Friday, January 19, 2007

amanhã

pois disse ela para justificarmos a vontade de dormir uns com os outros romantizamos os desejos as relações o que me aborrece é que a cena se repete eternamente e de cada vez acreditamos que o desejo que temos do corpo e da intimidade com outra pessoa é desejo de uma relação séria antes de irmos para a cama antes da nudez fazemos projectos passar muito tempo juntos viajar juntos ir ao cinema juntos ir ao restaurante e depois o que é que acontece muitas vezes não acontece nada como estava previsto e depois de termos ido para a cama duas ou três vezes ou até uma vez com a pessoa que já estávamos a integrar no nosso futuro deixa de nos apetecer passar tanto tempo com ela viajar com ela ir ao restaurante com ela descobrir coisas novas com ela conhecê-la melhor o sexo e o amor são coisas diferentes embora por conveniência nós tentemos misturá-las confundi-las por isso eu não acredito no amor e cada vez acredito menos os nossos desejos não merecem ser embrulhados em tanto lirismo em tanta delicadeza em tanta espiritualidade a decepção a solidão ressurgem depressa a outra pessoa aborrece-nos cedo perdeu interesse às vezes é preciso tacto para se livrar dela sem a magoar eu por mim estou cansada acho que somos escravos dos nossos apetites sexuais de uma maneira que não nos dignifica acho que por causa deles fazemos asneiras incríveis que por causa deles nos degradamos há certos momentos em que não tenho qualquer consideração por mim mesma não chego a ter nojo de mim mas sinto-me ridícula uma porcaria uma impostura o problema da solidão afinal não se resolve na cama sim de acordo temporariamente por instantes podemos ter essa impressão mas em breve começamos a entender que andamos à roda dentro de um círculo que não tem saída comportamo-nos cegamente exactamente como os ratinhos das experiências

eu não tenho pressa disse ele eu sei isso tudo não quer dizer que não me apeteça dormir consigo só quero dizer que a minha experiência é semelhante à sua por isso estamos aqui a jantar e eu admiro a sua beleza o decote do seu vestido que me deixa ver o princípio dos seus seios os seus olhos são expressivos além disso sei que você não é uma pessoa qualquer a sua inteligência as suas qualidades aumentam o meu prazer de estar aqui consigo e sinto-me bem com a sua mão na minha é verdade que não sei ainda muito bem onde é que você está onde situá-la conhecemo-nos há pouco tempo há qualquer coisa provavelmente muita coisa que me escapa talvez a sua timidez o seu receio sejam a razão não sei mas não estou apressado gosto de saborear o que acontece lentamente à medida que vai acontecendo não tenho ilusões provavelmente estou também com receio de chegar eu próprio uma vez mais à mesma conclusão isto é para dizer as coisas claramente tenho medo de a perder antes mesmo de me ter apoderado de si se posso exprimir-me assim desta maneira incorrecta sim tenho receio de a destruir ou de a ver destruir-se inexplicavelmente por qualquer razão mesquinha ridícula inconsciente sem nada poder fazer para salvá-la medo de perdê-la de repente e de ficar desprovido sem nada sem esta esperança que por enquanto me anima esperança que fez de mim uma pessoa mais alegre mais optimista e me levou hoje a telefonar-lhe a apressar as coisas sem eu o ter decidido de antemão que me levou a marcar uma mesa no restaurante a trazê-la aqui sim estou sensibilizado com a prova de estima que recebi com a confiança que depositou em mim mas já percebi estamos os dois com medo de nos perdermos um ao outro definitivamente antes mesmo de termos iniciado a nossa relação e depois embora você pareça feliz e esteja a gostar do restaurante um dos melhores que eu conheço devo dizer a minha escolha dos pratos foi um desastre estes americanos não têm o mínimo talento culinário carne ou peixe tem tudo o mesmo sabor e os legumes parece que saíram directamente de uma máquina que cumpre o seu dever sem saber o que está a fazer legumes que não sabem a nada a civilização a cultura não se aprendem não se adquirem de um dia para o outro é um facto e estes americanos são excelentes programadores de muita coisa mas péssimos executantes de quase tudo claro haverá excepções mas é um facto que se a carne e os legumes têm o ar de ser excelentes isso basta-lhes cumpriram o dever deles acham que merecem ser pagos mas esta porcaria de jantar deixou-me desiludido é um roubo o que me aborrece é que este restaurante antes não era assim não sei se mudou de proprietário não vejo cá os italianos do costume nem aquele rapaz que sempre me sugere um vinho excelente e nada caro mas você é amável acha que o lugar é esplêndido e está-me reconhecida por eu ter praticamente pegado em si e tê-la trazido comigo de modo que é melhor eu não dizer o que penso você amanhã trabalha

não disse ela amanhã não trabalho de manhã só à tarde mas o fim-de-semana vai ser duro é o costume por isso não sei quando é que nos podemos ver

eu estou disponível disse ele passo a maior parte do tempo em casa basta você telefonar-me se quiser aparecer até pode ficar lá dentro a ler um livro se eu estiver a trabalhar faz-me companhia e eu a si somos dois solitários é o que parece pelo menos você tem um ar triste não sei se é impressão minha eu não tenho medo não estou preocupado com o futuro das nossas relações eu necessitava de encontrar alguém que me prestasse alguma atenção e agora que fiz um esforço e a conheci a si e estamos aqui e iniciámos qualquer coisa que ainda nem sabemos o que é pergunto-me se a minha solidão prolongada não tem sido consequência da preguiça ou da timidez realmente não sei ou de um apego excessivo aos livros e à escrita mas sei que quando me decidi a fazer um esforço e me concentrei em si alguma coisa aconteceu encontrámo-nos falámos eu corri o risco de ser rejeitado se eu fizesse isso mais vezes lembra-se daquela rapariga de que lhe falei a beatriz ela tinha-me dado o telefone dela e quando eu lhe telefonei uma noite foi simpática comigo mas quando lhe perguntei se estava só e ela me disse que estava com o namorado eu comportei-me como um adolescente sem experiência pedi desculpa não quis incomodar e desliguei se fosse agora tinha continuado a conversa porque de qualquer modo ela tinha-me dado o telefone portanto algum interesse tinha em mim e eu fui um imbecil não sei se me comporto assim para fugir às responsabilidades e ao peso dos sentimentos não adianta falar nisso e se menciono este episódio é mais para lhe fazer compreender como me tem sido difícil comunicar com as pessoas neste país mas sei lá talvez me tenha comportado assim noutros países onde vivi antes se não sempre pelo menos muitas vezes comportei-me assim pode ser uma fragilidade do meu carácter esse tal medo de ser rejeitado ou então não quero aturar pessoas que não merecem tanta atenção não sei tudo isto são hipóteses também já pensei pode acontecer que a maior parte das pessoas que conheço das raparigas das mulheres que conheço não me interessem o suficiente embora a beleza me faça inicialmente acreditar que sim mas também há outra coisa é que às vezes é difícil decidir-se porquê esta e não a outra porquê você porquê eu por exemplo em vez de outra pessoa


ela ouvia-o falar e olhava para ele com dedicação timidez ternura ele não estava habituado por onde é que eu andei todos estes anos onde é que eu estive perguntou-se ele não prestei atenção vivi embrenhado nas sombras de uma floresta confusa de que finalmente pareço ter saído sim eu sei já pensei nisso a merda do prozac tornou-me passivo tolerante desinteressado fez de mim uma pessoa excessivamente artificialmente tranquila e eu não me dei conta disso foram anos e anos a tomar essa porcaria e agora é que me dou conta esta noite mesmo estou a dar-me conta do mal que o prozac me fez eu pensava que tinha de me libertar da dependência dos tranquilizantes que aliás só raramente tomava e caí numa dependência maior ainda que imbecil que idiota que eu fui mais uma consequência da minha passagem por este país onde a ideologia consiste em acreditar que tudo se pode resolver e modificar mecanicamente sindroma frankenstein agora é que percebo por que razão me contentei quando não devia contentar-me por que razão suportei quando não devia suportar

ela perguntou-lhe em que é que você está a pensar de vez em quando você ausenta-se desaparece

não é nada disse ele nada de importante mas estou-lhe grato pela sua atenção

ela disse você fica de cabeça baixa a andar à roda com o copo da água mineral pensativo não me é difícil imaginá-lo num bar sozinho com o seu copo de whisky

ele riu-se eu não gosto muito de ir a bares porque não gosto muito de beber mas é verdade que recentemente escrevi uma história em que alguém parecido comigo está num bar a beber whisky e a fumar um charuto e há uma mulher que está sentada noutra mesa a observá-lo que não o conhece mas vai tentando adivinhar que tipo de pessoa é que ele é

ela perguntou você fuma charutos

ele respondeu às vezes sim

eu também gosto de fumar charutos disse ela

ele sorriu ela perguntou que marca de charutos é que você prefere

ele disse monte cristo não é nada mau mas romeu e julieta é mais barato e também não é mau

oh disse ela eu gosto dos monte cristo e dos romeu e julieta cubanos claro

um dia temos de fumar um charuto juntos disse ele

ela riu-se e disse já me está a pôr no seu futuro e não é uma acusação eu tenho estado fazer a mesma coisa acho que somos pessoas sólidas fortes apesar de sensíveis e que somos lúcidos sabemos que tudo pode falhar que entre nós pode nem vir a acontecer nada realmente e no entanto estamos aqui a comportarmo-nos como se fôssemos ignorantes pouco experientes inocentes ingénuos

eu também acho que é uma qualidade que temos os dois disse ele agirmos assim desprevenidamente como se não soubéssemos o que sabemos como se não tivéssemos conhecido decepções sérias

o empregado trouxe a conta eram horas de ir para casa e eles saíram ele fumou um cigarro antes de entrarem para o carro receou que ela estivesse a ficar com frio e mandou-a para dentro do carro mas ela não foi só foi quando ele próprio abriu as portas e se sentou foram pelos caminhos escuros tranquilos onde havia residências luxuosas escondidas por detrás das árvores e dos muros e enquanto ele conduzia ela pegou-lhe na mão ele conduzia só com a mão esquerda não estava embevecido nem convencido de ter dado nessa noite um grande passo em frente nas relações que há pouco tempo tinha começado com ela nem na direcção da felicidade mas a maneira como ela o tratava agradava-lhe sabia que não ia dormir com ela ainda sabia-o e não estava preocupado durante o jantar tinha-lhe dito que não estava maduro para ir para a cama com ela e tinha acrescentado logo a seguir eu sei que não é o tipo de frase que costuma sair da boca de um homem nestas circunstâncias mas é o que eu sinto e por isso digo-o sem qualquer problema ela tinha olhado para ele com malícia e comentara pois vamos ver daqui a bocado o que é que acontece quero ver se não muda de opinião se não insiste para eu ir dormir na sua cama e ele rira-se mas a verdade é que não tinha mudado de opinião a companhia a atenção a misteriosa ternura a estima dela neste momento bastavam-lhe ela que ele conhecia mal e que às vezes parecia um passarinho ferido sim era já muito o que estava a acontecer e ele sentia prazer em deixar amadurecer o seu desejo em deixar a imaginação espontaneamente acabar por inquietá-lo quando fosse o momento ela própria tinha dito as coisas que acontecem depressa de mais desvalorizam-se perdem importância não era tempo de colher e nós pensámos que sim e depois ficámos sem nada nas mãos ele estava tão seguro de que em breve acabaria por dormir com ela que não ia preocupado foi conduzindo calmamente levou-a a casa quando parou o carro na larga avenida em frente do jardim ela beijou-o na boca pela primeira vez em seguida ele arrancou e foi para casa

já em casa distraído diante do computador ouviu o telemóvel tocar era ela queria saber o nome de um pianista de jazz de que tinham falado que tinham vindo a ouvir no carro ela tinha enviado uma mensagem a perguntar ele ficou surpreendido imaginava-a a dormir procurou na internet o nome do pianista respondeu à mensagem e acrescentou mas sou eu que estou aqui a sentir a tua falta neste momento e era verdade o desejo tinha irrompido de não se sabia onde exactamente violento incómodo inesperado e então ele pegou no telefone ela atendeu ele murmurou vem ter comigo vem cá dormir ela riu-se disse não sejas tonto vai-te deitar falamos amanhã

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