Tuesday, January 09, 2007

Com quem?

Arrefeciam as noites às vezes depois
de um dia quente. Tão distante
o mundo real. E o espírito resistia.
Esperando não se vai a lado nenhum.
Mas bastava ir mantendo viva a ideia
do amor, a recordação dos lugares
onde a alegria e a dor se misturavam
para fazer dos dias um lugar de habitação.
A poesia leva ao reino das sombras,
ao fim do único caminho. Depois
o viajante pára diante da floresta
densa, no sopé da montanha elevada
e lamenta não poder continuar.
Com quem trocar impressões acerca
da impossibilidade de atingir a meta
do desejo? Quem compreenderia
as queixas? A poesia serve de lugar
secreto de refúgio, quem quiser pode vir
ouvir a voz discreta daquele que se sentia
excluído. Quem sabe, porém, como viverão
os nossos descendentes? Serão esquecidas
as palavras, confundir-se-á o seu sentido
e ninguém compreenderá o que nos aconteceu.
Passar o tempo, iludir-se um pouco,
sentar-se à mesa dos cafés a ler e a escrever,
a imaginar ou a recordar o que não existe.
E nenhum amor era possível, mesmo que
nos dirigissem a palavra ficaríamos calados,
duvidando. Para que serve falar?
E ouvir, para que serve? No deserto
da cidade encontrei um homem
estrangeiro na bomba da gasolina.
Era amável, sorria ainda apesar
de ter sido expulso pela guerra da casa
e do país. Falámos um pouco, depois
eu fui-me embora. Pensei nele e em
mim, nos destinos absurdos a que a
História obriga os homens, contra a
a sua vontade. Arrefecia a noite
de Verão. No café chilreavam
rapazes e raparigas. Onde tinha
lugar a existência verdadeira?

Santa Barbara, 2 de Junho de 1994

No comments: