ajudar a mentir melhor aqueles ou aquelas que não são particularmente dotados/as para tal arte, sublinharia que é fundamental a mentira principal estar integrada numa série, que não precisa de ser longa, de outras mentiras menores sem muita importância em si mesmas (uma ou duas devem bastar) . Por exemplo, se foste a Coimbra encontrar-te com o teu amante ou a tua amante mas disseste em casa que ias ao Instituto Camões em Lisboa tratar de assuntos profissionais, introduz na tua mentira vários elementos (“índices de realidade”, como lhe chamou Barthes, se não erro, cuja função é reforçar a verosimilhança da narrativa) que tenham a ver com Lisboa. Viste lá uma pessoa num restaurante, o Figo, por exemplo, o que te surpreendeu, pois ele joga em Itália, não esperavas vê-lo ali; ficaste no hotel Tivoli, como é costume, mas desta vez não gostaste do quarto, o ar condicionado não funcionava; estiveste para ir ver um filme que está no cinema X ou Y mas à última hora, já em frente do cinema, sentiste-te tão cansado/a que desististe, meteste-te num táxi – um Lexus, imaginem, nunca tinhas visto um táxi Lexus! - e foste dormir; queixa-te do trânsito em Lisboa, no Marquês então está pior do que nunca, o túnel não resolveu nada; viste o Eusébio num café a conversar com o Oceano, nem sabias que eles se davam, ficaste surpreendido/a; tomaste um café na esplanada do Centro Cultural de Belém, viste lá o Jorge Silva Melo a beber uma água das pedras e ele pediu-te o isqueiro para acender o cigarro. Quem é que teria coragem, depois de tantos detalhes absolutamente inúteis, de duvidar de que estás a dizer a verdade? Só mesmo um céptico absoluto ou uma pessoa de muito má fé. Ou alguém que te viu em Coimbra, evidentemente.

P.S. Para ser sincero: mentir é a coisa mais fácil que há. E é um vício. Deve dar prazeres espantosos. Mas eu tinha de dizer que é difícil para valorizar a minha espantosa professora.

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