Monday, December 31, 2007

Happpy New Year

Arte e excesso

Não me impressionam nada as fotografias "artísticas" nem a poesia "artística". Antes pelo contrário. Acho-as frias, ingénuas, arrogantes, infantis, aborrecidas, inúteis, prova de imaturidade. Ou quando muito superficialmente divertidas. A arte, numa fotografia como num poema, não deve surgir como um excesso injustificado que se propõe enquanto tal, à margem ou quase à margem do assunto, à admiração. O assunto é que conta, o assunto é tudo - e não me interpretem mal: o assunto é inseparável da forma sob a qual se revela, com a qual acede à existência, com a qual se apresenta diante de nós. Podia dizer a mesma coisa da beleza de uma rapariga ou de uma mulher? Quando há auto-encenação visível como excesso, porém, suspeito que existe neste caso tolerância da minha parte, é preciso é não haver exagero ou excesso que entre em conflito com os meus valores e critérios (estéticos, morais, seja lá o que for) e que haja, é absolutamente necessário, inocência interessante ou auto-ironia. Será possível perdoar à fotografia e à poesia o excesso se ele estiver encenado de maneira consciente (com ironia, portanto) e não entrar em conflito com os meu gostos (critérios morais, estéticos, etc.)? Creio que sim. Mas é necessária muita inteligência, sabedoria e maturidade. A maturidade não tem nada a ver com a idade: há crianças, meninos e meninas, há adolescentes de uma espantosa maturidade, isto é, dotados de uma ciência profunda, mesmo se não proclamada ou enunciada, sobre si e sobre o mundo.

O "excesso de arte", para não dizer a mania da arte, nasce de uma provavelmente mais do que aceitável necessidade de se superiorizar à existência comum, banal, pragmática, utiltária, que ameaça a nossa concepção elevada do ser humano. Mas essa necessidade de se distinguir dos outros remete-os a eles (só que nós somos sempre o"eles" de gente que se crê melhor do que nós) para uma inferioridade que o nosso olhar "educado" de pessoa culta olha de cima, com desprezo ou menosprezo.

O que é o "excesso de arte"? Todos os moderrnismos foram, na sua ambição entusiasta de transgredir e de dar a conhecer finalmente "a verdadeira arte"
, mais ou menos excessivos (com alguma profundidade e tolice ao mesmo tempo). Chocaram o público porque não lhe deram arte dentro dos limites considerados aceitáveis. Mas que fica dos modernismos, essa doença infantil ou adolescente, quando os modernistas se corrompem por sua vez e envelhecem? De alguns modernismos não ficou nada ou ficou pouco, outros alargaram certamente as concepções aceitáveis da arte.

O "excesso de arte" pode ser o excesso de imitação ou a prática estandartizada daquilo que em determinada época e sociedade se considera ser a arte. Já não tenho paciência para as fotografias "americanas" com cores fortes, casas escavacadas, ruas suspeitas, rostos negros intensos, cenas pitorescas dos subúrbios de Nova Iorque. Grande parte da poesia portuguesa actual publicada em livro, com ambições de elevada espiritualidade e estilo, é bastante enfadonha e já totalmente inútil.

Depressa e facilmente se chega a essa forma de banalidade superficialmente, aparentemente, artística. Um escritor ou um pintor que deixou de descobrir, de experimentar, que se tornou imitador de si próprio enquanto ainda era criativo, que interesse é que tem hoje? Pouco. Lobo Antunes, por exemplo, terá escrito mais do que um ou dois livros que valha a pena ler? E ele pensa que eu ia perder horas a circular no jardim zoológico dos seus romances para admirar o seu talento, pensa que eu não tenho nada de mais interessante a fazer? Anda iludido se pensa que o destino dele e a visão do mundo dele me interessam mais do que a minha vida. Prefiro passar meia hora a falar com uma rapariga intrigante e bonita, prefiro isso a ler histórias pouco interessantes sobre gente que não conheço nem me interessa conhecer através dos olhos "artísticos" de outra pessoa. Claro, Hamsun, Dostoievski, Tolstoi, Gogol, Balzac, Camilo ou Eça, é outra coisa.

E já agora, para terminar isto: não haverá excesso de vida interior na nossa maneira de nos relacionarmos com o mundo e connosco? E não haverá arte de mais ou a mais à procura- obscenamente, superficialmente, arrrogantemente, abusivamente, incomodamente, etc. - de nós? Porque não nos deixam viver em paz e sem ambições artísticas, sem vocação deliberada ou antecipada para consumir "esteticamente" a vida?

Um realizador de cinema alemão conhecido e muito festejado pelos jornalistas intelectuais perdeu a única vez que vi um filme dele, há muitos anos, a minha consideração e interesse para sempre, talvez injustamente, porque se deteve a dar-me um plano de paisagem verde tempo de mais - foram uns segundos a mais, mas comecei a aborrecer-me porque essa duração excessiva não tinha significação nenhuma no filme, era turismo puro, auto-deleite, coisa de cineasta sem nada de seriamente profundo a dizer.

As potencialidades do informe. Pensar nisso. O informe tem forma. Não tem é a forma que algumas pessoas queriam.


Friday, December 28, 2007

Réactions de sexe

"Depuis cinq jours, je ne vis plus à cause de toi, à cause de tes lettres stupides, de tes lettres de sexe et non d'esprit, de tes lettres remplies de réactions de sexe et non de raisonnements conscients. Je suis à bout de nerfs, à bout de raisons; au lieu de me ménager, tu m'accables, tu m'accables parce que tu n'es pas dans la vérité. Tu n'as jamais été dans la vérité, tu m'as toujours jugé avec la sensibilité de ce qu'il y a de plus bas dans la femme. Tu refuses de mordre à aucune de mes raisons. Mais moi, je n'ai plus de raisons, je n'ai plus d'excuses à te faire, je n'ai pas à discuter avec toi. Je connais ma vie et cela me suffit."

(Antonin Artaud, "Troisième lettre de ménage", L'Ombilic des Limbes, 1927)

Sunday, December 23, 2007

Literatura e cinema

Os escritores podem apaixonar-se pelas suas personagens e sonhar com elas, viver silenciosamente e solitariamente na sua companhia. Os realizadores de filmes podem apaixonar-se pelas personagens que criaram e depois ir ao restaurante com elas, dormir com os corpos que lhes deram. Parece ser uma grande diferença e uma grande vantagem, mas não sei se é.

Thursday, December 20, 2007

Fábrica de Braço de Prata

A OVNI, jovem editora do Entroncamento, vai estar hoje, dia 20, na "Fábrica de Braço de Prata" para apresentar as suas publicações. Devia estar lá em cumplicidade com o Álvaro Góis e o Henrique Fialho, mas a distância não o permite. Eu vivi quando era miúdo em Braço de Prata e tenho recordações importantes desses anos da minha infância. Podia ser divertido.

P.S. Eu estive uma noite a tomar um café na "Fábrica de Braço de Prata", há meses. Fui lá com curiosidade porque quando era miúdo vivi em Braço de Prata e porque um tio meu j
á falecido, militar idealista, inventor apaixonado, foi director da Fábrica durante algum tempo (pouco, creio). Na noite em que estive na "Fábrica" apareceu lá um pianista e pôs-se a tocar. Vinha com um rapaz que se pôs a recitar poemas, devia ser um ensaio para evento posterior. A música era agradável, o recitador recitava poesia bastante bem, mas os poemas eram inúteis, recordo-de de umas "mãos manuscritas" que surgiram a dado momento num verso e que me deram vontade de rir. O que serão "mãos manuscritas"? Havia outras incongruências semelhantes, obrigando-me a interrogar-me sobre "o que é a poesia" e "para que serve a poesia"? As poucas pessoas que estavam nessa sala antes da chegada do pianista e do recitador foram abandonando, mudaram-se para a sala do café do outro lado do corredor. Pelos vistos pouco interessadas. Bom senso compreensível. O que é a poesia, realmente? Uma frase ridícula fora do poema é ridícula no poema. A poesia é na nossa sociedade vista pelo senso comum, que é o mais corrente, como uma espécie de discurso da insensatez - mas com sugestões de sentidos "profundos" na frase insensata (os doidos, afinal, são criaturas diferentes). Essas "profundidades", já se entendeu, são descoberta do espírito inefável dos eleitos, os poetas. Assim se explicam as parvoíces infantis: acreditando que com as suas palavras se elevam a alturas irracionais e admiráveis, os poetas introduzem no meio de discursos que até são muitas vezes excessivamente correctos e relativamente coerentes,as tais frases absurdas, frases que fazem rir quem não se deixe impressionar pelo rótulo "poesia" posto por cima das tontices proferidas sob o efeito da "inspiração" e graças ao talento. Em recitais de poesia o mais difícil é sempre não bocejar ou não adormecer de tédio. Ou não rir às gargalhadas. Não há razão para considerar o que eu ouvi na "Fábrica" nessa noite como mais grave do que a actual situação da economia portuguesa. Os recitais de poesia, se fazem rir, não ofendem. O júri que atribuiu o último grande prémio de poesia em Portugal também não sabe o que é a poesia, não tem a mínima ideia do que ela seja, por isso limitou-se a escolher, entre duas cervejas provavelmente, um pseudo-poeta publicado numa editora conhecida, homem que diz os disparates mais divertidos e insensatos e acredita que eles têm algum sentido e importância para o resto da humanidade. Não têm a não ser como sintoma ou mito do nosso tempo ou da nossa sociedade tresloucada e com veleidades de oferecer à população passiva lazeres culturais. Enfim, é-se poeta em Portugal como se é condutor de eléctricos ou porteiro de hotel ou secretário de qualquer coisa, ou professor ou enfermeiro: é uma função social que convém não deixar extinguir-se porque nós precisamos de poetas para contrariar a realidade, a outra. Sentir que produzimos ou destilamos cultura prova que não somos construtores civis e distingue-nos dos banqueiros. Também nos distingue dos macacos, imagino, embora não acredite nisso.

Tuesday, December 18, 2007

Lumix 1


Depois de ler muitas coisas a favor e algumas contra, decidi começar a usar a Panasonic Lumix DMC-L1, com objectiva Leica Vario-Elmarit 2.8-3.5, 14-50mm (menos de mil dólares em Lotsa Stuff, preço mais baixo ainda em Amazon.com para quem tiver paciência para esperar vinte dias; os entendidos dizem que a objectiva só por si vale mais do que isso).

É uma tentativa de voltar a controlar as aberturas, a nitidez, a profundidade de campo - pelo menos. É cedo para extrair conclusões, por enquanto só tirei meia dúzia de fotografias, ainda por cima usando o flash. Amanhã, com a luz do dia, ficarei com uma ideia mais clara do que acontece. Mas apesar de a máquina ser pesada e não ter o charme da Nikon, confio.

P.S. Não gostei. É tudo tão fácil com a Nikon e os resultados tão espectaculares que não vale a pena procurar outras máquinas..

Saturday, December 15, 2007

Afinal

Afinal nem sempre se pertence ainda onde se pensava pertencer. Afinal, apesar de tudo o que eu dizia acerca da minha insuportável solidão, a minha melancolia explicava-se: a minha capacidade de amar era rudimentar, eu ia de subterfúgio em subterfúgio, o amor para mim não passava de uma alegre, divertida brincadeira. Badinage, mas não sexual exactamente. Não era que tal maneira de amar, a minha, não fosse profunda, sincera, intensa, compensadora. Mas o amor só podia acontecer na minha vida como um acidente, um desvio, um episódio exterior à minha outra vida. Que outra vida? Aquela em que, temendo perder-me de mim mesmo, eu não podia permitir que a paixão sem freio penetrasse.

A minha capacidade de amar era limitada ou eu limitei-a porque tinha medo? Eu amava a vida e a vida era um problema apaixonante, uma aventura e um enigma permanente. E só a ela eu me entregava com a dedicação sem limites que algumas mulheres pensavam poder exigir-me ou esperar de mim. E no entanto enquanto ia pensando estas coisas eu sentia que não era bem assim, que na vida só o amor realmente me interessara, que fora o amor a minha única peocupação na existência.

O amor de uma mulher podia ter-me permitido deixar adormecer em mim outros desejos e ajudar-me a viver. Mas nunca mulher nenhuma que eu estimasse e desejasse fora capaz de convencer-me de que me amava o suficiente - ou de que estava disposta a aventurar-se e a levar-me a aventurar-me pelos caminhos ásperos e sublimes de uma paixão profunda. Nunca uma mulher conseguira rivalizar seriamente com o amor que eu tinha à vida na sua totalidade ameaçadora e misteriosa. Nunca mulher nenhuma, afinal, me convencera de que o amor era aos seus olhos e na sua alma tão importante como eu, ingenuamente, imaginava e não cessava, talvez contraditoriamente, de esperar.

Não levei a sério nenhuma mulher porque nunca conheci nenhuma mulher que soubesse o que é o amor, o amor para as mulheres que eu conheci era um sentimento superficial, uma ingénua mitologia romântica, um pretexto passageiro para a satisfação de se sentir importante ou para a prática de emoções sexuais sem consistência - e, naturalmente, sempre um devaneio à margem do ser e dos seus obscuros enigmas.

Em resumo: o amor é uma forma de alegria grave e muito séria. O amor também é uma capacidade que se tem ou não, se desenvolve ou não. E, evidentemente, por todas estas razões fica claro que o amor não é independente da pessoa como um todo nem dos seus problemas. Creio que o amor se aprende e que se merece, sendo muito mais do que o devaneio superficial ou sexual com que nos distraimos da seriedade da vida e nos cegamos a seu respeito.

Saturday, December 08, 2007

Silêncio, nada

Habituou-se ao silêncio. Sons sem sentido não o interrompiam, ele ouvia mas não entendia, o caos dominava. O ruído dos corpos, porém. A pele das costas nuas, os braços, a nuca. E os olhos, apesar do silêncio. E os ombros das jovens raparigas. Ser adorado como um deus, é isso o amor. Duração limitada, mas quem pensa nisso? Depois tudo foi esquecido. As recordações de que servem? Se ele deixasse de desejar. Se ele se esquecesse enfim para sempre de tudo o que aconteceu. Ficou escrito na memória a história do malentendido. Era a paixão. Era a ternura, era o amor. Pensava ele. Foi? Talvez. Mas passou o tempo, bateram nas paredes onde se escreveu a história as ondas do mar violento. Regenerar-se. Quando? A morte aproximava-se, diminuía a capacidade de falar e de ouvir, o mundo organizava-se independentemente da sua vontade. Meu amor, disse ele. Qual? Quando? Em quem é que estou a pensar? Imperfeição sem limites, irremissível, sem solução. E naquele silêncio, naquela pobreza, ele repousava. Corpo morto já. Insensível. Sem esperanças. Acabado. As tardes de Verão, quentes. Estações antigas. Quem ia e quem vinha? Sombras, figuras irreais de sonhos alheios. Uns lábios. Um enigma. Mas ele não conseguia deixar de pensar. O movimento da água. Se ele pudesse, de novo, amar. Pensou: falta-me o tempo e a dor. Resgatar-se. Deixar de errar. Voltar ao café onde a rapariga lhe tinha perguntado: você o que faz? E os seus olhos duas vezes. E então. Tão simples, um olhar. Prendeu-o. Queria voltar lá. Mas que dizer-lhe? Ele não sabe falar, já não sabe. As palavras cansam-no, labor exagerado. As coisas deviam acontecer silenciosamente, apenas as mãos, apenas os olhos, apenas as pernas estariam envolvidas. Por isso ele prefere renunciar, de manhã fica em casa a dormir. Pobre de mim, que não acredito, pensa ele. Se fosse lá agora, antes de jantar, tomar uma cerveja? Não, não está preparado para isso ainda. Talvez um dia, quem sabe. Mas porquê escolher em vez de ser escolhido? Ou antes: porquê deixar-se inquietar por um olhar que nos desviou da sonolência em que, conformados, aprendíamos a solidão? Os meus velhos amigos, as jovens meninas a conversar nos cafés, a inocência, a beleza, a paixão, o medo e a alegria, onde se perderam? Já não sabe nada de nada nem de ninguém. E ninguém sabe de mim, nem quer saber, diz ele. Sentado na esplanada de um café observa o que não se passa. E no entanto acontecem na sombra, invisíveis, tantas coisas. Alguém começa a amar, por exemplo, descobre uns olhos, a linha pura de uma sobrancelhas, uma boca. Como dormir, depois? Nada se passava, a tarde ia declinando lenta e monótona, mas alguém vai recordar-se, mais tarde, daquele momento em que parecia que nada estava a acontecer. Renascer? Acreditar ainda? Ele baixa a cabeça, perde-se em pensamentos, não acredita no futuro.

Tuesday, December 04, 2007

Anarquia

Onde eu moro há um parque de estacionamento com muitos lugares na traseira dos edifícios. Nunca está meio, muito menos cheio. Os meus vizinhos preferem estacionar na beira da estrada, ao lado dos caixotes do lixo, em cima do passeio, em qualquer canto ou espaçozinho - sempre mais perto da porta de casa. Fazer dez ou vinte metros a pé assusta-os. Não entendo, acho prova de anarquia e sub-desenvolvimento, de enorme falta de respeito pelos outros. Nas ruas e na estrada é a mesma coisa. Há uma camioneta parada logo depois de uma curva a descarregar não sei o quê; uma carrinha parada na via de circulação do outro lado da rua quando havia, pertíssimo, lugar para estacionar logo ali; um carro estacionado em segunda fila mais acima, à direita; e duas senhoras a conversar tranquilamente no topo da avenida, antes da curva, num carro parado na faixa de circulação. As ultrapassagens pela direita, pela esquerda, mal a gente abranda numa rotunda, são frequentes. Carros colados a nós na estrada, com a febre da ultrapassagem, quase a baterem-nos nas traseiras, é o corrente. Isto é um país de selvagens exaltados, alegremente egoístas e descuidadamente irresponsáveis. É perigoso, irritante e insuportável. A polícia da cidade já nem se preocupa com isso, pois não actua, permitindo a barafunda. Em contrapartida as limitações de velocidade actuais em Lisboa são por vezes absurdas, mas como dão multas e dinheiro para a autarquia... as câmaras vão tirando as fotografias... Ras le bol.

Mais vale tarde...

Hermano Saraiva descobriu agora que Os Lusíadas são um poema subversivo, com críticas severas ao rei e aos poderosos da época. Filomena Mónica descobriu agora que Cesário Verde é um poeta importante. Mais vale tarde do que nunca. Mas em que planeta é que têm vivido um e a outra para só descobrir agora o que tanta gente já sabia? Mistérios. Tanta ingenuidade e entusiasmo são comoventes.

Friday, November 30, 2007

Quando toca o sino

Querias uma jovem mulher
com a sua harpa de sangue
para com ela iluminares a noite.
Só na eternidade existem os anjos
e as santas, nós vemos as sombras
e são elas que seduzem a nossa
imaginação febril. As palavras
que lançaste para o ar aonde
foram ter? Alguém te ouviu,
foste recompensado, amado?
Duvido. E se o foste, já passou,
pois nada dura, gasta-se o desejo
e o amor, o tédio e o ódio, os rios
correm para o mar arrastando
consigo a cinza dos nossos
pecados. E ainda assim amamos
a vida, essa aventura, o imprevisto
e o imprevisível, a dor e a chama
que queima o peito de alegria.
Aprendemos as palavras e os vícios,
acreditamos que existe a verdade e
a mentira, distinguimos as cores
entre si. Levantamo-nos e deitamo-nos,
os dias vão-se sucedendo e viver é
como ir de comboio a atravessar
planícies verdes onde há vacas a
pastar e casas brancas isoladas
na paisagem. Uma única palavra
de amor, sincera, verdadeira, é no
entanto tão difícil suscitá-la como
aceder ao reino dos céus imaginário.
Somos avaros ou pobres? Somos
cruéis ou impotentes? Somos a
ficção dos outros ou a nossa? E
passam os séculos, indiferentes
aos nossos sentimentos e estados
de espírito, ao nosso nascimento,
à nossa morte. Quem inventou isto?
Em vez de ter inventado outra coisa?
Aqueles que perdem o pé, aqueles que
se afogam nos rios caudalosos, aqueles
que nunca amaram nem foram amados,
aqueles que acreditam e os que duvidam.
Todos irmãos, iguais, pó dos caminhos
da montanha ou da aldeia. Contenta-te,
ó céptico, não te interrogues. Também
tu fizeste parte da história e nela
desempenhaste sucessivamente
vários papéis. Afastaste-te da estrada
que leva a uma morte tranquila,
embrenhaste-te pelas veredas da
floresta e agora queixas-te da falta
de companhia. Mas quiseste estar só,
não devias esquecer-te disso. Não
se volta atrás, soprou o vento e
apagou as pegadas do caminhante
no barro dos caminhos. Haver
princípio e fim, atrás e à frente ou
adiante, acima ou abaixo, é apenas
uma questão de fé. País da infância
tantas vezes ressuscitado e nunca
reencontrado, nunca reconhecido.
Entende-se porquê, tarde de mais
talvez, quando ao cair o sol no
horizonte nos pesa uma suave e
irremediável solidão. Mas entender
não nos salva da morte. Quantas
vezes, ao cruzar na rua uma
mulher, não imaginámos uma
felicidade doméstica sublime,
cheia de mãos ternas e sorrisos,
de uma profunda compreensão
de todos os segredos da alma?
E levava consigo o nosso devaneio
vão a desconhecida que nem nos
viu. Não soube, a tempo, apropriar-me
do amor, pensa aquele que foge de
si mesmo. Semeei ventos e colhi
as tempestades. Ou nem isso, pois
o tédio cobre como um manto diáfano
todas as irrupções do vulcão onde
fermentam as paixões e o remorso.
Construir um poema pode ser às vezes
como levar ao calvário a cruz pesada.
E para quê? A clareza dos passos,
dos movimentos, dos pensamentos.
Vamos aprendendo enquanto sofremos
ao longo do percurso que nos leva ao
lugar da purificação da dor. Purifica-se,
a dor? Coração adormecido, na sombra
do peito a mastigar imagens e frases,
a triturar o que foi visto e o que foi dito.
Cabeça pesada de tanta divagação. Braços,
mãos, pés que se agitaram. A máquina do
corpo e os seus poderes sobrenaturais.
Quando toca o sino levantamo-nos,
atravessamos a aldeia a caminho do
cemitério. E esquecemos tudo, só
as pernas nos levam rua abaixo.

Thursday, November 29, 2007

Razões e necessidades

What is the description of feeling at all?
What is the description of pain?

Wittgenstein, LC, IV.7

Leva o que quiseres e deixa
os restos. Alguém os aproveitará.
Noutras mãos, vistos por outros
olhos, os objectos usados
resplandecem. Gastam-se
os sentimentos nos lábios,
nas mãos, nos corpos solitários.
E nada fica. Memórias imprecisas,
espinhos, fel ou mel, cinzas. Quem
amará as jovens raparigas
sentadas no café a conversar
como elas esperam ser amadas?
Imprevisível. A alegria, a energia,
a sabedoria bastam para merecer
o amor? Eu ouvia-as, uma delas dizia:
“fiquei mesmo magoada, fiquei mesmo
triste”. Falavam de rapazes, creio,
não sei bem. A tarde ia-se apagando,
a noite caíra e eu, distraído de mim
mesmo, ia assistindo ao teatro do
quotidiano. Rapariga sensata,
além de bela e segura de si, sem
dúvida. Continuava a falar: “ele
é sensível para as coisas dele, mas
para as minhas, nada; e trata-me
mal, apesar de eu ser a pessoa
mais importante na sua vida”.
E pouco depois: “adoro estar
sozinha em casa, ele não.”
A que horas fecharia o café?
As empregadas atarefavam-se,
iam e vinham, faladoras. “O que
me custa é arranjar razões para
desistir de uma pessoa”, disse
ainda a rapariga que eu não
conseguia
deixar de ouvir.
Impressionou-me
a sua lucidez,
tanta bondade. Ela
e os rostos
juvenis das amigas
resgatavam
da insignificância o meu
fim de
tarde sem história. Conheci

meninas assim na minha
juventude?
Conheço, ainda,
quem fale assim? Não sei.


De que razão e necessidades se

faz o destino de uma pessoa?
Escolhas? Acasos? Fatalidade?
Uma vocação para a sinceridade?
Não faças nada, deixa correr.
Encontrei a ordem do universo
na desordem dos acontecimentos.
Pelo menos acreditei que sim.
Abre a boca se tiveres muita
sede ou fome. Estende os
braços se precisares de te
esconder no segredo de outro
corpo. Caminha, se o desejo
te levar a querer o que ainda
não possuis. A desordem é
apenas aparente, versão
superficial daquilo que vai
acontecendo. O nosso
destino é isso, nada mais
do que isso. Não há literatura,
nem estilo, nem rimas que
modifiquem a situação. No
fim do amor ficamos sós
de novo, despojados da
intimidade, espoliados de
tudo o que deu um sentido
profundo à nossa existência.

Foram-se embora as três

meninas que ao fim da tarde
chilreavam no café. Sem o
saber, reconciliaram-me
com a vida, com o meu futuro.

Sunday, November 25, 2007

Bicos

"Minoria activa"

Li num jornal diário que para o ex-presidente da RTP as pessoas que se revoltaram contra o processo movido a José Rodrigues dos Santos são "uma minoria activa" - e que ele próprio, Almerindo, terá sido saneado há anos de uma posição de responsabilidade por uma "minoria activa". Não seria mais ético apresentar as razões que levaram a não atribuir o lugar de Madrid ao 1º classificado e demonstrar que ao criticar tal decisão o jornalista errou ?

Londontube

I am your paparazzi, yes... :-)

Thursday, November 15, 2007

Ditadura democrática

Quem detém o poder tem tendência a abusar dele. Toda a gente sabe de nomeações para cargos importantes, desprestigiando-os, de familiares ou amigos de algumas pessoas do governo ou noutros pelouros com pouco sentido do Estado. É assim há anos, pouco interessando a essas pessoas o currículo, a experiência e a competência para a função ou para o cargo. Nalguns casos não há apenas atropelo da inteligência e da democracia, há desrespeito pela lei. É mais importante dar emprego numa embaixada à jornalista oportunista do psd, à jovem filha do senhor embaixador ou à parente do colaborador de Sócrates do que proteger os interesses do país, que são coisa vaga. Agora os responsáveis pela RTP querem demitir José Rodrigues dos Santos porque ele criticou alguns abusos dos mandarins (nomeadamente o tal 4º lugar que ganhou o concurso de Madrid). É ridículo. Portugal está a tornar-se um país de opereta dominado por oportunistas e por burocratas burros e autoritários que não admitem ser criticados nem contestados. O país é deles?

Wednesday, November 14, 2007

marcar um golo

a alegria de marcar um golo
era isso que tu querias mas
não havia golos a festejar
não havia balizas não havia
senão o vasto terreno de jogo
e tu jogavas mas era um
deambular permanentemente
a caminho do nada uma
procura inglória da meta
que também não havia
tu não desistias tu corrias
até rebentar de cansaço
e por isso levantavas os
olhos para o céu sem perceber
ou percebias mas continuavas
a fazer de conta que a aparente
futilidade do esforço seria
em breve recompensada e
com a chegada da recompensa
tu saltarias de alegria e seriam
então esquecidos todos os
passos perdidos era isso
que te fazia correr e chamavas
avançar ao movimento que te
impelia de um lado para o outro
festejar um golo há quanto
tempo não conhecias a
alegria de ver o resultado
do jogo premiar a tua fé há
quanto tempo tu nem sabias

About women

Ola Hansson tried Impressionism, Decadentism, Symbolism, and Naturalism. As an essayist, he was as well-known in Germany as he was in Sweden, and in France he gained lasting fame for his introductions to Nietzsche. (Sigrid Combuchen)


There is something so terrifyingly sad about running after and catching a woman; it is repugnant and painful from beginning to end. First there they are, both of them, man and woman, rubbing up against one another like two cats in heat, and every clandestine look they exchange, with its greedy ardor or yearning moisture or shamefaced shyness, reveals this sexual urge that physically pollutes them both. I have always been disgusted by the sight of this squalid and ridiculous flirtation at which the whole world smiles knowingly and cynically, and which has always reminded me of the foppish rooster's courtly love songs to the prudish hen. And then when the magnificent joy and great bliss that are the pitiable mating act have been attained, the story is over and there is not very much more to be gained, since nine-nine percent of the time, sooner or later you find yourself face to face with a being you have never seen before, let alone become acquainted with or longed to have for yourself, and you wake up one fine day in your bed with a strange woman beside you, and you do not recognize a single feature in her face or her soul. If she is your mistress without the special permission of our Lord, then all the painful unpleasantness of breaking up awaits you, and if you have entered into a relationship controlled by society, you will be obliged to live intimately for the rest of your life with this unknown being whom you never wanted but who now sticks to you like a bur. No matter how thoroughly you may have studied a woman, no matter if you think you know her inside and out - you can still never be really certain that one day she will not slough off her skin like an eel and suddenly stand there before you, different from the one you once knew and loved as black from white. For you see, people are not permanent and immutable things that we can take hold of and say are like this or that; secretive processes continually take place in their being that metamorphose their bodies and their souls minute by minute, processes within you and within those you have loved in your life and have embraced in tenderness, processes that neither you nor they can fathom. Are you the one who sees things differently, or is it the other who has changed and become someone else? You do not know; you only know that this woman, who came ever closer to you, until you merged with her and she with you, suddenly broke loose and now is far, far away from you and stands there like an indifferent or hated object, something with which you want nothing to do or shrink from in aversion.

This is what my experience has taught me, and now I will no longer run the risk of wholly abandoning myself to it, since then women will do us more evil than good. But for me, the opposite sex is everything, and life without it would be without meaning or sense - and I have never been able to understand how people would otherwise bother to live - so I have learned to enjoy it in another way and in my way, so that I can drink my wine pure without the dregs.

Ola Hansson, Sensitiva Amorosa, 1887, Forlaget
Geelmuyden. Kiese, Scandinavian Airlines, 1999

(Translated by Martha Gaber Abrahamsen)

Sunday, November 11, 2007

Despertar


Uma réstia de luz. As nuvens, no céu, a anunciar a chuva. Os dias e as noites sucediam-se, pálidos, monótonos. A luz irrompeu, o tédio diminuiu. Eu estava sentado num café, sem ideias, sem projectos, sem remorsos. Espírito vazio. Nada no coração, nada na cabeça. Iam passando as pessoas: mulheres, raparigas, alguns homens. Aonde vão, pensava eu. E voltava ao livro que tentava ler.


A cidade cresceu. Não conheço quase ninguém. Não vivo cá, o que pode explicar tudo. Fui-me embora há tanto tempo. Aquele sorriso, aquela réstia de luz, de onde veio? A que propósito, para quê? Não estava previsto. Comecei por não acreditar. Não vi, estava distraído, sem curiosidade, sem capacidade de me interessar fosse pelo que fosse. Esse sorriso, porém, aquele sorriso, modificou a situação. Alguma coisa mudou, eu não sabia o quê. Lentamente, sem tomar plena consciência de que o meu corpo estava a despertar, a consciência a abrir-se para o exterior. Eu não esperava nada. Não estava previsto. Previsto, só o tédio. Hesitei. No meio do caminho, já a aproximar-me de qualquer coisa que não sabia o que era, tive dúvidas. Não acreditei. Mais uma vez, pensei, um subterfúgio da necessidade de sobrevivência. Está-se indiferente, inerte, a amolecer nas horas, depois alguma coisa chama a nossa atenção e nós vamos atrás do que nos arrancou a nós mesmos, do que nos seduziu. Estratagemas. Subterfúgios. Não havia nada a esperar. Foi o que eu pensei. Depois de ter, por breves instantes, começado a acreditar. É fácil de explicar. O tédio, a falta de atenção e de convicção. No cinzento da tarde a réstia de luz, uma pequena réstia de luz veio modificar tudo, quis transformar o tempo morto em tempo de vida de novo. Eu estava meio adormecido. Indiferente. Sem projectos. Sem ideias. Sem sentimentos. Acontecia-me muitas vezes, eu estava habituado.

O hábito. Nós vivemos de hábitos adquiridos, é uma maneira de não nos cansarmos a aprender todos os dias a viver. Repetimos os gestos, os pensamentos conhecidos. Não há novidades, ainda bem, podemos descansar na rotina do que já é conhecido. Quando acontece alguma coisa nem sempre nos damos conta. Damo-nos conta mais tarde, quando o processo já está avançado, ligeiramente avançado. Gosto de viver. Amo a vida em si mesma, independentemente daquilo que ela me possa dar. E se me sorriem quando eu, melancólico, deixo o barco ir deslizando rio abaixo sem me preocupar, então eu fico alerta de novo, volto ao leme do barco, vigio o seu deslizar nas águas que seguem o seu rumo a caminho do mar.

Eu ia sozinho no barco, estava entorpecido pelo hábito e pelo tédio. Que me sorriam, o que é que isso muda, pensei. Como saber? A gente não prevê. Não sabemos nada. Alguma coisa começou a mudar em nós, no espírito, no corpo, mas nós não podemos prever o que vai acontecer. Estende-me a mão. Sorri de novo. Mais claramente. Para eu perceber. Não deixes de me olhar. Pensei isto, olhei para o rosto tranquilo que me despertara da sonolência. Ela olhava-me como se me conhecesse, o sorriso era discreto mas eu tinha-o visto, não era possível ignorá-lo. Pensei em levantar-me, ir sentar-me ao seu lado. Mas seria ela? Há quantos anos não nos víamos? Há dez? Ela tinha desaparecido da minha vida porque era o que estava previsto antes de eu a conhecer e não se podia mudar o destino. Durante alguns meses fizemos de conta que sim, que o destino ia ser mudado. Ela amava-me, eu amava-a. Mas não era possível, eu sabia-o. Sabia-o melhor do que ela, desde o princípio. Apesar disso deixei-me ir, não a contrariei, não me contrariei. Meu amor, sou tua, escrevia ela nas cartas que me mandava. Eu estremecia. Não podia recusar, destruir o sonho, cortá-lo pela raiz.

Pensei em ir-me embora, em fugir pela segunda vez da tentação perigosa. Pensei em ficar, ignorando o que tinha acontecido antes. Pensei: desta vez pode ser diferente. O destino dela podia ter mudado sem eu o saber. Eu não queria que tivesse mudado, ela tinha sido a minha menina querida e eu queria que ela fosse feliz. Mas podia ter mudado. Os minutos foram passando. Bebi água, pedi outro café, acendi um cigarro, cruzei e descruzei as pernas várias vezes. Tanto nervosismo. Estava a pensar. Não podia ser ela, eu estava a confundir, a alucinar. Surpreendido, evidentemente. Hesitante, era normal. Porquê? A que propósito? Tinha passado tanto tempo, eu nunca tinha tentado saber onde ela estava, como era a vida dela. Mentira. Tinha tentado, mas sem resultado. Ela desaparecera de vez, nunca mais dera sinal de vida. E eu calara-me, conformara-me.

Eu não pedi nada. Eu não estava à espera de nada, o meu corpo, o meu espírito, o coração, tinham-se afundado na indiferença como num pântano. Será possível? De novo? Ainda? Recomeça tudo uma vez mais? E vale a pena correr o risco de não acontecer nada, de o esforço e a febrilidade serem em vão? Ela pertencia a outro tempo, a uma realidade onde não havia lugar para mim. Tínhamos percebido isso, tínhamos vertido algumas lágrimas, mas cada um de nós seguiu o seu destino. E agora, de novo, o seu rosto, os seus olhos, os seus lábios. Eu devia estar a delirar. Tapei os olhos com as mãos. A solidão prolongada estaria a ter efeitos que eu não previra? Tinha de ter cuidado. Tinha de voltar à realidade, deixar-me de fantasias.

O meu rosto permanecia inexpressivo. Creio que estava com medo. Podia falar-lhe, tirar as dúvidas. Mas não sabia que dizer. Ela podia tomar-me por louco se eu falasse. Eu podia olhar, agradava-me olhar e ver, deixar-me ver. Mas falar não, era perigoso. Começou a chuviscar. Estávamos sentados debaixo da placa de cimento, não tínhamos de nos preocupar com a chuva. Subitamente desconfiado da minha sanidade mental, desviei-me do olhar e do rosto que me sorriam. Primeiro sorri discretamente, é certo, para não parecer indiferente. Mas baixei logo os olhos com pudor. Não estava à espera de nada, não estava a pedir nada, que ficasse claro. Durante algum tempo tinha pensado que a conhecia, as recordações confundiram-se na minha cabeça, mas agora sabia que não podia ser ela, tinha de pôr termo ao devaneio. Sorri outra vez, mas sem olhar para ela, não queria comprometer-me. Sorri como se o que estava a acontecer ou já tinha acontecido não fosse nada, nada de importante, nada a que devesse prestar-se uma atenção particular.

A cidade no dia cinzento, ameaçava chover, depois começou a chuviscar, as miúdas e os miúdos das escolas a circular por ali, a sentar-se nos cafés, agarrados aos telemóveis e aos sonhos invisíveis, agarrados uns aos outros. Deixei-me estar. Sentia-me bem. Tranquilo, calmo, sem desejos, sem preocupações. Tinha saído de casa depois de almoço e tinha comprado um carro. Era segunda-feira, davam-me o carro na quinta. Um carro pequeno, azul metalizado, com ar condicionado, leitor de cds, uma excelente ocasião. Se tiver algum problema, nós cá estamos, tinha-me dito o vendedor. A bateria, por exemplo, quando voltar no Verão muito provavelmente vai estar descarregada. Telefona-nos, não se preocupe, nós vamos lá e pomos o carro a trabalhar. Comprei o carro. Para poder movimentar-me, sair da cidade de vez em quando, estava farto de estar em casa a aborrecer-me ou a ler, nos cafés não havia ninguém com quem eu pudesse conversar, já tinha percebido. Às vezes acontecia alguma coisa: um rosto, um corpo, uma maneira de andar e de estar chamavam a minha atenção. Mas depois não se passava mais nada, eu ficava sentado a olhar, a vida não mudava. Agora tinha um carro, podia ir a Lisboa, a Salamanca, a Madrid, aonde me apetecesse, quando me apetecesse.

A rapariga pousava o olhar sereno nas árvores da praça, em quem passava, continuava a sorrir discretamente. Via-se que era feliz, alguma coisa devia ter acontecido na sua vida e ela sentia-se leve, de bem com o mundo. Apeteceu-me perguntar-lhe porque se sentia tão à vontade na vida, se era sempre assim. A sua jovialidade silenciosa, a sua inocência impressionavam-me. Mas não perguntei nada porque achei que não vinha a propósito, além disso receava começar a falar e dizer o que não devia ser dito, ela podia achar-me extravagante, quem sabe se não se assustava. Não é para mim que ela sorri, disse para mim mesmo. Ela sorri à vida, provavelmente nem me vê, embora às vezes pareça que está a olhar para mim. Ela sorria a uma vida onde se sentia feliz, era apenas isso. Eu é que tinha começado a inventar histórias, apetecia-me ressuscitar pessoas e cenas do meu passado. Concentrei-me na leitura do livro. A réstia de luz alastrara, entrara pelo meu espírito e pelo meu corpo, eu sentia-me bem.

Saturday, November 10, 2007

O vento

Assobiou o vento nas janelas
da noite. E a terra, silenciosa,
dormia. Escuridão. Os olhos
do moribundo, na cama do
hospital, abriam-se, o medo
da morte confundiu-se no seu
espírito com o galopar do vento,
com as gargalhadas do palhaço,
com o estertor dos animais
degolados pelo homem.
Escravidão, a vida. Arranhão
invisível na parede do tempo.
Alegrias, esperança, a dor?
Uma lâmina de vidro, fina,
debaixo dos nossos pés
quebra-se, corta-nos, corre
o sangue. A janela caiu, o
muro tremeu. Fim do mundo.
Era o vento apenas, voz
falsamente tenebrosa. Aonde
ia? Tapava-lhe o caminho a
casa? Enfeitiçava-me a música,
explosão contida a escapar-se
pela garganta da montanha.
Depois fiquei com sono, creio
que adormeci. Sonhei?

Friday, November 09, 2007

Eça de Queirós “psicanalizado"

Num livro recentemente publicado, o Dr. Pedro Luz procede à “psicanálise de Eça”. Como Eça não se pôde deslocar ao consultório do Dr. Pedro Luz e deitar-se no divã, o psicanalista foi ao encontro de Eça na biografia que dele se tem feito e na sua obra. Eu gostava de acreditar nestas histórias delirantes contadas por psicanalistas com a alegria com que devo ter acreditado na infância na existência do Pai Natal. Não consigo. E pergunto-me qual será a pulsão inconsciente que leva pessoas presumivelmente sérias e respeitadas como o Dr. Pedro Luz a perder-se, com os deleites de uma imaginação infantil ou primitiva, nos labirintos da sexualidade de um escritor. Não sei responder. Tanta inexperiência e ingenuidade no comentário dos textos literários e tanto ardor e credulidade na denúncia de supostos vícios e "anormalidades" espantam. Será fantasma de médico pôr-se a brincar aos cientistas? Pensava eu que este tipo de "ciência", este encontro tão entusiasta de causalidades sem fundamento, estava definitivamente ultrapassado. Enganei-me. A reunião num só livro de tantas divagações vai contribuir para desacreditar aquilo que na herança de Freud ainda é digno de crédito. Aconselho a leitura de O Alienista, de Machado de Assis.

Tuesday, November 06, 2007

Why

Porque é que a televisão portuguesa é tão má, está cheia de gente tão ridícula, passa concursos sem parar, nos dá telenovelas que só interessam aos meninos e meninas betinhos sem cérebro ou a pessoas que admiram e invejam os minuciosos dramas sentimentais e económicos de uma burguesia enfadonha? Foi para chegar aqui que existiu o neo-realismo e se fez a "revolução dos cravos"?

Friday, November 02, 2007

Atravessar o rio

Li Quando Atravessares o Rio, o romance de Ana Teresa Pereira publicado pela Relógio de Água em 2007. Gostei. É uma leitura tranquila, pacificadora, eu ia lendo antes de apagar a luz e adormecer. Uma mulher que tem uma relação tão saudável com o seu corpo, que fala do amor como de um sonho que se realizou, que se deleita a descrever as insignificâncias aparentes e a intimidade de uma relação amorosa com tanto prazer e sabedoria, numa voz tão suave, sem pretensões de heroísmo, é reconfortante. Fica-se a pensar: afinal o amor existe, há mulheres que sabem o que é o amor, se eu conhecesse uma mulher assim... Mas há outras coisas: a confusão entre a realidade e os devaneios da imaginação trasformam a leitura numa experiência semelhante à que se tinha quando na infância se liam as narrativas de aventuras evocadas pela mulher que nos conta a história. O mistério que envolve a narrativa também evoca a atmosfera e alguns processos dos romances policiais. Fica-me uma dúvida: só é possível amar na perfeição seres de ficção, actores, personagens míticas, inventadas? O mito é a substância do amor? A confusão deliberada entre a realidade e os delírios da imaginação (à David Lynch?) é uma forma de conferir peso de realidade ao sonho; e é um estratagema de consolação face à imperfeição da realidade e da experiência. Esta história de amor, tão perfeita, é como uma aventura em país irreal. Provavelmente tudo o que aconteceu só aconteceu na intimidade do espirito e do corpo da mulher que conta a história. E o que aconteceu de facto, onde é que acontece? Não estamos sempre a criar ficções a partir de outras ficções? Ana Teresa Pereira é exímia na prática desse processo.

Monday, October 29, 2007

Faz

E agora, José, não cantes nem chores. Senta-te e lê. Ou olha a parede e medita. A vida não é tão interessante? Complicada, é certo. Mas por isso mesmo. Não desesperes, José. Não te aborreças. Não cantes o fado. Não te queixes. Não durmas de mais. Não tomes tanto café. Anda, veste-te e vai passear pela avenida. Ou vai ao futebol. Faz qualquer coisa, ó danado. Escreve um poema épico, por exemplo. Ou um romance social. Ou erótico. Ou erótico-social, seria uma novidade, certamente, e o mercado absorve todas as originalidades sem esforços nem arrotos excessivos. José, sê bom rapaz, sê bom português, sê como o teu pai sempre quis que tu fosses. Lembra-te da tua pobre mãe. Sorri, não chores. Mas sobretudo levanta-te e corre, faz alguma coisa.

Saturday, October 27, 2007

Spleen

Tédio. E além do tédio o que há? Os bares, as discotecas. E depois volta o tédio. Se é que chegou a desaparecer. Dias de chuva, eu não saía de casa. Decidi sair. Tomei um banho quente, fui jantar a um restaurante do meu bairro, depois fui a pé até ao centro da cidade. Chuviscava. Eu tinha posto uma boina na cabeça, os chuviscos não me incomodavam. Não estava frio. Fui ao bar aonde costumo ir, sentei-me ao balcão, pedi um whisky. E fui bebendo e bocejando. Nem os cigarros tinham sabor. As mesas estavam todas ocupadas, mas a dado momento houve uma que ficou livre e fui-me sentar mais confortavelmente.

Estávamos eu, a Sandra e o Filipe. A Sandra e o Filipe namoram ou pelo menos devem dormir juntos de vez em quando. Eu estava de fora e ia olhando à minha volta. Já a tinha visto, mas não prestara atenção. Um lenço vermelho à volta do pescoço, os jeans apertados. Estava acompanhada. Apeteceu-me vê-la nua, levá-la para casa e despi-la. Não me apetecia tocar-lhe, não era isso. Apetecia-me vê-la nua. Eu também me podia despir. Ficávamos os dois nus, sentados no sofá, a ver um filme na televisão. Talvez entretanto me apetecesse beijá-la, mordiscar-lhe o bico das maminhas duras. E o tédio da minha noite podia diminuir se entretanto começássemos a conversar. Ela deve ter coisas a dizer que ninguém, excepto eu, será capaz de ouvir. Ela não o sabe, evidentemente. E eu próprio não posso adivinhar os segredos dos outros. Mas é inevitável, as pessoas encontram-se, despem-se, inevitavelmente surge a necessidade de falar. Todos nós transportamos no espírito palavras que nunca foram ditas porque nunca ninguém as quis ouvir, nunca ninguém se interessou por nós o bastante para querer ouvi-las. E havemos de morrer com o coração pesado, cheio de confissões por fazer, penas por lamentar, palavras de amor por dizer. Deprimente ter consciência disso, mas que se há-de fazer. Aliás a rapariga foi-se embora, nunca mais a vejo, a história dela acaba aqui.

A minha não. Eu continuo sentado no bar ruidoso ao lado da Sandra e do Filipe, eles falam, eu aborreço-me. Vejo o perfil de uma rapariga loira sentada na mesa a seguir à minha, quais serão os seus segredos, as suas mágoas, as suas razões para sorrir? A vida é uma comédia sem muito interesse, sem grande sentido. Não sou só eu que me aborreço, já percebi, aqui dentro há umas trinta pessoas a aborrecer-se. Vêm para aqui para não estar sós, bebem, fumam, falam. De que lhes serve? Passar o tempo, só isso. Tédio.

Se eu estivesse ligado a um grande projecto humanitário, se eu estivesse a escrever um livro, se eu fosse arquitecto de aeroportos, se eu fosse advogado de um doente mental criminoso. Mas não, nada, sou livre como um passarinho e a vida aborrece-me. Podia ter um temperamento romântico e entreter-me a sofrer com a minhas relações amorosas falhadas, esses desastres sem solução. Mas sou frio como a pele de um réptil, a minha alma não se comove, eu não tenho remorsos de nada nem lamento o que me foi tirado depois de me ter sido prometido. A loira vai-se embora, ninguém aguenta muito tempo nesta monotonia. Com ela vão-se embora duas miúdas bem giras, meninas de lábios carnudos e colares com pedras bonitas no peito descoberto. Como vou resolver o problema da minha solidão, como vou escapar ao tédio que me oprime, me reduz a nada?

Apesar da luz eléctrica, as cidades são lugares tristes, solitários. As pessoas mal se conhecem, detestam-se, ignoram-se. Não sou diferente dos outros, nem melhor nem pior. Quando chegam noites como esta, venho para aqui queixar-me da solidão e do tédio a que não se pode escapar. Em tempos vivi com uma mulher, mas com ela também me aborrecia, eu saía de casa à meia-noite para ir beber uma cerveja a um bar e deixava-a a dormir. Come on, man, de que é que te queixas? A vida é um estopada, tu não tens culpa. O amor distrai-nos da verdade, faz-nos perder a lucidez. Deve ser um truque da biologia, a espécie quer reproduzir-se. Ficamos cegos e tolos, obedecemos. Alguns nunca mais abrem os olhos. Outros não chegam a fechá-los. Sem as miragens criadas pelo amor, a realidade e a vida seriam suportáveis durante quanto tempo? Vivemos na selva, o sangue escorre em silêncio das feridas, o comunismo que fracassou e o capitalismo selvagem triunfante foi tudo o que nos deram e continuam a dar.

Não acabo o whisky, não me apetece beber. A Sandra e o Filipe continuam a conversar, eu vou pensando coisas inconsequentes. O tabaco sabe-me mal e já fumei de mais. À minha volta ninguém que suscite o meu interesse, acabou-se o recreio. Penso em voltar para casa. Em casa tenho o computador, ligo-me à internet, talvez me distraia durante uma hora ou duas das inquietações sem solução.

Lavar vidros

Thursday, October 18, 2007

Surpresa

Um amigo fala-me em Londres de uma romancista portuguesa contemporânea que eu não conheço. Mostra-me um livro dela, eu folheio-o, começo a ler aqui e ali, ao acaso, ainda meio distraído. Fico agradavelmente impressionado, intrigado, interessado. Simplicidade, intimismo, fluidez. Chama-se Ana Teresa Pereira, vive no Funchal, fala de Londres, da escrita e do amor de uma maneira que me convence e surpreende. Vou lê-la.

Tuesday, October 16, 2007

Je ne suis pas un texte

Entrei numa livraria francesa em South Kensington, folheei uns livros, comprei dois ou três, saí da livraria a repetir a frase inicial de um romance recente que tinha estado a folhear: "Je suis un texte." Um texto, eu? Somos textos, agora? Essa pirosice pseudo-intelectual ainda funciona? Estes franceses, à força de se levarem tão a sério enquanto gente com cabeça, já fazem rir.

Wednesday, October 03, 2007

Rhétorique de l’amour

Lettre XI de Julie

Je voudrais que vous puissiez sentir combien il est important pour tous deux que vous vous en remettiez à moi du soin de notre destin commun. Doutez-vous que vous ne me soyez aussi cher que moi-même ? et pensez-vous qu’il pût exister pour moi quelque félicité que vous ne partageriez pas ? Non, mon ami ; j’ai les mêmes intérêts que vous, et un peu plus de raison pour les conduire.


Lettre XII à Julie

Ah oui, sans doute, c’est à vous de régler nos destins ; ce n’est pas un droit que je vous laisse, c’est un devoir que j’exige de vous, c’est une justice que je vous demande, et votre raison me doit dédommager du mal que vous avez fait à la mienne. Dès cet instant je vous remets pour ma vie l’empire de mes volontés ; disposez de moi comme d’un homme qui n’est plus rien pour lui-même, et dont tout l’être n’a de rapport qu ‘à vous.

J. J. Rousseau, La Nouvelle Héloïse

Tuesday, October 02, 2007

Notícias de Gonçalo Matias

Rodrigo Matias enviou-me por email uma mensagem divertida. Não diz onde está, agradece-me a simpatia com que me tenho referido a ele e à sua obra, apreciou sem sorrir que eu me tivesse referido às suas relações com a Betty, pede-me que deixe de publicar os seus textos no meu blogue, que lhe parece confuso, porque lhe veio a curiosidade e a vontade de ter um blogue só seu, só para as suas coisas. Mas com a mania do anonimato pede-me para criar eu o blogue com o meu nome, pois ele não tem jeito para estas coisas. É aí que há-de pôr os textos que lhe apetecer, quando lhe apetecer. Depois acrescenta: "os blogues tornaram-nos independentes dos editores de livros, o que desperta em mim, que sempre detestei a literatura e ter comércio com essa gente, editores tanto como literatos, uma vocação nova e diferente. Eu não sou escritor, eu não escrevo 'literatura' porque na verdade... 'apenas escrevo', sem preocupações nem ambições tão mundanas, tão tolas". Não se importa que eu fique com os seus cadernos e os leia, mas diz que toma ele o leme do seu próprio barco e que embora o meu nome lhe sirva de capa protectora será ele a decidir o que quer publicar. Também me corrige: não gosta que lhe chamem Rodrigo e informa-me de que sempre os seus íntimos lhe chamaram Gonçalo, nome que também é seu e que prefere. Tudo bem para mim.

Fingir

Um amigo meu, pessoa culta, pensa que o famoso poema de Fernando Pessoa sobre o poeta que é um fingidor não passa de uma boutade sem grande sentido. Não estou de acordo. Os meus argumentos:

1. "O poeta é um fingidor". Como interpretar esta frase? O mundo a que se refere a literatura é sempre uma construcção, uma ficção, o que na linguagem da literatura se diz não tem nada a ver com o que acontece historicamente, realmente, e portanto o poeta é por natureza alguém que está sempre a "representar" ("je est un autre") no sentido teatral da palavra. O que é um poeta, porém? Pode ser-se poeta sem escrever poemas? Se pensamos que sim, e que a atitude poética se pode encontrar em discursos e comportamentos quotidianos que a História da Literatura nunca registará como poesia, somos obrigados a pensar que na vida considerada real (por oposição à representada na literatura) também há "fingimento", isto é, uma teatralização e ficcionalização semelhante à que encontramos na poesia. Conclusão: je est toujours un autre e a identidade verdadeira, aquela em que não existe "representação" ou "fingimento", é uma utopia. Se eu sou sempre "outro" como se explica, então, que me reconheçam e me atribuam certas qualidades, defeitos, temperamento, ideias, opiniões, etc.? Terei eu, na minha maneira de ser "outro", preservado a minha identidade "oficial", a imagem exterior ou pública que se tem de mim? É o que parece. Eu sou sempre outro embora pretendendo ser sempre eu mesmo. De qualquer modo o que aqui nos interessa agora é apenas que o poeta, o escritor, como o actor, é por natureza, sem poder escapar a isso, "um fingidor". Um fingidor que pode fingir "tão completamente", de maneira tão verosímil, convincente, perfeita, que nós tomamos o que ele nos diz pela verdade, por qualquer coisa que aconteceu, que existiu ou existe independentemente do "momento" criado pelo texto literário.

2. "Finge tão completamente/que chega a fingir que é dor/a dor que deveras sente". Imagino que é esta a frase polémica e que pode parecer uma "boutade". Para mim não há problema. No processo do "fingimento" poético mesmo aquilo que tem ou teve existência real fora do poema adquire na obra literária o estatuto de "representado", de "fingido". Nada na obra literária escapa às regras da "ilusão de realidade", da "verosimilhança", da "arte", do "fabricado", do "exibido" como ficção, o que torna impossível decidir que alguma parte do que é dito na obra aconteceu na realidade e outra parte é pura invenção. Para fazer distinções desse tipo temos de recorrer, com os riscos que essa decisão implica, a testemunhos exteriores à própria obra (alguém, talvez até o autor, afirma, com provas ou sem elas, que o que na obra literária é objecto de representação é autobiográfico). E qual é o interesse dessa distinção? Essa distinção entre o "autobiográfico" ou o "histórico" (o que "aconteceu de facto") e o "inventado" não é uma distinção importante para a literatura. Mas a frase polémica de Pessoa tem outras implicações: ao exibir como fingimento, como representação, a dor que de facto sentiu, o poeta está a esconder do leitor a sua vida real. Que Pessoa veja nessa atitude - dar como fingido o que de facto aconteceu - uma forma superior do fingimento não tem apenas implicações estéticas, pois o que parece é que para Pessoa o poeta é alguém que ao agir assim revela uma forma de pudor que o engrandece: apaga-se modestamente por detrás do respeito pela "função" poética da linguagem; não se propõe como objecto de piedade ou de admiração, pela sua coragem, ao leitor; nem lhe dá confiança para imaginar que sabe alguma coisa de uma outra vida sua, a "pessoal", a "real". So, if you think that reading my short stories opens the door of my heart or of my mind to you, you are misleading yourself. I love games so much, you know.

Monday, October 01, 2007

Sonata nº 27

A sonata nº 27 de Beethoven para piano. Enquanto ouvia foi-se-me enchendo o espírito de energia, de alegria. A espaços, intermitentemente. Mas quando me dei conta disso tomei consciência do que se estava a passar: renascer das cinzas, não se deixar vencer pelas contrariedades ou falta de sentido do que vai acontecendo. Falta de sentido? Expressão infeliz. Tudo tem sentido, o que não tem grande sentido é a existência, a breve existência humana na terra. Mas ia ouvindo a música e o meu coração despertava, alguma coisa escondida se revelava. O dia saltitava de jovialidade e de esperança.

Nesse estado de espírito, quando a sonata deixava de dançar e de se elevar com alegria no piano para se pôr a meditar, a duvidar, a reexaminar a questão, caiu-me nas mãos um desenho a lápis: três laranjas, umas folhas verdes de laranjeira, tudo num papel ou cartão do tamanho de um bilhete postal ilustrado. No verso havia palavras e pus-me a ler, imprudentemente. Se citadas aqui, as palavras fariam sorrir o leitor arrogante e instruído em literatura. Mas cada frase foi um pequeno punhal a cravar-se-me não sei em que parte do corpo. Resumindo, nas minhas palavras involuntariamente literárias, no meu estilo artificial: eu tinha-lhe escrito uma carta de despedida e ela achava que sim, que devíamos separar-nos. Mas alinhava umas frases ofensivas: o que sinto por ti é puro e verdadeiro, nunca mais te vou esquecer, coisas assim. E dizia ainda que nem as palavras nem os sons nem os gestos necessários à expressão do que sentia e da situação em que nos encontrávamos lhe eram acessíveis. Pois, acredito que não. Apeteceu-me perguntar-lhe: experimentaste ladrar? Mas não perguntei, ela nem sequer estava ao pé de mim. Prémios de consolação, pensei eu, esta imbecil pensa que eu necessito de ouvir os lugares comuns da ruptura, aqueles que se dizem quando já se está noutro sítio e a relação que se abandona nos pesa incomodamente. E por essas reflexões me fiquei, afastando a pena que ela adivinhava que eu ainda iria sentir “alguns anos depois”.

A tarde avançou, passei a outra coisa. Claro, o grande tópico da minha existência neste momento, naquele momento, era o abandono. Nada de original, todos os livros de poesia, todos os romances têm páginas sensíveis, eloquentes e consoladoras, ou nem por isso, sobre o assunto. Desde a Antiguidade. Desde que há documentos escritos a dar conta do que sentiram os nossos antepassados.

Eu estava portanto só na casa vazia e se abandonara, também me sentia abandonado, embora não o quisesse reconhecer ou conferir ao que acontecera mais importância e dramatismo do que o aceitável. Diante de mim tinha dois meses de férias ameaçados de recordações penosas, de solidão, de frustração. A sonata de Beethoven, porém, provava-me que les jeux n’étaient pas faits, oh non, pas encore. Muita tinta havia de correr e eu já tinha projectos para o futuro mais imediato. E se fugir à casa vazia, ao tédio, às lembranças amargas e inúteis era o que eu precisava de fazer, eu não hesitaria em meter-me num avião e ir à procura de mim mesmo e da realidade noutro lugar.

Disse um filósofo moderno que nós aprendemos as palavras, isto é, o seu sentido e o seu uso, "em certos contextos". Não é difícil fazer a transição e afirmar que tudo o que sabemos da vida o aprendemos “em certos contextos”. O amor, por exemplo, o que é o amor, o que identificamos, imaginamos, reconhecemos como sendo o amor? É um conceito que chegou até nós e começou a fazer parte de nós “em certos contextos”. E se os contextos não eram os mais adequados para tal aprendizagem? Cada um de nós tem, no que respeita a "contextos", experiências únicas e muito diferentes das experiências de outras pessoas. O conceito de amor, como qualquer outro conceito, é uma ficção da gramática que nos demora tempo a desmascarar. O que é que eu aprendi sobre o amor, com quem é que o aprendi, em que circunstâncias? Há gente a mais metida nesta história, mas parece que não e que as coisas são simples. O amor? Toda a gente sabe o que é. Basta ir ao cinema ou ler romances, poemas, olhar para os professores, os pais, os amigos, ler jornais, sei lá. Está toda a gente sempre a ensinar-nos o que é o amor, a confusão é enorme, o malentendido acaba por passar despercebido.

Onde aprendi a amar senão no desamor, disse-me eu, querendo voltar à realidade bruta e fugir à filosofia.

Fui à cozinha, tirei uma garrafa de vinho branco do frigorífico, abri-a. Enchi um copo e vim sentar-me diante da televisão sem som a ouvir um quarteto para cordas de Beethoven. Ele sabia como resolver os problemas que se criava com as primeiras frases de um sonata, de um quarteto, de uma sinfonia. Se aprendêssemos com ele a arte da concentração, a invenção, a liberdade. Se aprendêssemos com ele a ir integrando os elementos novos que querem entrar na obra, se soubéssemos reconstruir em permanência sem nos assustarmos nem perdermos a cabeça. Talvez aprendamos um dia.

(Do Caderno Azul de Rodrigo Matias)

Et puis

Vous devriez ne pas la connaître, l'avoir trouvée partout à la fois, dans un hôtel, dans une rue, dans un train, dans un bar, dans un livre, dans un film, en vous -même, en vous, en toi, au hasard de ton sexe dressé dans la nuit qui appelle où se mettre, où se débarrasser des pleurs qui le remplissent.

Vous pourriez l'avoir payée. Vous auriez dit: Il faudrait venir chaque nuit pendant plusieurs jours.
Elle vous aurait regardé longtemps, et puis elle vous aurait dit que dans ce cas c'était cher.
Et puis elle demande: Vous voulez quoi ?
Vous dites que vous voulez essayer, tenter la chose, tenter connaître ça, vous habituer à ça, à ce corps, à ces seins, à ce parfum, à la beauté, à ce danger de mise au monde d'enfants que représente ce corps, à cette forme imberbe sans accidents musculaires ni de force, à ce visage, à cette peau nue, à cette coïncidence entre cette peau et la vie qu'elle recouvre.
Vous lui dites que vous voulez essayer, essayer plusieurs jours peut-être.
Peut-être plusieurs semaines. Peut-être même pendant toute votre vie.
Elle demande : Essayer quoi ? Vous dites: D'aimer.


Marguerite Duras, La Maladie de la Mort, Paris, Editions de Minuit,1982

Sunday, September 30, 2007

Kierkegaard's Diary

76. In our days and age book-writing has become so poor, and people write about matters which they have never given any real thought, let alone, experienced. I therefore have decided to read only the writings of men who have been executed or have risked their lives in some way.

77. Everyone today can write a fairly decent article about all and everything; but no one can or will bear the strenuous work of following through a single solitary thought into its most tenuous logical ramifications. (...)

78. I beg to be spared any and every critical review, for I loathe a literary critic as much as an ambulant barber-journeyman who runs after me with his shaving-bowl, which he uses for the beards of all his clients, and then dabs my face all over with his wet fingers.

99. If Hegel had written his entire Logic and said in the preface that it was merely an idea-experiment for the sake of argument, wherein even in many places he had shirked* something, he might well have been the greatest thinker that ever lived. As it is, he is comical.

102. (...) a system (that omnibus) is a vehicle that permits everybody to ride along. (...)



The Diary of Sören Kierkegaard, Edited by Peter Rhode, Published by Carol Publishing Group, 1993

Thursday, September 27, 2007

Quem nos inventou

Ninguém, se tu falares, te ouvirá. Passou
o tempo, apodreceram as palavras? O que
são as palavras? Pedras no regato. Pões
os pés para atravessar, do outro lado vem ao
teu encontro o rosto indecifrável, o corpo
inalcançável. Brumas. Parecem simples
no sorriso, na alegria dos rostos juvenis,
a vida e o amor. A rapariga é um mistério,
ela caminha na praça deserta do centro da
cidade e não se sabe o que ela pensa, aonde
vai. Se lhe perguntarem, ela não responde.
Se respondesse, ninguém compreenderia
o que ela queria dizer. As palavras são a
moeda do sonho, barcos que o vento empurra
para o desconhecido. E surge diante do
olhar daquele que as pronuncia um mundo
cheio de sentido. Ilusão. Consola-te com
o que tu próprio inventaste e nunca existiu.
Os poderes da imaginação. O mecanismo, a
máquina, rodas dentadas que se acariciam e
agridem mutuamente. Existe o movimento.
Diz-me, porém, o que viste no movimento,
identifica o que aconteceu em vez de não
ter acontecido nada, diz-me aonde vamos,
aonde fomos, para que serve deixarmos
o lugar onde morríamos de tédio. Que nos
chamou? Que nos convenceu de que o sentido
habita, oculto, as formas? Relações? Estendemos

o pé, pousamo-lo na pedra do regato, atravessamos
para o outro lado. De onde viemos? Aonde vamos?
Que aconteceu enquanto no espírito as nossas pernas
metafísicas avançavam na direcção do fim em vista?
Às vezes acredito na imortalidade. Os dias e as noites
repetindo-se sem fim, nada a recear, a morte não
existe, ninguém envelhece nem perde a capacidade
de amar, de sorrir. Mas a memória dos mortos
faz-me duvidar da exactidão do pressentimento.
Entendo então que morrer é um episódio sem
grande interesse: adormecemos, voltamos ao nada
infinito de onde nos trouxeram inesperadamente.
E a vida continua. As pedras duram, os rios duram,
os mares agitam-se. A mudança existe, mas a
dissolução é lenta. Se pelo menos houvesse,
depois da morte, o reino de Deus: vastas
planícies, lagos e florestas, ar frio e puro, amor
sem condições e sem limites. É com isso que
sonhamos. É nessa felicidade eterna que
começamos a pensar quando passa por nós
uma rapariga com a novidade do seu rosto,
com os seus olhos tímidos e ávidos, com as
suas pernas nervosas, tão seguras a pisar a
terra da realidade e do sonho. Onde estão
os limites? O que é que é matéria e o que é
que é espírito? Quem nos inventou conhecia
as regras da gramática, era exímio em ver as
relações entre as palavras e as frases, sabia o
que fazia. Quem nos inventou escrevia versos
à noite antes de adormecer. Ou novelas. Ou
relatórios rigorosos. A ideia da coerência não
lhe era inacessível. E pouco lhe importou, a
esse criador, que pudéssemos pôr em causa o
sentido profundo, a verdade dos seus discursos,
essas construções perfeitas. Se existes, ó
criador de tantos mundos, faz com que me
veja a rapariga que acaba de sentar-se no café
à minha frente. Faz com que ela seja capaz de
distinguir o amor da indiferença, dá-lhe um
espírito profundo. E não lhe tires para
compensar tanta perfeição os cabelos que
lhe caem nos ombros nus, nem os braços
bronzeados, nem o resto do corpo. Porque
tudo será necessário para suscitar e preservar
o meu amor. Na tarde de Verão que vai terminando
desviaram-me do tédio os pensamentos vãos. Não
resisti ao instinto de sobrevivência?
O silêncio,
o nada, aterrorizam como o monstro
inexistente
das noites infantis? Quem pergunta não

sabe responder. Quem poderia tranquilizá-lo?