Thursday, January 11, 2007

Na sombra

Quem sabe o que se passa no espírito do exilado? Viveu em vários países, conheceu a humilhação às vezes. Aprendeu a liberdade e deixou de recear a morte. Tendo visto sob a máscara da amabilidade em tantas ocasiões o ódio, aprendeu a suportar a hipocrisia. Sempre as montanhas, os rios e as árvores lhe serviram de refúgio, reconciliavam-no com a existência. Aquelas que o amaram e as que apenas simularam o amor enriqueceram os seus dias futuros com memórias. Umas dolorosas – não é fácil esquecer o que se perdeu; e tudo se perde – e outras que vertem na parte do seu corpo a que ele chama a alma o bálsamo da compaixão. Ciclicamente foi necessário rever as regras e as leis, adaptar-se ou lutar abertamente contra a prepotência sem escrúpulos. O exilado resistiu, mas sabe que o obrigaram a lutas sem sentido alguns imbecis. Num momento difícil sentou-se num café à tarde, reconfortava-o a presença anónima de outras pessoas à sua volta. Na sombra os inimigos, medíocres, imaginavam estratégias para arruinar a sua força e ele não o ignorava. Protegia-o da hostilidade o seu amor pela insignificância e pelo sublime que caracterizam o ser humano e as suas atitudes. Disse: nunca perdi nenhuma batalha porque o meu desejo sempre coincidiu com a aspiração à perfeição interior, à maturidade. Doíam-lhe em qualquer parte as ofensas. Apesar disso alegrava-o o sol que brilhava na tarde de Outono, suave e fiel às horas nunca anunciadas do encontro.

Santa Barbara, 19 de Novembro de 1994

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