Saturday, December 30, 2006

Fora de mim


Fui eu que embarquei num aeroporto europeu numa manhã de Dezembro mas não fui eu quem regressou a este país aquele que chegou é quando muito apenas uma parte de mim do que eu fui do que eu sei que era e agora tenho de agir de esforçar-me nesta versão de mim que não se sente à vontade na cabeça ou no corpo a que foi distribuída daí a estranheza dos gestos dos pensamentos dos olhares dos sentimentos daí o desentendimento o conflito é como se eu me tivesse imperfeitamente duplicado metamorfoseado ou uma parte de mim se tivesse perdido não se sabe onde e a nova versão apenas conservasse da velha identidade das antigas tão dificilmente adquiridas marcas pessoais alguma recordação o primitivo ocupante do lugar foi irremediavelmente expulso de casa e a sua identidade essa versão original até não há muito tempo indiscutível única não passa agora de uma imagem nostálgica uma recordação que serve de termo de comparação onde tenta refazer-se a pessoa nova. Essa versão antiga não é agora senão uma silhueta vaga apercebida na bruma distante e inalcançável do infinito uma sombra uma nuvem que como um sonho se foi progressivamente afastando de mim e se vai dissolvendo se vai diluindo no horizonte até esfumar-se desaparecer deixar de ser alguma coisa.

Cheguei cheio de sono anestesiado por uma viagem de onze horas de avião sentei-me num banco na sala de espera do aeroporto perto do quiosque dos jornais e das mesas de um café como é costume o avião atrasou-se e perdi o autocarro fui obrigado a esperar pelo airbus seguinte três horas depois e portanto acabei por chegar a casa mais tarde e mais cansado. Aceitei que seria assim tomei um café com leite tão quente que me queimou a língua também o costume neste país é assim nada a fazer abri um livro fui distraidamente observando as pessoas à minha volta tentei ler para passar o tempo. Não não me inquietei a gastar energias pensando nesse atraso como um problema ficar irritado ou nervoso não me serviria da nada. A viagem de mais de duas horas no airbus pela beira-mar ao fim da tarde com a silhueta das árvores e das montanhas a recortarem-se quase como sombras no azul descolorido do céu eu a observar de vez em quando o mar ligeiramente encapelado porque soprava um vento demoníaco eu meio adormecido no banco do autocarro eu meio anestesiado pelo cansaço das quase vinte e quatro horas de viagem. Essa última etapa deixou-me finalmente à porta de casa e foi então que ao entrar na sala vazia e escura fui assaltado por uma angústia inesperada um mal-estar um sentimento de abandono que me deixaram prostrado sentado no sofá banhado em lágrimas. Alguém que na versão anterior de mim estaria ali presente à minha espera de braços abertos para me receber estendendo-me os lábios para um beijo pronunciando as palavras de boas-vindas tinha desaparecido e eu provavelmente sabia-o pensava que o sabia mas estava errado a minha ignorância acerca de mim mesmo do que me acontecia do que era a minha vida revelava-se total eu interrogava-me confusamente como pude ser tão desprevenido viver meses desligado esquecido do meu próprio destino agora a nemesis batia-me na cara como uma onda gelada e vingativa desferida pelo mar como uma bofetada de mão invisível mas cheia de ódio como um murro na cabeça de um punho de pedra não não havia ninguém na casa deserta desolada à minha espera e o peso do vazio era enorme o tamanho da ausência era monstruoso. O cansaço da longa viagem a tristeza deixaram-me mudo sem perguntas sem dúvidas sem respostas sem sentimentos sem compreensão levantei-me do sofá arrastei-me até à casa de banho fui olhar-me no espelho e não me reconheci o que eu era nesta versão improvisada de mim mesmo nada tinha a ver comigo com a minha memória de mim mesmo eu era-me estranho.

Tinha saído de madrugada de uma cidade do norte da Europa tinha visto do avião a linha do horizonte começar a avermelhar-se depois a linha vermelha progressivamente fora alastrando e esbatendo-se enquanto com a luz nascente se iam desenhando revelando as paisagens os campos o mar avermelhados formas saídas da escuridão e depois da penumbra o mundo renovava-se renascia para mais um dia depois foi a bola vermelha do sol que foi mostrando a cara emergia no horizonte como na minha infância na minha janela de Lisboa em frente do Tejo espectáculo mistério que intrigava a minha ignorância os meus medos juvenis. Muitas horas depois de ter saído da cidade do norte eu chegara a casa noutro continente sem ter pensado na facilidade com que se atravessam os oceanos e os continentes sem me ter surpreendido com a rapidez com que atravessamos o espaço e o tempo sem deixarmos de ser nós mesmos. Mas desta vez alguma coisa acontecera e eu imperceptivelmente deixara de ser aquele que fora deixara de ser eu mesmo tal como me conhecia deixara de ser aquele de quem sabia sem muitas surpresas isto e aquilo. Uma nova versão de mim mesmo substituíra-se àquela com que eu ia pelos caminhos enfrentando as dificuldades da vida àquela com que aprendera e me habituara a amar a duvidar a procurar a odiar ou a desprezar. Percebera ao chegar a casa sem de facto o ter entendido que me deixara a mim próprio na cidade no continente no país de onde saíra de madrugada para iniciar a longa viagem. E no entanto era abusivo afirmar que eu me deixara a mim próprio noutro lugar e noutro tempo visto que estava ali e podia pensar aperceber-me das diferenças fazer estes comentários sobre a minha situação. Era indiscutível no entanto que uma nova versão de mim mesmo tinha surgido sabe-se lá de onde sabe-se lá como reenviando para o esquecimento aquele que eu fora não há muito tempo eliminando aquele que abusivamente eu imaginara que nunca deixaria de ser. E desse que eu fora só ficaram confusas reminiscências.

Foi então que naquele deserto hostil em que a minha casa se transformara inesperadamente eu me levantei e fui abrir uma garrafa de vinho e fui bebendo pela noite adiante até a esvaziar e me sentir completamente embriagado já com vontade de me rir de mim mesmo e da absurda inesperada sensação de abandono que se abatera sobre mim e parecia sem remédio. Sabemos pouco da solidão fugimos dela constantemente procuramos distracções que a façam esquecer porque enfrentar-se a si próprio arriscar-se a ver o rosto temível do nada que nos rodeia e ameaça aterroriza-nos e ninguém quer viver aterrorizado. Ali estava eu agora na mais desolada mais absurda solidão sem a sabedoria do meu eu antigo completamente entregue ao novo eu que não sabia como resolver o problema inesperado. Para evitar o sofrimento ele recorrera ao álcool eu recorrera ao álcool mas se tivesse juízo tinha previsto o choque o que ia acontecer ao chegar a casa e ter-me-ia protegido de antemão podia por exemplo ter-me embebedado no avião.

Durante a viagem por exemplo logo no primeiro avião fiquei sentado ao pé de uma rapariga um pouco gótica no vestir e no estilo jovem como a minha filha e como ela magnificamente ignorante de tantas coisas da vida o que provavelmente se via no seu rosto fresco na sua pele nos seus olhos na sua curiosidade na sua simplicidade. Ela viajava acompanhada por um careca corpulento que não parava de falar iam de férias certamente ao país dele. Eu encostei-me no canto meio a dormir contra a parede do avião as pessoas irritavam-me não me apetecia falar mas ela perguntou-me duas vezes se eu queria uma pastilha de liquorice estendeu-me a caixa e já perto do fim da viagem perguntou-me para onde é que eu ia onde é que eu morava. Eu disse onde morava para onde ia e os bonitos olhos dela brilharam com interesse ela virou-se abertamente para mim curiosa com uma nova atitude ah que sorte como eu gostava de lá ir de lá viver deve ser fantástico. Sorriu-me com cumplicidade e simpatia como se eu de repente me tivesse transformado noutra pessoa e eu comentei meio a rir que não era tanto assim que não era tão fabuloso como ela imaginava mas a dizer a verdade e pensando nisso agora que sabia eu acerca dos mil caminhos por onde escorre a vida na grande cidade certamente cheia de oportunidades que fazem sonhar cheia de aventuras que poderão modificar definitivamente a nossa existência sim que sabia eu dessa cidade que a seduzia como provavelmente me tinha seduzido a mim antes de a ter conhecido nada verdadeiramente e era assim porque me faltava o desejo de conhecer porque gastara a minha ignorância a minha curiosidade a minha energia noutros sítios a conhecer provavelmente o mesmo sob formas sob aparências diferentes. E então vi que no braço direito ela tinha uma tatuagem colorida azul vermelho verde as maminhas dela notavam-se apertadas na camisola de algodão verde a pele nua das suas costas devia ser macia mas ela era uma menininha ainda estava a descobrir o mundo e a descobrir-se a si própria ao seu poder às suas forças às suas fragilidades. durante a viagem eu evitara olhar para ela porque o tipo que a acompanhava me parecera estranho eu não queria ter chatices nem aborrecer ninguém mas agora pressentia que a relação entre eles era provavelmente nova e frágil e quando o avião se imobilizou no aeroporto e nos levantámos para ir saindo ela ficou para trás e disse-me bye bye acho que o careca não tinha gostado de a ver em conversas subitamente tão animadas comigo achei-o inseguro dei-me conta da sua desconfiança assim que pôde ele avançou na direcção da saída passando à frente de algumas pessoas no pequeno corredor do avião. Ainda há quem se interesse por mim quem me sorria com os olhos a brilhar pensei eu não te esqueças disso nos momentos de depressão ainda escapas a que te confundam com o lixo à beira dos caminhos a tua solidão é portanto menos grave do que pensavas. Senti que renasciam as razões para encarar o futuro com um pouco de optimismo mas que fiz para me proteger no futuro? Ignorando o que me iria acontecer quando finalmente chegasse a casa ignorando que em vez de mim estava agora outro ocupante no meu corpo na minha cabeça na minha vida não fiz nada nada limitei-me a sorrir. Se estivesse atento a mim mesmo se tivesse consciência da gravidade da minha situação talvez tivesse tido um lampejo de inspiração e trocado os endereços do email com a rapariga da tatuagem. Depois ela vinha visitar-me e tornava a minha vida mais interessante durante algum tempo.

A magnanimidade de Deus é imensa. Por isso tive ainda no mesmo dia uma segunda oportunidade de introduzir na minha vida outra pessoa que podia modificar a monotonia dos meus dias. Desperdicei-a de novo. A rapariga alemã discreta compenetrada pouco faladora que ia sentada à janela perto de mim no segundo avião interessou-me não porque fosse particularmente jovem ou bela mas por ir meio ensonada a ler uma revista desinteressada do que se passava à sua volta. Perguntei-lhe se era música ou filósofa visto que era alemã mas ela não entendeu a brincadeira disse apenas que não talvez um pouco surpreendida. Eu expliquei e então ela riu-se. Mais tarde contou-me a mim e ao rapaz que ia sentado entre mim e ela que ia para um mosteiro budista no Hawaii. Durante a longa viagem estabeleceu-se entre nós lentamente alguma familiaridade por exemplo quando ela descobriu que havia gelados trouxe maternalmente um para mim e outro para o tipo porreiro o estudante escocês que era nosso companheiro de viagem sem nos ter perguntado se queríamos um. O meu interesse por ela parecia ser correspondido pela sua curiosidade a meu respeito eu olhava-a e ela olhava-me começámos a observar-nos mutuamente mas como muitas outras vezes como quase sempre eu não fiz nada só tomei consciência da oportunidade de estabelecer alguma relação com ela quando já era tarde de mais quando já tínhamos partido cada um para seu lado. Eu tinha gostado do corpo dela das maneiras dela da maturidade dela. Mas não fiz nada sou um preguiçoso um parvo. Se quiser evidentemente posso telefonar para o mosteiro budista no Hawaii ou enviar um email e pedir que lhe dêem um recado meu you see eu viajei com ela da Europa para a América digam-lhe que telefonou o tipo que ficou sentado perto dela no avião esqueci-me de lhe devolver o livro que ela me emprestou se fosse possível falar com ela eu agradecia. Mas talvez esteja a exagerar não estou seguro de que o meu interesse por ela pela desconhecida justifique um comportamento que pode parecer estranho e talvez o seja vou pensar no assunto com mais calma porque a verdade é que o último olhar que ela me lançou quando estávamos na fila para mostrar os passaportes continua a perseguir-me às vezes penso quem sabe se ela não é a mulher com quem eu podia finalmente estabelecer uma relação digna desse nome uma relação que se poderia tornar inesquecível. Perco todas as oportunidades sempre foi assim sou excessivamente bem educado respeitador imbecil prudente incomoda-me que uma mulher pense que o meu interesse por ela é apenas sexual.

Quando estamos atentos já percebi já me dei conta as oportunidades repetem-se sucedem-se mas nós ficamos surpreendidos com a facilidade com que as pessoas se abrem pela rapidez com que se mostram disponíveis na verdade não contávamos com nada era só jogo mais uma experiência ou sou eu que vivo na lua que nunca levei a vida a sério que ando sempre distraído que brincar com coisas que podiam ser sérias me diverte. Mas também é possível que eu tenha medo de me enganar talvez eu tenha receio de me ver encerrado no círculo fechado do mundo dos interesses e paixões de outra pessoa talvez eu prefira continuar aberto a todas as possibilidades disponível para as surpresas para o desconhecido protegido dos perigos do amor correspondido.

Tudo tem o seu preço. Desperdicei duas oportunidades de escapar à solidão não fiz nada e não é assim que uma pessoa se protege de acidentes imprevistos como aquele que me esperava ao regressar de uma viagem e deparar com a casa vazia. O preço a pagar pela minha ligeireza preguiça falta de iniciativa era evidente e eu não ignorava que o erro vinha de muito longe. Como prever porém que a pessoa que eu deixara de amar e que desaparecera da minha vida me faria tanta falta se revelaria tão necessária ao meu equilíbrio emocional? A ausência do meu eu antigo contribuía para tornar tudo mais difícil senti-me à mercê de qualquer acontecimento mais inesperado ameaçado fragilizado à beira da depressão. Eu não era eu na minha cabeça no meu corpo na minha vida em vez de mim estava agora uma versão diminuída inexperiente incauta uma caricatura da pessoa que eu tinha sido. E tudo parecia sem sentido. Vieram-me então no estado de entorpecimento em que me tinham deixado o cansaço da viagem e o excesso de álcool ingerido já em casa recordações doridas dessa pessoa. Alucinado vi-a bruscamente atarefada a calafetar a base das portas com cobertores para que não entrasse no quarto onde ela dormia o ar que eu já tinha respirado. Era incómodo perturbador incoerente mas tive saudades dessa e de outras suas obsessões doentias tive saudades das nossas discussões azedas. Os gestos as feições as palavras dos desaparecidos já se sabe têm tendência a ocupar definitivamente e de maneira ciosa exclusiva certos espaços da consciência e da memória. E é assim durante algum tempo depois nós esquecemo-nos a vida continua. Ela vivia comigo mas fora-se pouco a pouco como que dissolvendo em si mesma na sua insignificância na doença que era o seu corpo o seu espírito da maneira mais surpreendente e inexplicável ela desaparecera progressivamente da minha vida e talvez até da sua e contra isso eu nada pudera fazer. Ao vê-la tão absorvida na sua autodestruição na sua própria desaparição alguma coisa mudara em mim. Perdi provavelmente a capacidade de a olhar de a ouvir de lhe falar de a amar de a desejar de a ter ao meu lado na minha vida. Ela emagrecera adormecia na sala quando não eram horas disso não dormia tranquilamente na cama quando eram horas normais de dormir às vezes não comia às vezes não conseguia respirar era como se todas as formas de comunicação do seu corpo com o exterior e por consequência comigo mesmo se tivessem vindo a atenuar a deteriorar gradualmente e o seu isolamento definitivo o seu desaparecimento completo a sua morte sem remédio para as coisas da vida e do mundo fosse inevitável. Talvez por me sentir repelido ou incompreendido insuficientemente amado acabei por transformar-me num monstro de frieza e egoísmo num peso para mim próprio na relação que tinha com ela relação que eu comecei a observar de longe de fora com perplexidade. O desastre que parecia eminente era na minha opinião facilmente evitável nada o justificava nada o exigia eu amava-a separar-me dela era uma injustiça uma parvoíce um desperdício nascido de um mal-entendido da inexperiência da pressa do medo da ignorância. A minha incapacidade de encontrar uma solução não a entendo hoje ainda. Ela foi-se sumindo desaparecendo transformou-se numa nuvem desapareceu lá em cima no céu num lugar invisível a uma distância que os olhos não podem alcançar. Não me habituei ao seu desaparecimento mas encontrei maneira de sobreviver sem ela é assim acabamos sempre por poder viver sem os mortos que enquanto vivos nos faziam tanta falta.

Eu não estava em mim eu não era eu não eu eu não me reconhecia nesta versão insuficiente distraída desprevenida adulterada de mim mesmo. Mas sem eu me dar conta disso a nova figura a nova identidade ocupara o lugar daquele que eu era antes. Pelo menos foi essa a explicação mais verosímil que encontrei para as catástrofes que se abatiam sobre mim para a minha fragilidade para a minha incapacidade de me tornar invulnerável ao sofrimento. Mas nada deixava entrever o regresso daquele que com razões ou ilusoriamente eu pensava que tinha sido. Nem ele nem ninguém me ajudaria a resolver os problemas criados pela nova situação. Entendi na solidão dessa noite que era assim que a partir de então de novo inexperiente de novo ignorante do que no entanto tinha aprendido na minha vida anterior teria de enfrentar o futuro e a vida. Fui buscar outra garrafa de vinho abri-a e continuei a beber. Acabei por adormecer vestido em cima da cama indiferente a tudo o que pudesse vir a acontecer-me. Fui buscar outra garrafa de vinho abri-a e continuei a beber. Acabei por adormecer vestido em cima da cama indiferente a tudo o que pudesse vir a acontecer-me.

P.S.

Os dias que se seguiram foram banais o que não surpreenderá ninguém. Mas eu continuava a querer entender por que razão as minhas relações com aquela mulher em particular tinham sido tão tumultuosas e acabado de maneira tão desastrosa e tão feia. Uma tarde sentado à mesa de um café o meu espírito iluminou-se e subitamente tudo o que se tinha passado entre nós pareceu-me simples e não necessitar de grandes explicações: enquanto vivia comigo ela encontrou outro homem ele interessou-se por ela e ela interessou-se por ele começaram a desejar-se era uma novidade. Tornaram-se amantes. Ela pouco sabia do amor qualquer novidade eu devia ter previsto isso a excitava e deixava fora de si. Nada que eu pudesse fazer no entanto para a proteger das suas doidices ponto final parágrafo. Eu saio da história não tenho mais nada a ver com o caso nem quero ter. Ela e ele tornaram-se amantes porque se amavam repeti eu para mim mesmo no silêncio da consciência. Ela está iludida pensa que o amor é conhecer uma pessoa e ir para a cama com ela e que tudo se vai desenrolar como previsto pensei eu ao mesmo tempo. Tudo bem diz uma voz recalcitrante em mim para me aborrecer mas se ele se amavam tanto então por que razão é que ela tentou duas vezes viver com ele e o deixou para voltar a casa e retomar a relação contigo? Não respondi. Houve um tempo em que estas questões me interessavam porque eu atribuía o insucesso da nossa relação à minha incapacidade de solucionar os problemas que surgiram entre nós ao meu insuficiente conhecimento do amor à minha falta de paciência. Esforçando-me por entender assumi culpas que não eram minhas desculpei abusos que não devia ter desculpado torturei-me filosofei acabei amargo e pessimista deixei de gostar das pessoas em geral puta que as pariu.

Continuo a não gostar das pessoas em geral mudei radicalmente desse ponto de vista eu não era assim as vossas histórias monótonas e as vossas mentiras deixaram de me interessar mas a amargura e o pessimismo entretanto atenuaram-se. Chegou o momento de recuperar a lucidez de pôr os pontos nos is. É preciso pôr a cabeça em ordem voltar à realidade. É preciso sublinhar que a minha relação com essa mulher durou apenas dois anos ou nem isso. Conhecíamo-nos e estávamos juntos havia um ano quando eu fui viver para outra cidade noutro país. Ela foi ter comigo eu ajudei-a a arranjar trabalho. Bastou-lhe um mês para estabelecer relações de intimidade com um colega que se interessara por ela. Começou logo a mentir-me e a trair-me. Sendo assim para quê filosofar? Um mês repara bem diz a voz recalcitrante em mim não necessitou de mais tempo e tu ainda estás a desculpá-la ela era uma cabra. Em geral não respondo a esta voz rebelde que vive na minha consciência sem minha autorização. Mas desta vez disse-lhe com ar professoral: o amor é cego e contra ele não se pode lutar portanto cala-te não me aborreças não há nada a entender nem vale a pena perder tempo com ninharias já te expliquei que ela vivia comigo há dois anos quando conheceu outro homem e que o amou. Ou tentou amá-lo diz a voz recalcitrante porque foi duas vezes ter com ele e duas vezes voltou não te esqueças disso. Ao partir pensava que o amava e voltava porque percebera que me amava a mim. São coisas que acontecem não é necessário tanta severidade digo eu à voz recalcitrante. A paciência de que dei provas neste período da minha vida essa sim reconheço que foi absurda. Mas tem a ver com o meu carácter. Sou incapaz de abandonar um barco que em meu entender não vai afundar-se. Enganei-me? Sou mau marinheiro? Podia comentar mas digo apenas que pode ser que sim e pode ser que não.

Para acabar a história: recentemente enquanto ainda vivia comigo (tínhamos estado separados um ano ela tinha ficado a viver sozinha na cidade onde tínhamos vivido juntos os últimos anos mas tinha regressado à minha vida)  ela chegou outra vez à conclusão que o amava a ele e não a mim. Sou obrigado a pensar com alguma desilusão que os últimos anos que vivemos juntos foram o prolongamento exagerado e desnecessário de um mal-entendido. Ela nunca me amou eu nunca a amei. Ela quis recusar-se às evidências pode ter hesitado muito e sofrido com as suas dúvidas (o que é o amor afinal?) mas nunca deixou de estar convencida de que amava outro homem em vez de me amar a mim. Felizmente o problema está resolvido os dois amantes estão finalmente juntos. Agora não há qualquer dúvida é mesmo a sério. Eu acho que eles estão bem um para o outro e que vão ser felizes. Mas que o sejam ou não é-me perfeitamente indiferente. Desejar-lhe o destino que o seu carácter merece não é um gesto elegante da minha parte não revela boa nem má vontade não é prova de estima nem de rancor é simplesmente uma redundância inútil: os meus desejos nada têm a ver com o que acontece no mundo e quer eu queira quer não ninguém escapa ao seu destino. Ora o destino como se sabe é construído pelo carácter.

Já entendi que terei de viver com esta nova versão de mim mesmo e com a nostalgia da primeira. A primeira ofuscou-se e não voltará mais. Vou tentando lembrar-me da pessoa que era antes para que não se perca tudo o que já tinha aprendido. Mas nem tudo se pode corrigir nem reaprender. A nova versão da minha pessoa já por duas vezes reagiu desagradavelmente à minha nostalgia da antiga versão chamando-me saudosista e ingrato. Tomei nota e farei o possível por não a ofender comparando-a com a sua predecessora tentando desembaraçar-me dela ou querendo substituí-la por uma versão remendada da versão que se perdeu. 


Razões

Ontem comecei a ler um artigo de Donald Davidson intitulado " Actions, reasons, and causes". Entendi que "a razão racionaliza a acção". Isto é: a "racionalização é uma forma de explicação causal". Nada de novo: quem está disposto a admitir que fez o que fez sem ter pelo menos uma razão para tê-lo feito? A explicação deixa as pessoas tranquilas: nada do que acontece acontece sem motivo, isto é, sem razão, por isso durmam descansados. Só que a explicação causal pode ser e é muitas vezes apenas uma maneira engenhosa de conferir racionalidade aos acontecimentos que aconteceram, isto é, uma maneira de explicar engenhosamente coisas que acontecem sem razão que se conheça ou por razões que não devem ser reveladas. Onde estão as armas de destruição que levaram gente que passa por honesta e respeitável (Blair e Bush) a invadir o Iraque? Esta noite a CNN tem estado a passar repetidamente as imagens da execução de Saddam Hussein, entrevistando pessoas, deixando falar jornalistas. Para que toda a gente entenda bem e assimile a ficção contada: Saddam foi enforcado por ter cometido crimes contra a humanidade e não por outras razões. Não sabemos se Bush e Blair teriam mandado enforcar, digamos, o ditador espanhol Franco. Mas sabemos em todo o caso que nada fizeram para enforcar o criminoso Pinochet, que morreu na cama. Portanto: vão ver se chove.


Ler no Independent: Robert Fisk: A dictator created then destroyed by America


Thursday, December 28, 2006

água

o mar que sobe no teu peito e te asfixia
mar de pouca água mas pode incomodar

tu moves-te nas ruas da cidade

como se caminhasses nos ramos de vidro
da teia que a exímia aranha foi tecendo

é como se vivesses suspenso no vazio
cada passo que dás pode fazer-te escorregar

a tarde é um tempo sem marcas sem
limites
uma espécie de infinito adormecido
pelo tédio
é uma espécie de planície sem
árvores e tu
lembras-te de que neste país
não há salvo
nobres excepções pessoas só

há máquinas
de calcular somam diminuem
multiplicam
dividem entretanto enferrujam
morrem e
são substituídas imediatamente
por outras
máquinas idênticas talvez mais
perfeitas
mais máquinas mais rentáveis e

por isso
ou porque ainda crês que existe
para além
de ti outro território não desistes

por
instantes esqueces a água que vai
subindo
como uma maré no teu peito

depois
decides sair de casa talvez a rapariga
do sonho tenha de facto descido à terra
e esteja a pensar em ti encostada à parede
do cinema e então se tu de repente apareceres

no horizonte do seu olhar talvez ela se alegre
e terias no dia insignificante servido para alguma
coisa consola-te acredita na felicidade o amor
é se a gente quiser assunto ocupação bastante

eat me

Eat me alive
eat me blistering
with horniness
eat me ice-cold
with hot sauce
eat me lukewarm
and purple
eat me all
inside
eat me all
outside
but never again
pour vodka
into my navel.

Didda, Islândia, na antologia
de "contemporary nordic poetry"
organizada por Anni Sumari e Nicolas
Stochholm, The other Side of Landscape,
Slope Editions, 2006

Wednesday, December 27, 2006

You're angry

.............

You're angry because I've written
about you! After a few enraged
sentences you spit on my face.
I'm infuriated: Yes! I have written
about you! And I will write more!
Ten love poems for each slap, a hundred
for spitting! Love has a high price -

On the other hand all the shit
a poet has to lay her hands on
might turn to gold.

...............


Anni Sumari, Finlândia, na antologia organizada por Anni Sumari
e Nicolas Stochholm, The other Side of Landscape, Slope Editions, 2006

Saturday, December 23, 2006

literatura

como consolar quem não se deixa consolar
quem não ouve não fala não quer ver-nos
não reconhece a nossa existência é um
problema que subitamente quase nas
vésperas de natal me deixa à beira de um
ataque de pânico terei trazido lorazepan
que chegue perguntou-se o homem as tardes
eram noites nada havia a esperar de ninguém
quem podia ser feliz estava a ser feliz quem
estava excluído estava excluído e quem não
se deixa enganar quem não quer ser consolado
causa-nos imensos problemas de consciência
lamentava dizia ela eu estava de passagem
não ia
ficar provavelmente tinha saudades de
alguém
de qualquer coisa que nem sabia o que
era e
resistia não me deixava abater mas ser
feliz
significa o quê alem de ter no espírito o
ódio
a dúvida o amor arrumados em prateleiras
diferentes no meu pensamento aconteciam
muitas coisas estava sempre a acontecer
qualquer coisa e de que me servia as noites
eram fúnebres a solidão sem solução e havia
ainda a resolver o problema de quem não se
deixava consolar era totalmente indiferente à
nossa presença às palavras como sair de um
beco que não tem saída para me iludires não
mintas nem me fales com paternalismo nem
imagines que eu sou mais tolo do que pareço
nem me venhas com falinhas mansas comigo
esses truques de circo de bordel não funcionam
se pensaste o contrário é porque tens um parafuso
a menos e te imaginas acima das leis da punição
mas ninguém escapa à justiça divina na tua cabeça
deus vigia deus ameaça deus vinga-se do pecado
eu ouvia este diálogo teatral através da parede
fina e sentia-me um pouco incomodado eram
histórias que pareciam literárias e talvez o
fossem ou talvez não abri um livro para ver
se comparando com o que lá estava escrito
se podia chegar a uma conclusão mas não
consegui chegar a qualquer conclusão e na
televisão que alguém tinha ligado nas minhas
costas o filme de james bond irritava-me não se
pode estar em silêncio nesta casa posso pedir
um pouco de compaixão os meus nervos por favor
mas para onde dava a parede quem havia do outro
lado como era possível alguém esconder-se e ir
preparando na sombra reencontros leilões funerais
you have a wicked a twisted mind girl be careful
talvez se víssemos o filme 2046 nos distraíssemos
ninguém me ouviu voltei ao meu livro continuei
à procura mas já não sabia de quê se queres ser
esquecido nem penses nisso a música do filme
fez-te levantar da cadeira começaste a
dançar na
sala sozinho so romantic! e o teu coração alegrava-se

bruscamente eras feliz nada se explica nada acontece
por acaso e o amor devia ser encarado como uma
diversão mesmo se em silêncio se pode sofrer isso
tem pouca importância o que conta é a literatura

listen















recorda-te ouve o que eu digo de cada vez que eu viajava me ia embora me aproximava do lugar onde tu imaginavas que se escondia o tesoiro o amor clandestino que ameaçava a tua paz tu pensavas que eu te abandonava te traía me preparava para te deixar mas não era verdade tu inventavas-me envolvido em histórias insensatas receosa amedrontada comportavas-te como a miúda que o pai e a mãe deixavam de manhã no jardim escola e não entendia por que razão a esqueciam então para te vingares cuspias nas pessoas que passavam ao alcance da tua boca e se as apanhavas de costas fazias gestos obscenos com os dedos e para fugir à angústia do abandono e do desprezo para que a vingança fosse mais feroz mais sem remédio mais imprevisível mais excitante mais perigosa introduzias na casa que não era tua pessoas que te tinham claramente proibido de deixar lá entrar o teu pai a tua mãe onde é que estavam como podiam como ousavam cruéis eliminar-te da vida deles repetidamente o teu espírito nunca percebeu a razão das longas ausências na tua cabeça infantil eles sempre estavam presentes como um remorso uma ferida se eles soubessem da desobediência tu serias castigada é claro claro que sim mas não te importavas o ódio imaginário que lhes tinhas era mais urgente do que o amor que todos os dias te roubavam do que a punição que todos os dias te infligiam que sem motivo sem razão te infligiam o teu coração magoado vingava-se e nunca mais deixou de odiar de punir quem dizendo que te amava se ausentava sem o saberes sempre confundiste tudo eu por exemplo nunca fui quem tu imaginavas mas de cada vez que me afastei protegeste-te contra mim como se eu fizesse parte da dor dos teus obscuros anos infantis só assim se explica o prazer doentio que tu tinhas em provocar a minha ira e a necessidade que tu amedrontada e enraivecida tinhas de procurar outra pessoa alguém que pudesse representar o papel de não sei que salvador um estranho um estrangeiro evidentemente também para esse subterfúgio não havia outra explicação mas eu não sou nunca fui teu pai nem tua mãe por isso não necessitavas de me informar de que enfim eras livre e podias voar essas ofensas a prisão em que estavas metida essas grades invisíveis essa falsa libertação com que te alegravas e iludias nada tinham a ver nada podiam ter a ver com a minha pessoa desengana-te eu não era nunca fui personagem dessa história que alimentava a tua imaginação tu misturaste tudo um dia finalmente como era de esperar o barco afundou-se e então tu fechaste-te definitivamente na casa das máquinas no quarto mais distante às escuras amaldiçoando-me ainda e sorrias curiosamente sorrias talvez para acreditarmos que eras feliz imagino e não querias falar comigo parecias convencida de ter descoberto a terra prometida de ter chegado ao paraíso entendi que eu era agora definitivamente o inimigo aquele que não te amara o falso herói do conto de fadas que não soubera vencer os obstáculos que tu com uma sabedoria inconsciente tinhas semeado no seu caminho e que portanto tinha de ser punido eu entendi eu percebi e de longe observava com um sorriso de dor irónico nos lábios a morte do amor a inutilidade da pena a repetição do teu erro a continuação do fucking malentendido

Friday, December 22, 2006

Nova Editora: OVNI















Nova editora no Entroncamento. Além deste meu livro, a OVNI acaba de publicar também um volume de contos de Fernando Sorrentino: Existe um homem que tem o mau costume de me dar com um guarda-chuva na cabeça. Em breve a Ovni publicará um volume com os melhores contos de Machado de Assis.

P.S.

Obrigado a Henrique Fialho no Insónia pela referência. A Ovni também acaba de publicar Estórias Domésticas de Henrique Fialho.

Obrigado também a Walter Hugo Mãe pela referência no blogue casadeosso.

Obrigado a Manuel A. Domingos pela referência à representação de e outros diálogos 

nocturno descontrolado

des mots insensés que tu comprendras
e os meus nervos que não suportam o
ruído não me interrompas estava a pensar
no porto os barcos alguns vagabundos
a cidade adormecia e de não sei onde
o fumo das recordações o azedo o acre
ninguém nas ruas ou vamos ver se talvez
eu passava a maior parte do tempo só
cavernas lúgubres do nada do prazer do
inferno não aprendemos o código as regras
há um excesso de opiniões em circulação
e a gente perde-se na barafunda e claro
o amor é em geral ingrato espada de dois
gumes nem falar nem entender nos é possível
oh meu deus e tu na cidade amaldiçoada
continuavas o teu percurso de perdição
sorrias abrias-te gastavas-te escondias-te
seduzias aproveitavas-te emproavas-te
não se podia fazer nada por ti e eu
apesar disso recordava-te como se
tu fosses alguém com quem se podia
falar grande engano erro grave ia pagar
cara a ingenuidade pressenti isso e outras
coisas nessa noite incêndios tempestades
nos nervos mas eu estava sereno calado
aborrecia-me tanto não via a luz o fogo
ao fundo do túnel ela a ciganinha tinha
transformado o destino de tanta gente
lia-lhes a sina e estava tudo errado
nas suas previsões mas ela acreditava
nas suas próprias mentiras sorria
a vida às vezes é absurda e sobretudo
admitir que somos responsáveis custa
a nossa ignorância não tem cura já
entendi mas vou esquecer-me e amar
a rapariga que me dizia i don’t know
neste momento só penso nela que soube
tocar a corda mais gasta mais desafinada
do violoncelo mas sabe-se lá não estou nada
preocupado o que tiver de ser será eu sei
as pessoas que nos desprezam reduzem-nos
a pó antes de termos apodrecido secado
cruelmente mas não é com intenção de
nos magoar é claro é claro que não ó
pérfida bruxa coruja ó madalena sem
paixão perdida no nevoeiro da ambição
e da estupidez da falta de vista da falta de
tudo e eu por que razão parei na rua e te
falei mil vezes agora me arrependo e há
tantas raparigas que podíamos amar mas
como escolher como decidir em qual delas
investir todo o esforço toda a inteligência
toda a energia todo o tempo disponível
por isso acabamos sozinhos num quarto de
hotel há ainda umas mulheres de cinquenta
anos bem conservadas com educação
acredite-me dizia o meu psicanalista
a gente envelhece mas não é como
antigamente digamos até que etc. etc.
como ele me compreendia ele sabia do que
falava eu ouvia-o modestamente com
simpatia ele era paternal e eu pensava
que em mim ele se curava também
da inevitabilidade do erro e da pobreza
agora longe a vida não mudara nada eu
continuava tão só como sempre tinha
estado culpa de quem senão minha
e podia continuar eternamente a falar
em vez de sair de casa e ir ver se na rua
acontecia alguma coisa era tarde porém
uma guitarra tentava encantar a noite
e no porto os barcos adormecidos
esperavam pelo nascer do sol pelo dia

e ele amava-a

a lógica então hoje dia sombrio
quando na avenida anónimos
de casaco escuro vão e vêm
como num quadro de munk
num poema ocidental de cesário
de onde para onde não se sabe
seria necessário perguntar
para ter uma base sólida
de sentido é evidente para ter
alguma coisa a partir da qual
se começasse a discussão
é natal ok a gente sabe isso
a solidão aumenta quando
toda gente se agita se aglomera
é um facto indiscutível
portanto nada impede que
eu permaneça aqui sentado
sem fazer nada a pensar por
exemplo em escrever uma
longa carta carta de horas
ou de dias não de minutos
revendo a situação e tudo
o que a precedeu a permitiu
e depois as consequências
de certas atitudes de certas
formas de comportamento
particularmente inaceitáveis
talvez então se pudesse
progredir na direcção da
verdade mas seria preciso
que todos os intervenientes
os cobardes e os corajosos
os oportunistas e os generosos
os inteligentes e os estúpidos
colaborassem de boa fé no
inquérito de outro modo os
dados que permitiriam as
conclusões tornariam rigorosamente
falso tudo o que se descobrisse
consciente disso fico paralisado
em casa não decido nada nada
e a noite de tédio não terá fim
nem esta nem as que virão
a seguir as ofensas que nos
fizeram também não serão
perdoadas nunca o silêncio
rodeava-me no apartamento
onde eu só sentado meditava
na vida nos acontecimentos
que a tinham definitivamente
transformado o poder da acção
é insubstituível pela eficácia
do pensamento são unidades
de famílias distintas dois
domínios existenciais completamente
estranhos um ao outro e sendo assim
de que adianta querer esquecer
querer corrigir não serve de nada claro
eu apesar disso sentado no apartamento
ao fim da tarde e era já de noite eu
apesar disso acreditava sem me
aperceber do que fazia numa conclusão
útil aceitável esclarecedora e até
pacificadora mas de onde me viria
tanta esperança tanta confiança
no sentido encadeado do que acontece
não sei mas era assim indiscutivelmente
e nas hipóteses de conclusão eventuais
não estava incluído o perdão nem o
esquecimento devo sublinhá-lo para
que não haja malentendidos esperanças
nem estava prevista a vingança qualquer
violência o que evidentemente reduzia
as possibilidades de se sair do longo
emaranhado em que vivíamos e eu
sabia além disso que quem mais
necessitava de estar atento de
compreender de resolver o problema
era quem menos se interessava pela
sua resolução sabe-se porquê é que
o problema nessa cabeça enfraquecida já
estava resolvido nunca tinha na verdade
sido problema nem sequer malentendido
nada de absurdo nada que contrariasse
a lógica comum os rios correm para a foz
e as montanhas elevam-se para o céu e
portanto a lógica dos acontecimentos
nunca fora pervertida eu sabia eu sabia
mas a tarde foi tomando conta de mim
adormeci nela confundi-me comigo
mesmo há muitos anos nesta cidade
no meu quarto a esta hora sossegada
provavelmente a tomar chá com a
rapariga que conhecera numa festa
que depois dormiu comigo duas vezes
e me telefonou três dias depois à noite
para se despedir o namorado tinha
vindo de paris para a levar ela tinha
contado o que se passara e ele amava-a



têmpera

para quem não existimos podemos
morrer não será sentida a nossa ausência
para quem nos amou e se esqueceu de nós
não existimos alguém ocupa agora o lugar
do morto para quem nos ofendeu não somos
nada nem sombra nem mancha e com a
consciência destas coisas é que temos
de ir ao supermercado comprar o pão
o leite as cebolas as batatas os legumes
felizmente tivemos uma educação estóica
a nossa têmpera é indiscutível a nossa
força moral enorme a nossa capacidade
de resistir às intempéries um assombro
para nós mesmos e se pensamos neles
naqueles para quem já não somos ninguém
temos alguma pena da aridez que lhes vai
secando o coração e está a fazer deles
antecipadamente irmãos das pedras
e podemos ter-lhes alguma raiva mas
não adianta porque eles serão felizes
e infelizes sem nós e a nossa inutilidade
é um fardo que teremos de transportar
às costas até o podermos descarregar
numa lixeira e não sei se ainda teremos
força e vontade nesse momento para
caminhar voltar regressar ou se preferimos
adormecer entre os velhos farrapos os
restos de comida os detritos nojentos
e esperar por eles no meio da podridão

Wednesday, December 20, 2006

you talk a lot


you talk a lot disse z.

qual é o problema perguntou r.

não sei qual é o problema você é que deve saber disse z.

talvez saiba disse r.

as coisas são simples disse z vive-se e morre-se não adianta discutir tentar perceber você usa os seus narradores inquietos parciais para problematizar e explicar tudo ora querer compreender tudo não é necessário não adianta e ter em primeiro plano da narrativa um tipo que se apaixona que se deixa perturbar pode ser incómodo para o leitor.

eu li os seus livros disse r e você também fala bastante só que o seu narrador não tem rosto é uma máquina de contar histórias aparentemente sem opinião nem coração.

pois disse z o meu narrador limita-se a contar o que aconteceu o que acontece as pessoas encontram-se amam-se enganam-se separam-se por exemplo mas não compete ao meu narrador saber porquê o leitor que decida o narrador não tem explicação ciência sabedoria divina sobre o que se passa nem ninguém a tem como sabe só existem as verdades que nós acreditamos serem verdades só existem os problemas que nós consideramos serem problemas e não há em lugar nenhum uma verdade uma conclusão uma explicação que seria a correcta em relação à qual tudo o que nós dizemos teria de ser comparado confrontado isso são coisas que se nos metem na cabeça é como aquela coisa de imaginar que existe no céu um livro onde a nossa vida já está escrita de antemão sabida por alguém antes mesmo de ser vivida se já se viu ideia mais tonta meu deus.

foi assim que nos educaram disse r para viver na crença de que existe alguma coisa para além do que acontece mesmo platão colaborou nessa brincadeira infantil com as teorias as metáforas da caverna e das sombras da caverna la vida es sueño además.

sabe uma coisa disse z as pessoas amam-se porque podem odeiam-se porque podem casam-se porque podem separam-se porque podem mentem e matam porque podem tudo o que se diga para além disso é pura especulação. podem e apetece-lhes e se elas dão outras explicações é porque têm medo são escravas da boa educação que receberam que pretende que nada acontece que não tenha uma explicação profunda séria relacionada com o carácter e com a situação particular em que se encontram as pessoas. entendo que quem esteja envolvido directamente nos acontecimentos queira perceber é natural e por essa razão eu deixo falar nos meus livros as personagens eles e elas que se expliquem mas eu não sei se eles dizem a verdade nem se há verdade que de facto possa ser dita o que existe são opiniões não há mais nada senão opiniões creio eu. eles falam e tentam perceber o que lhes acontece porque não se conformam não suportam o que aconteceu necessitam de acalmar a dor a incompreensão tentando perceber falando reflectindo inventando histórias mas são eles não eu quem especula quem fala quem conta essas histórias quero dizer que não é o meu narrador quem tenta impor explicações ao leitor são eles directamente. para mim a realidade meu amigo a vida e a realidade são coisas simples nasce-se e morre-se ama-se e odeia-se o amor começa e acaba não há explicação não é necessário justificar o que não tem justificação é assim e pronto pensar e falar não servem de nada é perder tempo eu sou um tanto budista. as minhas personagens é que são diferentes de mim e eu aproveito-me disso sem ter de me preocupar pelo menos aparentemente em saber se elas têm razão ou não pois não tenho forçosamente de pronunciar-me enquanto autor nem o meu narrador invisível tem de explicar-se de tomar posição as personagens que se assumam e que se entendam entre si.

r calou-se durante uns instantes ficou a pensar e depois disse talvez eu mesmo enquanto autor das minhas histórias seja apenas uma personagem dos seus livros das suas histórias é por isso que lhe dou a impressão de falar de mais de pensar de mais de me agitar de mais não me peça imparcialidade nem indiferença ou antes não peça imparcialidade nem indiferença aos meus narradores pois eles estão dentro das histórias que contam estão lá quase de carne e osso é a história deles são eles que sofrem que são felizes que lutam que ganham que perdem que debatem que pensam está a ver o que eu quero dizer.

pois disse z eu também li os seus livros e entendo o que está a dizer foi por isso que comecei a falar que lhe disse você fala de mais quando na realidade são os seus narradores que falam de mais eu estava a provocá-lo para podermos discutir um pouco ambos sabemos que estamos a falar de técnica narrativa e que as escolhas nesse domínio nunca são inocentes eu deixo falar as minhas personagens e não tomo partido o meu narrador não toma partido não comenta ele é um funcionário de confiança objectivo tanto quanto se pode ser objectivo eu faço o que posso para que nem através da maneira de deixar ou fazer falar as personagens se possa entender que o meu narrador tem uma opinião acerca do que lhes acontece a elas claro não sei se consigo atingir essa imparcialidade mas é nessa direcção que se exerce o meu esforço até porque dessa maneira acabo eu mesmo por descobrir o que não sabia por pensar em coisas que antes não me tinham ocorrido. ora você isto é o seu narrador a pessoa que conta as suas histórias o seu empregado contador de episódios de intrigas não se mantém nunca friamente distanciado do que conta antes pelo contrário está sempre a tomar partido elogia e condena entusiasma-se a favor ou contra as outras personagens mostra-se a favor ou contra o que lhes acontece a favor ou contra os argumentos que elas utilizam a favor ou contra o que elas pensam julga-as critica-as odeia-as ama-as. como vê há uma grande diferença entre os seus livros e os meus entre as minhas histórias e as suas o seu narrador abusa perigosamente do poder que lhe confere o facto de ser ele a expor os acontecimentos o que o pode tornar odioso pois mesmo quando ele quer ser simpático ou imparcial com as outras personagens e adopta pontos de vista que são supostamente os pontos de vista delas pontos de vista que negam se opõem ou entram em conflito com os seus na realidade é uma ilusão pois tudo é contaminado pela sua visão das coisas das pessoas ele a sua sensibilidade e experiência filtram tudo e como é evidente ele só sabe pensar dentro dos limites da sua própria experiência e subjectividade ele só vê o que pode ver e não o que outras personagens vêem.

pois mas você parece esquecer-se de um pormenor muito importante disse r é que você escreve em geral na terceira pessoa ele disse ela fez eles pensaram e eu escrevo sobretudo na primeira pessoa eu digo eu penso eu vi eu sofri eu fui feliz o meu narrador ao contrário do seu é como já disse uma personagem da história que conta errado seria imaginar que mesmo quando ele fala de si está a dizer o que eu penso o que eu autor sinto ou penso porque não é isso que se passa nada disso o narrador faz parte da história por isso não pode ser levado à letra isto é o que ele diz pode não ter nada a ver nem com o que eu penso nem com uma análise rigorosa correcta fiel do que se passou se é que isso existe ele pode errar aliás nem se trata de errar trata-se apenas de ter uma opinião de adoptar uma perspectiva em vez de qualquer outra é isso que ele faz adopta uma perspectiva tem opiniões paixões não é neutro não é imparcial embora se possa dizer que é desse poder que ele por vezes abusa. faz parte do meu método que o narrador sendo ao mesmo tempo personagem e com frequência um dos protagonistas possa errar esteja errado não lhe compete aliás dizer a verdade não tem obrigação disso se ele filosofa é a sua filosofia que ele expõe não a de sócrates ou de kant ou de wittgenstein ele é mais modesto nas suas ambições. claro porque ele usufrui dos privilégios certamente excessivos de detentor da palavra pode pensar-se que tudo o que ele diz é mais verdade do que outras coisas que se pudessem dizer mais verdade mais acertado mais fiel à realidade do que aquilo que as outras personagens que ele não deixa falar suficientemente pudessem dizer ora isso não é minimamente o caso ele deixe-me sublinhar isso bem limita-se a ter uma opinião e a comunicá-la ele faz a sua narrativa e o leitor pode deixar-se iludir mas se o leitor souber ler a ambiguidade o malentendido desaparecem. aliás o seu narrador da terceira pessoa não se assumindo nem se mostrando à luz do dia como detentor de um ponto de vista acaba por ser mais manipulador menos honesto do que o meu e portanto paradoxalmente dou-me conta agora menos digno de confiança do que o meu narrador que é personagem ao mesmo tempo o meu narrador mostra a cara e pode ser facilmente acusado disto ou daquilo criticado enquanto personagem enquanto pessoa que faz isto ou aquilo pode em resumo ser julgado ao passo que o seu.

essa da honestidade agora é inesperada disse z eu faço o possível por ter ao meu serviço um narrador neutro não o deixo envolver-se é um facto e como disse antes não ignoro que é impossível ser imparcial mas ainda assim a situação nas minhas histórias é radicalmente diferente da situação nas suas o seu narrador como tem um extraordinário vital interesse enquanto personagem no que vai contando na imagem que quer deixar ao leitor daquilo que vai contando acaba por dar a impressão de falar de mais de pensar excessivamente de não ser lúcido de perder tempo e energias os seus defeitos obsessões paixões tornam-se podem aparecer como demasiado evidentes e o leitor pode por conseguinte duvidar não acreditar em nada do que ele diz.


mas é isso mesmo que eu quero disse r o meu narrador sendo personagem quer ser julgado enquanto tal portanto não creio que estejamos em desacordo o meu narrador de facto acaba por assemelhar-se a uma pessoa real pode até confundir leitores inexperientes ou desatentos e deixá-los acreditar levá-los a acreditar que o que estão a ler é a opinião do próprio autor a opinião a narrativa do escritor isto é a minha o que é totalmente absurdo os meus narradores contam sem qualquer ambiguidade desse ponto de vista histórias em que estão seriamente envolvidos e que são as deles e portanto só exprimem os seus próprios pontos de vista não peço portanto para eles mais tolerância do que para as personagens de que eles falam do que para as personagens que eles julgam ou acusam amam ou odeiam antes pelo contrário quero que eles sejam julgados é necessário que ele sejam sempre avaliados julgados também pela opinião que exprimem ou deixam transparecer sobre outras personagens e pela maneira como as situam na trama das suas histórias intrigas inclusivamente em relação a si próprio.

claro eu sei ao ler os seus livros a gente não se pode esquecer de que quem conta as histórias é o seu narrador disse z mas também não nos escapa que esse narrador sendo personagem na história que conta está a falar de coisas que de uma maneira ou outra lhe dizem sempre respeito a ele ora esse detalhe pode fazer com que não o levem a sério pode fazer com que o leitor desconfie dele que deixe de o interpretar à letra e esteja sempre de pé atrás o seu narrador por conseguinte é muito menos digno de confiança do que um narrador como os meus que são neutros que não fazem parte da história mas se limitam a contá-la.

mas há algum mal nisso ser indigno de confiança como narrador ou personagem é pejorativo negativo algum crime? antes pelo contrário e não se esqueça que platão aristóteles henry james e outros consideraram que era essa a melhor maneira de contar uma história usando a voz e os pontos de vista de personagens directamente envolvidas no que se vai passando. ser indigno de confiança neste caso é uma qualidade não um defeito. é natural por outro lado continuou r eu admito isso como perfeitamente natural que o leitor tenha tendência em última análise a desconfiar de mim e não do meu narrador mas será necessário sublinhar que eu sou apenas o metteur en scène o grande construtor exterior à intriga? claro que não é necessário explicar isso a não ser a gente ignorante.

no fundo eu aceito isso disse z você como autor é tão exterior em relação à história como o meu narrador neutro mas repare que não se pode dizer a mesma coisa do seu narrador e que é aí que está a diferença entre as suas histórias e as minhas pois ao nível da narração as suas histórias e as minhas são muito diferentes. repare que quem fala de si próprio directa ou indirectamente quem fala enquanto personagem não escapa nunca em maior ou menor grau às suas paixões ao passo que o meu narrador tem mais liberdade de manobra e é facilmente esquecido porque é apenas um funcionário ao meu serviço alguém a quem eu não concedo em situação alguma em caso algum que interfira se pronuncie directamente sobre a vida das personagens sobre os episódios que vai expondo na narrativa o que lhe confere um estatuto de inocência apreciável.

sem dúvida disse r mas as suas escolhas e as minhas correspondem a estratégias diferentes pode até dizer-se que as duas técnicas a sua da neutralidade e a minha de envolvimento do narrador correspondem a duas estéticas a dois temperamentos diferentes eu não me importo antes pelo contrário que o leitor se irrite se enerve com o meu narrador que duvide dele que suspenda as suas conclusões que o odeie ao passo que você com a sua estratégia de neutralidade aparente leva de facto o leitor a deixar-se enganar pois nem por adoptar um narrador neutro muito à hemingway você deixa de fazer as suas escolhas de criar um sentido determinado e não outros de levar a história numa determinada direcção e não noutras as suas personagens resolvem ou não resolvem os conflitos mas por detrás delas estão os seus próprios conflitos de pessoa de autor que você dessa maneira descobre enquanto escreve e que através das suas personagens vai tentando entender tornar mais compreensíveis.

e no seu caso disse z por detrás dos seus narradores problemáticos isto é com problemas está você mesmo como pessoa como autor tem de reconhecer que acabamos os dois por cair dentro do mesmo cesto a inocência nestas questões não existe espero que esteja de acordo comigo.

inteiramente de acordo disse r o que eu consigo fazendo expor-se talvez excessivamente o meu narrador você atinge-o recorrendo a processos totalmente opostos mas estamos os dois dentro do mesmo cesto de facto.

enigma 2

três raparigas serviam à mesa
a de seios pequeninos era a minha
preferida a mais bela sorria de lado
como uma verdadeira actriz de cinema
rosto perfeito mas eu tenho manias
chamava-se sofia e eu preferia-a
quando saímos perguntou gostaram
era a mais pequenina inspirou-me ternura
eu disse obrigado foi bom sofia e tu
os lábios dela eu vi brilhavam pintados
há pouco será que será que? pensei eu
voltem em breve adeus ok disse ela
é sempre preferível duvidar
eu olhei para trás uma vez mais
era preferível não ter olhado tão
de perto nem tantas vezes começo
a gostar das pessoas fora do tempo
daí as múltiplas decepções não tenho
emenda na dúvida ganha-se
tranquilidade? no entanto será que?
uma vez uma rapariga americana
num restaurante da califórnia
aceitava ir ao cinema comigo
disse-me vocês europeus não são
suficientemente incisivos focused
perdem-se em tentativas brincadeiras
e é simples deviam aprender a ser
enérgicos decididos convincentes
fiquei a pensar nisso as coisas que
eu perdi nunca entendi porquê talvez
o sonho seja uma coisa e uma vez que
se tem escapa-se o mistério ou
então é um problema meu falta de
paciência not focused interessado
o que eu perdi o amor as lágrimas
por causa da impaciência da distância
intransponível às vezes apetece bater
com a cabeça nos túmulos de pedra
antigos egípcios apetece mas é tudo
bruscamente o sono não se discute
era decidida e arranjou-nos uma mesa
dormir não sei se se assemelha à morte
o medo e a preguiça caracterizam-me
sofrerei até ao fim detesto-me bastante
talvez não tenhas a energia o interesse
e o amor é um comboio descarrilado
sinto-me bastante desiludido e cansado
como é que acabará esta história sofia?

21 de dezembro

na loja de móveis
estenderam-se
em cima do colchão
e beijaram-se
invasão de propriedade
segundo o código civil
as pessoas riram-se
eu não oh não
you see what i mean
how could i?
a memória daquele natal
o céu azul frio lá fora
aniversário cinco
vamos festejar
ah o anorak vermelho
ah o rosto inocente
fogo incêndio ardias
a canalha reles na rua
the pub pas loin
despacha-te tenho pressa
o táxi desaparece na esquina
num oásis do deserto eu
se pudesse atirar-me
banhar-me na água fria
telefonaste logo ao corvo
a tarde e a noite nós
veio a correr o corvo
de boxers vermelhos e
camisa aos quadrados
a faca aguçada o olhar de
crocodilo as pernas de grilo
mas cavalo na casa abandonada
vinho queijo champanhe
a tarde inteira e jantamos
os carros o ruído o fumo
por ora podes brincar
who cares fuck fuck
ainda não sei como mas
lembras-te da fotografia
de manhã o rio a fábrica
vai e volta viaja ri goza
deus se existe não dorme
e eu também não oh não
e o preço da gasolina
dói-me o pé esquerdo sim
deve ser da embraiagem
não tenho amigos não sei
posso acreditar em tudo
ninguém nunca entendes?
as cordas da guitarra dlim
adormecem recordações
infância oh areia lisa dlim
never mind bitch paga puta
tudo tem um preço ou não
aquilo de que eu falo não
se paga com dinheiro oh não
de modo que não sei ainda
veremos mais tarde relax
depende da evolução let go
não sei o quê logo se vê pois
mas a história não acabou
por ora diverte-te impune
e se eu tiver tempo um dia
converte-te ao catolicismo
entretanto e confessa-te

Apaga-se o real

E agora enfim, adeus, pequena morte,
fim da tarde no café a contemplar
o melancólico deambular dos pássaros
no cimento, a nostalgia batendo ainda
à porta. Ninguém abre, não há casa
nem paisagem com árvores, nem o céu
tem as tonalidades que tinha na Provença.
Exílio, separação, ausência, distância.
Palavras apenas, mas para ti corre ainda
na memória a água das fontes e o passado
parece acessível como o presente. Apaga-se
o real por detrás da cortina de fumo dos
objectos que ocupam o espírito. Quem
alguma vez amou ou foi amado? Quem
alguma vez entendeu o sentido das
palavras? Equívocos. E assim construímos
a felicidade e a alegria, depois a dor e o
sentimento de ter perdido de vista o
caminho do destino. Brilhava o sol na
esplanada do café ao fim da tarde e o
espírito, tranquilo, surpreendia-se com
a falta de novidade dos acontecimentos que
deviam ser funestos. Nunca estive no lugar
heróico da plenitude como imaginava. Se
houvesse céu e inferno, eternidade, outra vida
onde eu desvendasse enfim a misteriosa densidade
do ser. Jovens raparigas sorriem, ouve-se a sua voz
límpida. Como se merecesse atenção a esperança.
Nada sei da linguagem com que enchemos de tragédia
a insignificância dos nossos gestos, do desejo.


Santa Barbara, 20 de Janeiro de 1994

Tuesday, December 19, 2006

letting go

não houve sol nesse dia
eu ia a pé pela karl johan
com as mãos nos bolsos
e não ninguém
me pediu dinheiro
ninguém me
perguntou as horas
nem olhou para mim
com ódio ou com
particular ternura
foi só depois
no café americano
que a rapariga loira
que me trouxe um café
e uma chicken sandwich
falou comigo várias vezes
era uma pessoa normal
não tinha medo
de outras pessoas
contou-me
que a mãe deixou
de fumar há muito
quanto a ela só fumou
durante cinco anos
por isso foi mais fácil
libertar-se do vício
no dia seguinte tirei-lhe
duas fotografias na rua
em frente do café
encontrei-a ela ia
comprar o jornal
depois mandei-lhas
por email logo a seguir
ela não tinha fotografia
nenhuma de oslo ainda
embora viva cá há
ano e meio nice kid

Os cafés fechavam-se

A quem escrever, com quem falar?
Comigo mesmo eu falava. Ou dirigia
à figura anónima e imprevisível do leitor
cartas desesperadas, à procura do sentido.
A dado momento o tédio instalava-se.
As
ruas ficavam desertas quando a noite
caía.
Os cafés fechavam-se. Os automóveis
circulavam, anónimos, na auto-estrada,
aonde iriam aqueles que, silhuetas na
sombra, carregavam no acelerador?
Um
circo, a vida. Mas é sempre uma
questão
de perspectiva: o lugar onde se
está dita
a forma do pensamento. A
economia
domina as relações como
domina o
mundo, tudo o que existe.
No mercado
do humano quanto vale
um homem só,
inseguro do seu destino,
demasiado
consciente do seu desejo?
Acendeu
um cigarro, abriu um livro.
Com quem
falar, a quem responder?
O problema
provavelmente não tinha solução.
Provavelmente nem sequer havia
problema.
Franziu o nariz, céptico.

Santa Barbara, 10 de Setembro de 1994