Wednesday, November 29, 2006

Monday, November 27, 2006

Arames finos

Chove na rua e nos campos
e sobretudo na alma, esse
lugar do corpo que tem o
nome errado. O relógio, a
máquina, tritura os minutos,
os segundos, as horas. Isto
é, vai andando o comboio.
Não se sabe para onde, nunca
se saberá: saímos antes do fim
da viagem, perplexos, ignorantes,
sem entender o que nos aconteceu.
Mas é bonita a chuva que cai
nas árvores tão verdes, nas calçadas
de pedra ou de alcatrão. Risca o
ar cinzento do dia com arames
finos, invisíveis à distância.


Santa Barbara, 7 de Fevereiro de 2005

Como um deus

Cada dia traz consigo o peso do dia anterior. Às vezes a sua ligeireza. Há, no entanto, aquilo a que se costuma chamar - sem pensar bem no que isso quer dizer – o fio condutor da intriga. É isso que conta, mesmo se às vezes é penoso caminhar na rua ao encontro do autocarro que não chega imediatamente, mesmo se às vezes é preciso esperar até às quatro da tarde para, sentado num café, fumar um cigarro e enfim repousar e suspirar de alívio. O tempo, então, apesar do peso ou da ligeireza dos sonhos e das preocupações, transforma-se. Como um deus, olhamos, jovens, à nossa volta os edifícios com a sua beleza antiga, as praças onde bate o sol, as raparigas que ao nosso lado não cessam de olhar, de sorrir, de conversar. Foi numa tarde assim que entendi por que razão, na obra de alguns poetas, a obsessão com as raparigas desconhecidas é tão intensa, aproximando-se dos limites do sofrimento interior insuportável. Os que os lêem não entendem a teimosia adolescente do poeta, os seus sonhos infantis, a sua doença. Mas é fácil, eu próprio, bruscamente, encontrei a explicação. E a explicação é: para o homem que não encontra a felicidade nem a paz no sucesso social, para quem sabe que tudo é convenção e luta insensata pelo poder ou pela glória, para aquele a quem foram reveladas as razões verdadeiras da existência, só o amor conta, só o amor interessa. Ora quem, além das jovens raparigas, sabe amar? Elas não duvidam, elas estremecem antes de esboçar o mais insignificante (na aparência) dos gestos, elas conhecem o mistério e o medo. Diante delas o poeta sente, ele também, crescer nos lugares obscuros do espírito o medo e a antevisão do prazer. O encontro verdadeiro inspira o receio e o terror, por isso os poetas e as jovens raparigas, almas infantis, podem entender-se quando se olham mutuamente às mesas dos cafés. Por isso o poeta e as raparigas, desejando escapar ao tédio mortal da existência, saem de casa e gastam as horas nas praças com esplanadas de cafés a olhar para lado nenhum, distraídos aparentemente da vida e das suas obrigações. Na realidade esperam pelo amor, querem que todos os dias sejam habitados pelo enigma e pela verdade. Só o encontro dos espíritos, às vezes através do encontro dos corpos, permite que habitemos, como o desejava o filósofo alemão, o mundo como se fôssemos, em permanência, poetas. O lugar de habitação, a casa, confundem-se com o lugar do amor, são uma e a mesma coisa. Nostálgico, o poeta, que conheceu e perdeu o amor, que teve e constantemente perdeu o lugar de habitação, senta-se à mesa do café à espera da renovação do milagre. E a noite vai caindo, mas os risos e as conversas fúteis das jovens raparigas enchem o ar de promessas, resgatam os anos mal vividos.


Rennes, 9 de Setembro de 1997

A paz















Estranhas manhãs, quando o sol brilhava
na relva do campus e, sentados, os estudantes
conversavam interminavelmente. Eu vinha
da penumbra do quarto, da solidão nocturna,
preocupado ainda com o meu futuro, como
se a adolescência se prolongasse e nunca mais
pudesse encontrar a plenitude, o descanso.
Entrava numa sala para fumadores e fumava,
à minha volta os estudantes fumavam também.
Tão límpidos os rostos, tão convictas as
palavras – e o tempo ia passando. Que
sabíamos uns dos outros? Que sabíamos
do futuro? Nada. Mas era como se
soubéssemos tudo ou não tivesse
importância o desconhecimento dos
mistérios. Ávida juventude, generosa e
fútil, mas em cada corpo, em cada coração
fermentavam já as catástrofes e as surpresas
dolorosas do futuro, as alegrias que não haviam
de durar, porque nada dura, nem o amor nem o ódio,
só a solidão. Ser olhado de novo, darem
pela minha presença, eis a novidade. Vinha do
deserto, vivera anos sem fim longe dos homens
e das mulheres, agora, no entanto, redescobria
o que é pertencer, ser de novo aquele que
pode inspirar o amor ou o ódio, aquele
para quem se abrem, discretos, os jovens
espíritos. Ó Outono diferente, intervalo
apenas
no tempo da escassez, pausa
inesperada no
carrossel monótono
da feira popular da
existência. Eu
olhava à minha volta, tranqui
lizava-me
a paz que habitava todas as coisas.


Rennes, 10 de Setembro de 1997

Bela cidade








Cidade de oiro da infância e da adolescência,
pelas tuas ruas luminosas passeei-me, melancólico.
Pátria de quem, agora? Na direcção de que
futuro caminham os teus apressados transeuntes?
O amor, esse mito incómodo que nos acompanhou
durante os anos do exílio, bate molemente as asas,
céptico e desiludido. O futuro a quem pertence?
Jovens raparigas e rapazes ocuparam os lugares
que um dia foram nossos. Acreditámos na eternidade
de todos os sentimentos? Mas ouvimos, enfim,
o eco das palavras que escreviam e declamavam
os sábios: nada, ninguém, pertence, tudo é de
empréstimo; e a terra que engolirá os ossos
e a cinza dos sonhos, indiferente espera por
nós, o pó. O sol brilha ainda, nas montras das
livrarias erguem-se os rostos e as vozes imortais.
Algazarra imensa, ó ilusão. Poetas amantes das
palavras e perdidos da vida sentam-se ainda nas
esplanadas dos cafés a meditar. Silhuetas pesadas
que ninguém vê. Quem tem destino, a quem é
concedida, senão aos inexistentes deuses, a
duração? Bela cidade de pedras brancas
sob o céu azul, nas tuas ruas passeei a
minha melancolia. Não estava triste, não
sofri, aprendia apenas, de novo, e mais
claramente, que tudo é vaidade, mentira,
que tudo é ficção. Dias absurdos, insensatez.
De sonho em sonho, adiamos o entendimento
da morte, o pavor do vazio, o terror do nada.

Lisboa, 1 de Fevereiro de 2003

Sunday, November 26, 2006

about it

A tentação

As longas, frias noites daquela Primavera. Nem a solidão, já, era um acontecimento; apenas a rotina. E que não me incomodassem com as pandeiretas absurdas, vermelhas e obscenas, de qualquer tentação. A morte, o deserto, a sereníssima pureza do nada, ó meu amor. Falei contigo e entendi a nossa volúvel natureza, de rosto em rosto, de palavras em palavras sempre. Quase me amavas outra vez na pessoa de outro nome. E era a mim que começavas, apesar de tudo, a prender-te pela segunda vez. Fui quase sublime e entendi então, de novo, o que há tanto tempo tinha começado a compreender: nada é nada, nem há amor eterno nem duradoiro, não resistimos à tentação mais fútil da curiosidade, do desejo de ser amado por quem não nos conhece ainda. Não disseste a esse estranho que pela minha boca te falava que não me amavas; mas disseste “it will not work”. E disseste que lutavas contra esse amor. A mim mesmo tinhas escrito uma breve mensagem momentos antes: que tudo, mesmo o silêncio e a recusa, eram sentimentos positivos na nossa relação. Eu escrevera também, respondendo: não te preocupes, eu já não sofro por causa do amor. E era verdade. Mais até do que eu tinha imaginado. A noite deserta e fria. Nada tem importância. Começar a esquecer-te, talvez, a ti, que a esse estranho que através de mim te seduzia, disseras que nunca, nunca, nunca havias de deixar de me amar.


Santa Barbara, 12 de Março de 1999

O tempo

Viu o filme que fizeram do livro da Marguerite Duras? O Amante? Magnífico, não é verdade? Claro, não havia emoção carnal, as cenas de amor físico eram tratadas geometricamente, dividindo o corpo em partes, mostrando-o fragmentado nos gestos do desejo. Mas havia emoção: no olhar, no rosto do homem chinês, na garridice da rapariga. Estranha história de amor. Densa, trágica, ameaçadora – e no entanto era como se tudo o que acontecia fosse trivial e insignificante. Você não viu? Devia ver. Porque o seu rosto tem traços orientais, é por isso talvez que eu estou aqui a conversar consigo enquanto você vai estudando numa mesa perto da minha no café. Gostaria de dirigir-lhe a palavra, mas você é tão jovem. Podia amá-la, eu sei, profundamente, até à perdição. O que eu desejo, no entanto, é um amor tranquilo. Ora você é demasiado jovem, imagino eu, para contentar-se com um amor tranquilo. Por isso me calo, não esboço o mínimo gesto, não entrarei nunca na sua existência certamente curiosa e interessante. O tempo, é o tempo que decide de tudo. Há anos atrás, porém, enquanto era possível, eu não teria talvez olhado para si, você não é o género de rapariga cuja beleza surpreende imediatamente. Devia, agora, tomar uma atitude ousada e falar consigo? Por exemplo perguntar-lhe se esteve no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, se foi lá que comprou essa t-shirt preta com as letras brancas. Foi? Talvez. Eu também estive no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, há bastante tempo, há dois ou três anos, quem sabe se poderíamos conversar acerca disso durante um instante? Não, não conversaremos. Não quero – não posso correr o risco de uma decepção. O sol avança, a tarde vai morrendo devagar, fico aqui sentado a olhar para si de vez em quando e daqui a pouco, como ontem, vou-me embora enfim.


Santa Barbara, 1992

Friday, November 24, 2006

Não exactamente

Estavas tão bela na tua camisa branca.
Imaculada, irrompeste pela sala e eu
fiquei surpreendido com a tua aparição.
Se eu tivesse coração. Se eu, olhando-me
no espelho, me achasse digno de ser amado.
Contemplei-te de perto e tão à distância
que nem te recordei aquela tarde em que ficámos
a conversar no café enquanto o ar arrefecia. Fora
há tanto tempo (uma semana apenas, mas enfim).
Não, eu não tinha tempo para amar-te hoje,
deixei-te partir e esqueci-me de ti. Depois, sim,
depois observei-te no retrato pintado na memória.
Bela, altiva, talvez selvagem e talvez pura, embora
eu tenha algumas dúvidas sobre a tua capacidade
de amar. Se era ser admirada que querias, ficaste
contente, pois eu disse: estás tão bonita hoje. Hoje
e sempre, mas quis acentuar o instante privilegiado
que o tempo há-de comer como a terra come tudo,
depois de o ter feito frutificar. Pessimista,
eu? Não exactamente. Mas que faria do
teu corpo, da tua cara de areia lisa e limpa,
das tuas mãos e das tuas pernas elegantes?
Não, não era o momento indicado para eu entrar
em episódios de outras aventuras. O céu, iluminado
pelo pôr do sol é uma festa de cores lá ao fundo,
por detrás dos troncos das palmeiras e do telhado
das moradias. Automóveis vão circulando. Pouca
gente na rua e todos vão a algum lado. E eu,
aonde irei agora, se nem sequer posso pensar em ti?


Santa Barbara, 8 de Novembro de 1994

Thursday, November 23, 2006

Meditas ou esquivas

Se a luz, em vez de revelar
a sombra no seu abandono, cantasse
e com o Deus que não existe estivesse
do nosso lado quando perdemos o pé.

Estranhas invenções do meu espírito
que em vez de olhar nos olhos a solidão
e a morte que se aproxima, prefere
colaborar com os papagaios literários
da corte no espumar inútil e vaidoso
das palavras e da arte. Mas morrerás,

quer queiras, quer não. E não te
amará por teres revelado tanto talento
aquela que longe de ti, na cidade tão
apetecida, constrói o seu destino já
sem o teu amor, sem as tuas mãos.

Sozinho na casa deserta, habituado
no entanto à tua sorte sem remédio,
tu meditas ou esquivas, na tentativa
sem ilusões da arte, a mágoa, a
frustração - e sobretudo a pena.
Quem te amará por isso quando já
tiveres deixado a terra do amor?
Quem?



Santa Barbara, 1 de Outubro de 2003

Você

Um dia você e eu morreremos e de nós não ficará sequer a sombra de um gesto. De que serviu você passear-se com ares dominadores pelo corredores da universidade, como se fosse o chefe de qualquer coisa de imperecível, como se fosse o herói de uma guerra de conquista? Eu olhava-o pelo canto dos olhos e a morte vinha já ao seu encontro, mas você ignorava-o. Eu próprio observava-o do lugar da minha morte e por isso podia sorrir da sua vaidade, dessa aparência de imortalidade com que você preenchia o pressentimento do nada que ameaçava a sua vida. Você e a sua geração nunca entenderam, nunca entenderão. Devia escrever-lhe uma carta a avisá-lo do perigo que corre, de que está a perder o tempo, de que é impossível substituir o que tem de acontecer pela cegueira e a ilusão da eternidade? Mas quem era eu, pobre mortal como você, para dar-lhe lições e ensinar-lhe o que a idade ainda não tinha podido fazer-lhe compreender? Fui à minha vida, comecei a ignorar a sua existência, desinteressado definitivamente das tentativas que você não cessava de fazer para me enredar nas teias de aranha da sua visão do mundo absurda.


Santa Barbara, 8 de Setembro de 1992

Wednesday, November 22, 2006

Nem sempre


A luz da sóbria objectividade é-nos recusada. Por vezes, porém, imaginamos contemplar a conclusão certa. Fomos nós, apesar das nossas insuperáveis imperfeições, quem soube construir o caminho, abrir a porta e as janelas que davam para o pátio florido. Sol que pouco durou. Mais distante sempre, mas escondida até então, acenava-nos já de longe com provocação a sombra vaga de outra verdade por descobrir. Não foi inútil o trabalho, nem a paciência, nem o esforço. Mas como contentar-se e ter descanso quando no horizonte se sucediam umas às outras as metas a alcançar? Alguns dos heróis sucumbiram na viagem, outros afogaram-se no rio. Alguns atiraram-se da ponte, outros suicidaram-se num quarto de hotel em Paris. Outros ainda enlouqueceram. A maioria preferiu a espuma do champanhe, os vagidos incoerentes do prazer sexual, o sono, a indolência de um destino a que só se sobrevive agonizando. Contemplar a verdade nem sempre traz a alegria que se esperava, muito menos a paz interior, menos ainda a convicção do dever cumprido ou a consolação da inteligência. Há tempestades que para sempre abalaram as entranhas do edifício no interior da própria terra, nossa mãe e sepultura. De tudo, aparentemente, triunfa o destino, a nossa capacidade de adaptação. Fomos jovens, deuses, divinas figuras poderosas. Um dia acordamos na casa vazia com as mãos abertas, delas escorreu tudo o que até então tinha sido acumulado. E a existência, os dias perdem sentido, nada pode já ajudar-nos a reviver. Conheci essa dor e todas as outras, catástrofes indescritíveis. Aprendi a ver, a dizer? Sim e não. Que ganhamos em rebelar-nos contra a morte do amor que parecia eterno em vez de aceitarmos em silêncio a imperfeição do mundo?


Paris, 21 de Maio de 1997

Não tiveste nada

Tens pai e mãe, rapazes que te admiram e desejam.
Mas vieste procurar no repouso do meu peito o amor.
Encostaste a cabeça no meu joelho nu, cruzaste as tuas
pernas com as minhas, acariciaste as minhas costas.
E em vez de te queixares do prazer que eu te dava,
começaste a sorrir quando te encontraste comigo.
Não tiveste medo da dor que a ausência pode trazer,
não me pediste que te amasse eternamente.
Apesar disso, e embora saiba que nada foi feito para durar,
estou aqui sentado a pensar em ti como se tu
fosses a pessoa mais importante da minha vida.

Santa Barbara, 20 de Julho 1997

Monday, November 20, 2006

Versos a brincar

1

Eu tive uma namorada
durante as férias do Verão
deu-me uns beijinhos na boca
e levou-me o coração.

Eu bem lhe pedi mais beijos
mas ela disse que não.

Vou deixar de te escrever
pois tu não gostas de mim
em nariz que não tem cheiro
não se esfrega o alecrim.

Quando mudares de ideias
escreve-me tu a mim.


2

No avião já fartinho
de estar ali apertado
entre uma velha gordinha
e um sujeito perfumado
lembrei-me do teu sorriso
das tuas pernas bonitas
dos teus olhos tão ciganos
dos momentos em que hesitas.

Quando terás a certeza?
Porque fazes tantas fitas?

Sunday, November 19, 2006

Não querer saber

Noyé dans la nuit sourde
et dans la fuite du bonheur


Rimbaud , "Les déserts de l'amour"



A cada um as suas trevas,
o seu silêncio.
O seu degredo.
A cada um a sua razão.
Vêem-nos
de fora, que sabem da nossa
vida?
Falam de nós? Nada
sabem da história das nossas
relações
com o sentido. Motivos?
A cada um o mistério do motivo.
Existem as palavras, com elas
falamos. Mas dizemos o quê?

As palavras nada sabem do
destino,
nem da dor, nem da
alegria. Nem da natureza do
amor
e do abandono. Nós
sabemos porque somos nós
que sentimos. Não sabemos o
suficiente para poder explicar,
é certo. Mas isso não quer dizer
que inventámos tudo. E porque
havíamos de explicar? O ponto de
vista alheio
sobre a nossa existência.
A opinião
que eles têm sobre nós.
Pensem o que
quiserem, interpretem
como
lhes parecer melhor. Eles que
sabem?
Presunção, arrogância. Ninguém
sabe nada, nós não sabemos nada.
O sentido parece
revelar-se
e sempre se esconde.
Só quem
viveu longamente longe das palavras
chegou a conhecer. Mas conheceu
o quê, exactamente? E alguém
suportou tempo bastante a
solidão para poder dizer que
finalmente aprendeu? E
aprendeu o quê? I
solamo-nos
à medida que os anos
passam.
Já não nos importa que não nos
dirijam a palavra, que não tenham
em consideração o nosso ponto
de vista. Na cabana da floresta,

a sós connosco mesmos,
olhamo-nos
às vezes no espelho, sem compaixão
pelo rosto que nos olha.
Sentimos apenas
que nos percorre o corpo um calafrio.


Santa Barbara, 26 de Agosto de 1992

Você não sabe

Como o tempo passa. Há quantas semanas não a via? Cheguei aqui, desprevenido, para a minha hora de café e um cigarro e deparei consigo ao balcão do restaurante. Não teve férias? Já voltou porque as aulas começam em breve? Tinha entendido que em Setembro estaria no Arizona. Ora aí está como a gente se engana. Não, não esperava encontrá-la, já me tinha esquecido de si. E de qualquer modo não sei que dizer-lhe. Deu-me tanto prazer vê-la. Sorri tão espontaneamente que você, que ignora a minha vida, não pode ter entendido a importância da minha alegria. Sentei-me aqui fora, você está lá dentro, mal a vejo por causa dos reflexos dos vidros. Um tema de reflexão inesperado para a minha tarde. E no entanto, eu sei, daqui a pouco vou-me embora e nem sequer lhe terei dito que gostei de a ver.

Como me irrita esta rapariga faladora que nas minhas costas se assemelha a uma grafonola. A tarde está bonita: sol, um pouco de vento vindo do mar, certa paz. E eu próprio não estou mal de todo, embora tenha dormido de mais. Você não sabe o que é a gente habituar-se, com o passar dos anos, a não esperar nada do dia. Impomo-nos deveres, escrevemos artigos e estudos literários, tudo coisas destinadas a apodrecer, ignoradas, nas caves das bibliotecas. Nem uma palavra ficará, quanto mais um verso. E apesar de tudo continuamos, não desistimos de ir construindo o nosso destino. Passar o tempo, dirão os deuses, olhando-nos lá de cima. Fim de século, fim da nossa civilização. Ou só intervalo e um dia a máquina a vapor recomeçará a fungar seriamente? Todas as horas perdidas para o amor. A nossa miséria não tem limites. O nosso conformismo é surpreendente. Ou andamos distraídos? Que porcaria a vida. Sala de espera do encontro com a plenitude que nunca terá lugar. Digo-lhe isto a si porque não a conheço, limitámo-nos a sorrir um ao outro. Devia convidá-la a ir comigo ao cinema um dia destes. Pensei nisso. Mas se diante de si, a sós consigo, não encontro palavras que dizer-lhe? E se me aborreço e você se aborrece? O melhor é esquecer, não pensar mais no assunto. De qualquer modo você engordará, eu continuarei a envelhecer, tudo isto são preliminares de uma história sem sentido. Que escritor a sério perderia tempo a escrevê-la? Boa tarde, deixe-me acabar o meu cigarro e depois vou-me embora.


Santa Barbara, 4 de Setembro de 1992

Saturday, November 18, 2006

Um filme desconexo

Filosofia é uma coisa, morrer de verdade
é outra, diz o médico a Rubião no
romance Quincas Borba. O que é morrer
de verdade, então? Literatura, embala
o meu coração na ilusão da nostalgia.
Palavras, sorrisos, gestos, as tardes e as
noites nas esplanadas dos cafés, as insónias
e os pesadelos, mas morrer de verdade
é outra coisa. O descanso por fim,
nós a rirmo-nos lá em baixo, no ventre
da terra, sossegadas enfim as paixões,
diz Camilo Pessanha. Porque não me
telefonaste, perguntou o rapaz à rapariga.
Ontem à noite, fiquei à espera. E agora
já não sei se hei-de continuar a pensar
em ti ou esquecer-te. O amor,
pássaro receoso, bate as asas
lentamente, sem muita convicção.
Quem pudesse acreditar e partir
à aventura sem que os seus passos
de novo o trouxessem de volta a casa.
Viver assemelha-se a um filme desconexo,
mas morrer de verdade é ficar de fora
definitivamente, já não se pode corrigir.
Morrem de verdade os outros, respiram
pela última vez na cama onde dormiram
tantos anos, como uma vela que se apaga.
Na noite fria recordamos o tempo antigo,
tudo o que aconteceu antes de termos
começado a envelhecer. Perplexo
diante da página do romance, o rapaz
hesita ainda sobre o sentido a atribuir
às palavras. Pensativo, deixa os olhos
desviarem-se do papel, fixar-se nas
palmeiras que irrompem da terra contra
o céu escuro. Mais um dia que passou.


Santa Barbara, 2 de Novembro de 1994

Friday, November 17, 2006

Noites tépidas

Ó caravelas do destino, aonde me levais?
Agitam-se as ondas, sopra o vento forte.
Aonde me levais, ó caravelas que sabeis
o que é a tempestade e o bom tempo?
Numa baía desconhecida, recanto oculto,
lançaremos as âncoras. Esqueceremos tudo
o que sabemos. Seremos imortais, divinos.
Pode chover, que importará? Pode o sol
queimar-nos a pele frágil, que importância
é que tem? Noites tépidas, odores que
o vento traz das ilhas, das florestas, e nós
sentados na madeira do barco, as caravelas
sossegadas, a assistir. A imobilidade. A
tranquila paz. Enfim. Mas agora, ó caravelas,
aonde nos levais? porque vos agitais?


Santa Barbara, 7 de Novembro de 1994

Devagar

Tu esperavas por mim, o teu corpo esperava
por mim. Tinhas vindo devagar, entrando pela
minha vida com hesitação. Lá dentro lias
e eu, na sala, tranquilizava-me. O espírito
extasiava-se com a sua própria existência.
Os lieder de Schumann, a voz do amor, o
conhecimento da dor. Eu fumava, na sala,
e tu, no meu quarto, lá dentro, lias ou
escrevias no computador. Eu desejava-te,
certamente eu desejava-te, tinha dito: sim,
o teu corpo, mas devagar, não tenho pressa,
não nos precipitemos. Respondia à tua pergunta:
queres dormir comigo, realmente, é isso que tu
queres? Hoje? Devagar, disse eu, não tenho
pressa. E na sala, longe de ti e tão próximo,
ouvia as canções do amor e da dor de
Schumann. A noite de domingo avançava, ia
terminando. Tranquilamente eu observava a
minha vida e respirava fundo, meio inquieto.
Receava a alegria? Não sei. Receava passar para
o lado de lá do desejo? Não sei, como saber?



Santa Barbara, 11 de Dezembro de 1994

Pensava em ti

Havia uma rapariga sentada ao balcão do café, era tão bela. Mas não tinha muita importância porque eu pensava em ti. Na rua passavam estranhas raparigas vestidas de preto, saia curta, sorrisos largos, meu deus, que belas que elas eram. Mas eu pensava em ti. Nada me perturbava o bastante, não me magoava a impossibilidade de possuir. Em qualquer parte na cidade, eu não sabia onde, estavas tu e eu amava-te, pensava em ti. Não devia, eu sei. Era cedo de mais, talvez. E no entanto eu cedia ao perigo de te amar, de esperar de ti coisas insensatas. Sentia-me feliz porque tu existias, era uma sensação curiosa, há mil anos que não me acontecia nada parecido. Os teus cabelos, o teu rosto, os teus olhos que às vezes me olhavam. Pensava em ti, não conseguia esquecer-te. Davam-me pontapés na vida alguns cretinos e eu ria-me deles, das complicações da existência e do tempo que me obrigavam a perder escrevendo parvoíces. A tua existência, a memória de algumas palavras que me tinhas dito, a tua maneira de me olhar antes de falar : posso fazer uma pergunta? posso dizer uma coisa? E dizias, eu ouvia-te e não acreditava, quase não acreditava que pudesses ser tu, que fosse eu, que estivéssemos ali juntos a tecer os fios da camisola de forças do amor. Fora-se a tristeza, eu recuperava a inocência e a irresponsabilidade, deixava de pesar-me ter passado. O rosto da minha filha sorria-me na fotografia e eu, espontaneamente, sorria-lhe. Ouvia um disco e a música enchia-se de tensão e profundidade (e era o disco terrível do fim do amor, a melodia da morte). Quem não ama, não vê, não vive, é como se se passeasse à beira das montanhas e das florestas insensível à beleza esmagadora que as habita e se transmite ao nosso sangue quando as contemplamos. Como eu te amava, nessa sexta-feira à noite, como eu te amei. Apetecia-me ver-te e não te procurava, faltava-me a coragem para quebrar a promessa de só me encontrar contigo no dia seguinte. A um amor novo que nasce responde às vezes ainda, soluçando, um amor velho que se extingue. Eu sei. E também não me esquecia de que a morte existe.

Santa Barbara, 11 de Novembro de 1994

Wednesday, November 15, 2006

Tuesday, November 14, 2006

partimos de casa

E agora vem, desce sobre mim, ó
recordação da figura tutelar do pai.
Para que tenha sentido no meu
coração a punição da Lei, para
que me amarrem à terra as raízes
do sangue. Assim terei força para
escapar à loucura, ao caos e ao
sofrimento daqueles que não sabem
que pertencem. Deus não existe, eu
sei. Por isso nos consola o amor
das mulheres, nos serve de duro
amparo a autoridade paterna. Mas
partimos de casa um dia e é sós,
lutando contra as intempéries,
que vamos construindo o nosso
destino. Quem pode aconselhar-nos
ou dar-nos o apoio de um ombro
nos momentos de hesitação e de
perigo? Recordar a figura do pai,
as mãos da mãe, protege-nos
do naufrágio, certamente. Não
da dor nem do conhecimento
da verdade, porém. Como vai
longe o tempo da infância. É
nele que bebemos o leite e o
vinho da tenacidade.


Santa Barbara, 12 de Setembro de 1994

Sunday, November 12, 2006

Nunca mais?

Passam os meses, passam os anos
por nós e apressamo-nos a amar. O
tempo das experiências, os dias e as
noites de vaidade ficaram para trás.
Mas quem, tendo entendido que a vida,
como um livro, tem princípio e tem fim,
não lamenta ter chegado tão tarde perto
de si próprio? Numa cidade amada, na
noite fria, recordas o que viveste ao lado
de uma mulher. Provavelmente amaste
sobretudo as ruas, as casas e as árvores,
o sol e a chuva, os suaves fins da tarde
na Primavera. Mas o rosto, os incertos
passos dela perturbam ainda a memória
dessa viagem antiga pela cidade
e por ti próprio.
Os telhados das casas
recortam-se no céu baço,
ouve-se o vento
ao longe, o ruído de um
automóvel.
Nunca mais serás tão feliz
nem tão
infeliz como o foste aqui? Nunca

mais, talvez. Mas de que te serve
lamentar-te? Deus não te ouve e se
te ouvisse nada faria para mudar
o teu
destino. Ó anos da juventude
inocente
e ignorante. Ó dias e noites
de
aprendizagem da vida e da morte.

Londres, 10 de Outubro de 2004

Em que colina

A amizade e um dia, quem sabe,
estaremos mais próximos. Dizias tu.
Sim, era importante. Sim, querias
contar comigo. Mas o coração
fica de fora, insistias tu. Eu
que podia responder? As
palavras que sentido tinham
para ti e que sentido tinham
para mim? Aprender o sentido
que nas frases se revela e sem
o trair avançar no conhecimento
de si mesmo, da vida e do amor.
Em que colina, no futuro,
nos havíamos de reencontrar?
Num banco de madeira ali
à nossa espera há tanto tempo.
E falaríamos de quê? E a
tua boca, se eu a beijasse,
diria o quê, depois do
beijo? O que os lábios
não tinham dito ou o que
os lábios já tinham deixado
entender? E eu estremecia
de prazer e de inquietação
ao imaginar o reencontro.
Iria com uma rosa na mão
ou com um malmequer que
acabava de colher no campo
de trigo e de papoilas?
Meu amor, eis as palavras
que tinham de ser ditas.
Mas eu hesitava ainda,
não podia pronunciá-las.
Conhecerei também essa
frustração, essa impossibilidade,
perguntava-me eu, receoso do
futuro. E a ideia da morte,
um sono profundo, acenava-me.

Santa Barbara, 16 de Outubro de 2004

Pois não

Corria o rio para a foz no mar.
Mas onde era o mar? Falando
contigo eu recorria ao subterfúgio
das metáforas. Não para
te enganar. Nem para mentir.
Tentava apenas explicar
a aparente simplicidade
de algumas frases. Rio
límpido da amizade, disse
eu. É isso que tu queres,
perguntaste tu. E tu
o que é que queres, disse
eu. Protestaste: não
respondeste à minha
pergunta. Pois não. Nem
tu à minha. Aonde ia dar
o rio límpido da amizade?
E em toda a amizade
há amor. Dizias tu
às vezes. Cansado, eu
desligava o telefone,
pensava em dormir.

Londres, 12 de Outubro de 2004

1ª lição de surf






























memórias da montanha














a casa transforma-se

O lugar de habitação não nos é dado com a casa. A casa não é a casa quando dela estão ausentes as provas do ser. É preciso construir, preencher o espaço com coisas que tenham sentido. Não bastam os banais móveis já invisíveis ao olhar, incómodos na sua presença de ausentes indesejados.

Porque a casa facilmente se transforma na prisão do ser nós saímos à procura da luz do dia. Talvez na variedade caótica dos objectos e dos rostos brilhe fugazmente a recordação do ser, a manifestação da existência daquilo que insuspeitamente existe. Grande alegria, então, pode nascer do encontro com aquilo a que chamamos a nossa realidade. O espírito, tendo entrevisto o objecto do desejo, começa a imaginar a casa, o lugar de habitação, o sítio conveniente da morte.

A aventura contada assim parece indicar que é fácil ao homem sair de casa e encontrar-se com a vida. Ilusão, certamente, como sempre acontece quando reunimos os fragmentos de uma história na síntese artificial que os resume e tenta condensar. Não conviria, porém, começar a imaginar a aventura da existência como uma façanha excepcional do herói. Não há heróis nem heroísmo, apesar da resistência se impor às vezes à nossa admiração na capacidade de lutar e na teimosia, na esperança inabalável, na convicção indestrutível. O próprio ser, as migalhas do ser que intuímos na existência do que existe e cruza o nosso caminho, são às vezes um excesso indesejável. E desiludidos ou cansados preferimos refugiar-nos na caverna escura da casa que não é a casa mas apenas o túmulo do exilado da vida, lugar onde ele pode esconder a vergonha e a falta de coragem.

Naquele Verão as esplanadas dos cafés enchiam-se de gente, turistas aparentes da vida. Mas a simplicidade e a normalidade desses destinos que nos eram, nos seus mistérios, inacessíveis, impunham o respeito. E apetecia-nos rir dos poetas literatos que se imaginavam actores importantes de uma tragédia grandiosa. A dor, às vezes, ama-se a si própria na sua insignificância. É contra a pose que o poeta que não quer ser poeta luta, esforçando-se por ocupar na complexidade do mundo um lugar discreto. Do lugar ou no lugar discreto, modestamente, ele começa a entender a pouca importância da tragédia da existência e sorri com serenidade ao que se opõe à sua procura do ser.


Santa Barbara, 9 de Setembro de 1994

Saturday, November 11, 2006

Voyeurism



Está aí no canto deixe-se estar vá bebendo o seu whisky e fumando o seu charuto eu vejo-o daqui mas você não me vê aliás você não me conhece o bar hoje está cheio miúdas e miúdos a maioria nos seus vinte e tal trinta e tal você olha-os de longe provavelmente com nostalgia e ironia e recorda-se dum tempo não tão distante como isso quando em vez de estar sentado no canto a observar você estava no meio do grupo entre os olhares e os sorrisos a seduzir ou a deixar-se seduzir não sei se é por isso porque a intensidade da nostalgia o imobiliza que não o vejo mexer a cabeça sequer você parece que se ausentou que desistiu que já não faz parte embora o seu olhar não passe despercebido a intensidade o brilho a atenção mas atento a quê seria difícil dizer você mesmo provavelmente nem se dá conta de que se deixou absorver pelos seus pensamentos recordações sei lá o quê que lhe vai passando pela cabeça é como se flutuasse numa nuvem silenciosa e lenta pelos céus sem fim.

Vejo-o concentrar o seu olhar no cabelo de uma rapariga no sorriso de outra nas ancas de uma nos braços de outra mas elas estão cercadas de rapazes a si elas nem o vêem ou talvez sim de vez em quando e talvez se sintam aduladas mais mulheres mais raparigas porque um homem mais velho com bom ar de barba muito curta esbranquiçada o cabelo ralo meio despenteado a fumar charuto e a beber whisky tranquilamente no canto do bar as observa as vê lhes presta atenção se interessa por elas a sua camisa às riscas azuis descontraída mas de boa qualidade com os botões do cimo desapertados também ajuda a valorizar o seu olhar e a sua atenção e de vez em quando elas de facto vêem-no sentem a sua presença eu já me apercebi disso e depois desviam o olhar com um vago sorriso de cumplicidade que a si o deixa embaraçado e ainda mais nostálgico mas elas voltam à conversa aliás aparentemente nunca deixaram de falar nem de estar a ouvir mas sente-se esse momento de transição quando elas regressam de o ter olhado por segundos para continuar os jogos do desejo com os rapazes da idade delas e você evidentemente não ignora o que está a acontecer experiência não lhe falta mas não se espanta nada no seu rosto trai uma emoção uma ideia um sentimento embora provavelmente esteja triste e um pouco enervado e frustrado por não poder sair do seu cantinho e misturar-se à algazarra à alegria abandonar o lugar a sua mesa onde não corre qualquer risco para entrar nos jogos de sedução de novo como antigamente vontade não lhe falta desejo não lhe falta eu sei ou se não sei pelo menos é uma hipótese a ter em consideração.

Uma das raparigas em particular mereceu a dado momento a sua atenção você descobriu-a encostada ao bar com um rapaz a conversarem e deixou de interessar-se pelas outras de as ver de passar de um sorriso a uns cabelos de uns braços a uns seios de uma nuca a umas pernas e então concentrou-se de maneira muito visível nela naquela por qualquer motivo a camisa azul masculina o cabelo aloirado escuro os olhos azuis não sei mas ela despertou em si a inquietação eu vi-o enfim mover-se vi-o descruzar as pernas apoiar a cabeça na mão esquerda olhar para o tecto e depois largar no ar já viciado do bar uma baforada de fumo de charuto o cheiro chegou até aqui onde eu estou a dois metros de si numa mesa encostada à parede e por detrás de uma coluna de madeira depois você recuperou a tranquilidade a imobilidade mas não deixou de olhar para a rapariga que entretanto se apercebeu de que era objecto da sua atenção e se sentiu um pouco incomodada só um pouco ficou surpreendida é natural mas percebeu que você não era um tipo banal que havia na sua atitude solitária ali no canto do bar qualquer coisa que lhe lembrava o desespero romântico aquele de que falam os poetas aquele que se crê que atormenta os artistas digamos que ela entendeu que a sua solidão não era uma solidão aborrecida antes pelo contrário que nada do que se passava à sua volta escapava ao seu olhar que tudo o que você via os rostos as atitudes lhe interessava e era como se ver viver os outros fosse para si uma paixão o que o tornava notado o que a levou depois de um breve momento de hesitação a prestar-lhe também uma atenção particular a si meio nervosamente por vezes porque ela tinha vindo com um homem que de copo de cerveja na mão conversava com ela e ela visivelmente não queria deixar entender que estava dividida agora entre a atenção às palavras dele e a atenção à figura melancólica e silenciosa que daquele canto do bar onde a luz era ainda mais escassa se concentrara nela com uma atenção curiosidade talvez ternura inesperadas e quem sabe se incómodas se suspeitas.

Entretanto enquanto ia bebendo o meu gin tónico creio ter compreendido outras coisas eu própria estava já meio anestesiada pela música pelo fumo pelo álcool pelas conversas pela minha própria solidão quem sabe se ter-me concentrado na sua pessoa melancólica e solitária ter começado a querer perceber ter começado a imaginar a inventar a supor acerca de si tantas coisas não foi a minha maneira de escapar também ao tédio quem sabe mas de repente suspeitei que talvez você e a rapariga se conhecessem se tivessem conhecido um dia há anos talvez há meses e que os olhares com que se olhavam um ao outro podiam estar carregados de memórias de recordações de palavras e de gestos de sofrimento ou de desejo ainda de lembranças de viagens por países longínquos eu não sabia era só uma suspeita eventualmente só imaginação minha pois embora eu já o tivesse descoberto ali no bar várias vezes tarde noite adiantada sempre só sempre calado sem falar com ninguém nem fazer por isso melancólico sempre de copo de whisky na frente e de charuto na mão eu tinha-o visto de facto mas de si não sabia nada por isso enquanto imaginava eu me acautelava a não acreditar excessivamente na história que ia inventando e em que você e ela eram antigos amantes que o cansaço de uma longa relação ou um acontecimento ou desentendimento fundamental que acabara por se intrometer na evolução do amor tinha separado e agora cada um recordava se lembrava e pensava no outro com uma ternura antiga ou talvez com ressentimento ou pena ou raiva mas eram apenas hipóteses uma maneira para mim de ir encadeando com alguma lógica uns nos outros os acontecimentos que poderiam perfeitamente ter tido lugar e devo confessar tenho de dizer claramente que nem você nem ela me pareciam desadequados ao papel que a minha fantasia o meu devaneio vos atribuíra vos fazia desempenhar.


Mas não eu não devia estar enganada porque outras coisas se puseram a acontecer o rapaz que acompanhava a rapariga a dado momento parece ter-se dado conta de que ela estava distraída das palavras dele e ficou meio calado fez uma pausa de que ela não teve tempo de dar-se conta de tal modo estava embrenhada noutros pensamentos noutra ficção noutra história e depois seguiu o olhar dela e descobriu-o a si no canto do bar na meia obscuridade da sua solidão e então ela deu-se conta de que tinha sido apanhada e ficou embaraçada e ele o rapaz de cerveja na mão ia falando parecia irritado colérico e ela deixou de estar à vontade e parecia que lhe estava a explicar qualquer coisa mas ele o rapaz de cerveja na mão não deixava de lhe responder não parecia satisfeito nem convencido e continuava a falar e então a dado momento ela olhou para ele com firmeza disse qualquer coisa que eu não podia ouvir e saiu disparada na direcção da saída o rapaz de cerveja na mão hesitou ficou surpreendido via-se que não estava a gostar nada do que se estava a passar fosse lá o que fosse e acabou por pousar o copo no balcão do bar e por ir à procura dela entretanto você que se dera conta de tudo sem que um músculo sequer do seu rosto se tivesse movido você então levou calmamente à boca o copo de whisky e sorriu ligeiramente com ironia com um arzinho de vitória e eu fiquei mais intrigada mais convencida de que você e a rapariga se conheciam e tinham sido amantes e intrigada curiosa perguntei-me se a rapariga e o rapaz voltariam ao bar mas imaginei que também podia acontecer ela aparecer sozinha e sentar-se ao seu lado outra hipótese que me passou pela cabeça foi ver o rapaz aparecer sozinho irado e dirigir-se à sua mesa e então eu via-o pedir-lhe explicações ou que ele o insultava e a cena o conflito podia acabar ao murro mas não nada disso aconteceu e eu desiludida com tanta passividade da parte deles e da sua perguntei-me se você que era o único personagem da minha história que ainda não se tinha ido embora o meu protagonista na realidade ia enfim tomar uma atitude fazer qualquer coisa que me permitisse corroborar o que eu tinha imaginado ou adivinhado qualquer coisa fosse o que fosse em vez de estar apenas ali sentado a olhar a pensar a beber a fumar a observar o que se ia passando à sua volta.

Eles não voltaram você deve ter percebido que a noite não tinha já nada a oferecer-lhe nada que fosse melhor do que o que já lhe tinha dado o espectáculo portanto tornara-se monótono e meia hora depois de eles terem desaparecido eu que continuava com o olhar concentrado em si nas suas expressões nos seus moimentos nos seus gestos vi-o levantar-se devagar e tranquilamente calmamente sem pressa nem irritação ir abrindo caminho por entre os miúdos e as miúdas sorrindo às vezes aqui e ali pondo às vezes a mão no ombro ou nas costas de uma rapariga ou de um rapaz que não o tinha visto e pedindo desculpa por isso e então a dado momento você e o enigma da sua vida desapareceram do meu campo de visão.



Thursday, November 09, 2006

Irrationality, conceptual trouble












(Joseph Kosuth, It was it)


"The sort of irrationality that makes conceptual trouble is not the failure of someone else to believe or feel or do what we deem reasonable, but rather the failure, within a single person, of coherence or consistency in the pattern of beliefs, attitudes, emotions, intentions, and actions. Examples are wishful thinking, acting contrary to one’s own best judgment, self-deception, believing something that one holds to be discredited by the weight of evidence”.

Donald Davidson

Saturday, November 04, 2006

perhaps

eu não sabia onde tu moravas e combinámos encontrar-nos no centro da cidade. quando apareceste, atrasada, andava eu de um lado para o outro na calçada, nervoso. não te via há quanto tempo? os dias então custavam tanto a passar. pareciam semanas. quando te vi aparecer na rua à saída do metro o meu coração deu um salto. vinhas vestida de preto, parecias uma coruja, e estavas mais magra. fomos para um café e tu olhavas para mim de maneira estranha, como se eu fosse outra pessoa ou tu outra pessoa. fomos buscar os cafés-com-leite e conversámos de maneira indecisa, eu não sabia o que dizer nem por onde começar, estava meio perdido. não sabia nada da tua vida há três ou quatro semanas, devia ser por isso. peguei-te nas mãos, acariciei-as, beijei-as, tu não protestaste e continuavas a olhar para mim de maneira estranha, a pensar eu não sabia em quê. estavas a comparar-me com alguém que tinhas conhecido entretanto? era o que acabavas de descobrir sobre o teu corpo e sobre o amor na cama com outro homem que te obrigava a olhar para mim com olhos diferentes? devia ser isso. não estavas à vontade, talvez te sentisses mal ao pé de mim, provavelmente sentias-te culpada por me ter traído e mentido e custava-te olhar-me nos olhos. disse-te que tinha saudades tuas e que não tinha muito sentido do meu ponto de vista estarmos separados. tu não dizias que não, mas também não dizias que sim. não sei quanto tempo ficámos ali, alheados já das pessoas à nossa volta. saímos do café e caminhámos um pouco na rua. beijei-te, pus a mão no teu ombro e tu disseste agora já não vivemos juntos não podes fazer isso. mas eu fiz. eu não sabia onde tu moravas, perguntei-te, mas tu deste uma resposta vaga. já não sei se apanhámos o metro juntos ou se eu parti para um lado e tu para o outro.

lembro-me desse reencontro porque a nossa vida depois disso se transformou numa viagem constantemente interrompida, com saídas inesperadas em apeadeiros, em aeroportos, em cafés, em ruas, em casas, em desertos que eu não conhecia. e ora eras tu que desaparecias ora era eu. lembro-me de que uma vez, nessa época em que vivi sozinho, fui a casa à hora do almoço e tu estavas lá, tinhas ido buscar roupa. estavas de novo vestida de preto e achei-te muito magra, o rosto ossudo e com olheiras. abraçámo-nos, beijámo-nos, eu meti a mão pelas tuas pernas acima. mas havia uns operários a pôr a banheira nova na casa de banho e não fomos mais longe, nem cheguei a perceber se tu querias ou não. creio que não querias. de qualquer modo não eras a mesma pessoa e já nesse momento olhavas para mim como se tivesses encontrado um desconhecido, como se eu te fosse estranho. mais tarde vim a perceber tudo o que se passara, a tua magreza e o teu olhar de louca.


posso falar nestas coisas agora com alguma tranquilidade porque passou o tempo e tu morreste, nunca mais nos veremos. hoje pela primeira vez levantei-me bem disposto, estava um belo dia de sol, apetecia-me sair de casa e fazer coisas. sem me dar conta pus-me a cantar perhaps perhaps perhaps e deu-me vontade de rir porque me lembrava das parvoíces daquela série divertida da bbc sobre casais e relações amorosas. as recordações que eu tinha de ti estavam gravadas na minha memória com uma minúcia e intensidade cruéis. e doía-me muito não ter sido capaz de te conhecer nem capaz de te obrigar a aceitar que existias para além da tua imaginação. oito anos depois entendo enfim que nunca deixaste de ser uma estranha para mim e uma estranha para ti própria. vivi contigo, dormi contigo, viajei contigo, tive saudades tuas muitas vezes. foi uma maneira enganadora de passar o tempo. a partir de certo momento deixaste de ser uma pessoa com carácter definido, transformaste-te num cata-ventos à mercê das tentações mais ingénuas. já o tinhas sido antes de me conheceres e eu não te tinha curado dessa doença. todo o meu esforço para te ajudar a ser uma pessoa falhou. agora já nada posso fazer porque tu morreste e quem morreu não tem cura. fica-me o remorso, a dor, o arrependimento, o sentimento de culpa.

a noite caiu. estou só. num país distante. bebo um copo de vinho. como foi possível tamanha perdição, tamanha mentira? os dois primeiros anos das nossas relações foram bons e menos bons, eu recordo-me sobretudo de que foram bons, tu ainda sabias sorrir, ainda sabias esperar, ainda sabias pensar. havia muitas coisas a dizer, a entender, a corrigir, eu sei, porque o amor não é nunca aquilo que a nossa imaginação espera. mas eu acreditava que teria a paciência e a sabedoria e a paixão suficientes para ir desbravando o caminho e a floresta, construindo pouco a pouco a casa. nunca imaginei que ao primeiro aceno do exterior tu abandonasses o que ainda mal tinha começado e me deixasses só. arrependeste-te, voltaste de novo para mim. aparentemente. agora posso dizer que desde que te escapaste da nossa relação pela primeira vez nunca mais foste capaz de perceber ou de decidir que pessoa eras ou querias ser. andaste para cá e para lá, escondeste-te de ti mesma, sofreste, erraste, fizeste-me sofrer a mim e a outras pessoas. e para quê? para nada. as minhas mãos estão vazias, lembrar-me de ti faz-me detestar-te, faz-me afastar para longe as recordações que me deixaste. não te sou nada, nunca me foste nada, nem sequer enquanto trouxeste na barriga um filho meu. quando o amor se aproximava excessivamente de ti, tu assustavas-te e fugias. eu considerava-me uma pessoa inteligente, capaz de compreender a vida que estava a viver e que tinha escolhido. tenho de reconhecer que durante anos vivi numa nuvem de fumo negro, ignorante, incapaz de ver o que me estava a acontecer, o que estava a fazer. demorou, mas entendi enfim que tu quando desapareceste a primeira vez nunca mais voltaste. nem ficaste nem voltaste, perdeste-te no caminho. para sempre. agora posso dizer, tenho de dizer que em vez de teres tido a coragem de querer compreender o que fizeste e o que te aconteceu, preferiste morrer. desapareceste. deixando-me sem recordações e sem ter a quem acusar, de quem me queixar, com quem falar, com quem sonhar. por isso ao fim da tarde bebo vinho e proíbo-me a entrada nos terrenos ingratos da memória, que guardou o que não devia ter guardado, que friamente fixou como numa fotografia o que foi acontecendo sem nunca me ter ajudado a entender o sentido do que acontecia.

frases

"You seem to be taking great pain", said K. "Yes, said the man, "after all, it's my case."

Kafka, The Trial



"When I reached the sixth floor and rang the bell, a quite pretty-looking girl with tiny freckles came to the door. I recognized her as the same girl I'd seen walking with the old lady. She blushed slightly and straight away I realized that the little dear needed a boyfriend."

Gogol, Diary of a Madman

BM


















Friday, November 03, 2006

depois do cinema

saí do cinema em plena forma. apetecia-me dar murros nas pessoas e não era por mal. era apenas porque no filme toda a gente andava à porrada e era impossível fazer a transição para a monotonia do mundo real sem ter passado por essa tentação. surpreendeu-me a força do contágio. surpreendeu-me mesmo muito. mas acalmei-me logo, portei-me bem, fui saindo lentamente com os outros polícias e os outros mafiosos. a sala estava cheia. o ecrã era enorme, o som brutal, os actores geniais, sem uma falha. quando o dicaprio, barba curta, à porta, meio curvado para a frente, com as mãos apoiadas na parede ou nas ombreiras da porta ouve a rapariga dizer que a sua vulnerabilidade a tocou a gente emociona-se, consola-se. quando o vemos na cama com ela é o júbilo. não é só por ela ser boa e o scorcese nos deixar assistir ao que se passa de um ângulo de visão privilegiado: as pernas dela, as elegantes calcinhas pretas, aquela maneira de se dar, nem o dicaprio, que estava na cama com ela, os pôde contemplar e apreciar tão lentamente e tão bem como nós. mas há outra coisa excitante: ela, com aquele arzinho de meia tímida, com aquelas maneiras de rapariga honesta, afinal é a namorada do cabrão que é amigo do mafioso do jack nicholson e a gente fica contente por ela lhe pôr os cornos, como se dizia antigamente. reacções primárias, eu sei. mas não será em parte por isso que vamos ao cinema, para nos deixarmos ir na onda e sentir como se estivéssemos lá? grande scorcese. é preciso coragem para deixar balear o dicaprio dentro do elevador quando a porta se abre. a gente nem acredita. então o tipo desaparece assim do filme sem um aviso, quase sem a gente o ver morrer, quando já nos tínhamos identificado por razões complexas com ele? e depois morrem todos, os tiros não acabam. e depois aparece o tipo que parecia tão antipático no princípio mas que tinha sentido da honra e se foi embora para escapar à corrupção. aparece porque se tinha protegido do massacre, porque era esperto o suficiente para ter entendido que a única maneira de fazer justiça era esquecer as regras iniciais, o código teórico da profissão. e vinga-nos. impressionante como os actores americanos agem e falam: com firmeza, seguros de si, cada gesto imortalizado no mármore do celulóide. e a velocidade a que os acontecimentos se sucedem, as mudanças de plano, o vaivém entre os dois fios da intriga? espectacular. genial. a paciência que é precisa, além do saber e do talento, para ir construindo um filme assim, como um monumento, gesto a gesto, cena a cena, diálogo a diálogo, tiro a tiro. arte narrativa que só por isso me está, sempre me esteve vedada. pôr aqueles gajos todos a funcionar como funcionam exige autoridade, sensibilidade, conhecimento dos seres ditos humanos, um grande saber da arte de representar, muita maturidade. enfim, não bati em ninguém, mas saí para a rua revigorado e a perguntar-me porque não ia mais vezes ao cinema em vez de ficar em casa a ver dêvêdês na televisão. um filme não é bem um livro: a intimidade da casa, a solidão modificam tudo, restringem tudo. não se partilha a experiência. não é que eu não goste dessa privacidade. mas na sala cheia, com os actores enormes no ecrã, com o som mais agressivo do que na nossa monótona realidade, é outra coisa. em certo sentido é como ir de comboio na mesma carruagem com outros passageiros. ou de barco no mesmo cruzeiro. cria-se uma solidariedade silenciosa, secreta, frágil, inexplicável. se alguém atacasse a sala creio que reagíamos em grupo para defender aquele pedaço de chão e de tecto que nos unira. pois, tenho de ir mais vezes ao cinema. mas faz-se tanta porcaria que se corre o risco de no fim do filme estarmos ainda mais desanimados, com menos energia do que aquela que nos fez sair de casa. pois, eu sei, a chatice é essa, não se pode saber de antemão o que nos sai na rifa. mas não é assim também na vida real? quem vai para a descoberta nunca sabe o que vai descobrir.

Thursday, November 02, 2006

a cidade


num gesto de arrogância calculada eu tinha-lhe escrito: de qualquer maneira tu não podes viver sem mim, acabarás por voltar aos meus braços e hás-de chorar pelos pecados que cometeste, pelas asneiras que fizeste. e por me teres feito sofrer e perder tempo à tua espera, por não teres sabido amar-me. tu tens pela cidade uma paixão que só se tem pelas pessoas, toma consciência disso e analisa as consequências dessa alucinação absurda. essa paixão exacerbada pela cidade é inseparável de mim e tu não o ignoras, tu sabes que não podes atravessar nenhuma rua, nem nenhuma praça, nem nenhuma ponte, seja dia ou seja noite, vás a pé ou vás de carro, sem seres obrigada a pensar em mim, em nós. podes estar com outro homem, a mim bem me importa, tu nem o vês, eu sei que se voltaste à cidade foi à procura de mim e dos restos do nosso amor para o qual não encontraste nunca substituição. e voltaste de lá frustrada, nem necessito de te perguntar, porque não encontraste aquilo que procuravas nas ruas e nas praças e nos restaurantes e nos parques da cidade. nem nunca encontrarás.


sem mim a cidade era outra cidade. com a minha ausência eu criava a nostalgia, o vazio, a imperfeição da experiência. tu não podias, nada podias contra isso, a memória é mais forte do que a vontade e do que a decisão, desilude-te, não percas tempo a lutar contra forças que não podes vencer. tentaste substituir-me por um boneco de palha, mas sê sincera, não deu resultado, não conseguiste enganar-te. sentiste a solidão, não compreendeste a tua insatisfação. mas o vazio que te cercava de todos os lados era assustador. quiseste esconder a frustração e sorriste para quem passava, para quem te via. de que te serviu? de nada. entendeste por fim que a cidade sem mim ao teu lado não existe, que é outra cidade, o fantasma de outra cidade. aprendeste-o à tua custa. aprendeste-o nas tuas viagens clandestinas à procura de não sabias o quê, aprendeste-o tentando trair-me sem nunca o conseguires, aprendeste-o querendo sem sucesso apropriar-te sozinha de uma cidade que não te pertence apenas a ti. nem nunca mais pertencerá.

essa cidade pertence-nos, é tua e minha, e tu acabarás por compreendê-lo um dia com suficiente clareza. entretanto ilude-te a pensar que sem mim a cidade é a mesma cidade. até podes ter o boneco de palha a guiar-te pelos vossos caminhos escondidos, mas por mais esforço que faças nunca conseguirás escapar à recordação de nós os dois nas nossas ruas. quantas vezes tentaste já fugir e libertar-te de mim para te apropriares sozinha daquilo que nos pertence aos dois? nunca conseguiste e também não vais conseguir agora. tu já o sabes e só continuas a farsa para não te dares por vencida, queres iludir-te, queres ganhar tempo. teimosa, caprichosa, burra. a cidade eras tu e era eu e eram os nossos lugares. não, nenhum de nós pode estar ausente se se quer sentir de novo o que se sentiu no tempo antigo, mete-te isso de uma vez por todas nessa cabeça tonta.

antiguidades recentes

Museu do Centro Cultural de Idanha-a-Nova

casa da beira interior














Wednesday, November 01, 2006

No obscuro terreno

Não era o meu corpo que desejava o corpo das jovens raparigas. Era o espírito que aspirava à sua companhia. Dizia-se K., enquanto o tédio e a noite cresciam. Chegaria a entender um dia com clareza o seu destino? Não sabia. Deitar-me e que me acariciem o cabelo, que percorram o meu corpo com mãos preocupadas. E talvez o desejo acabasse por surgir e ele se levantasse na cama sobre o cotovelo, começasse a falar. Teria sido tocado. Mas não, não era o desejo, não era a carne que atormentava a sua solidão. K. queria apenas encontrar-se com alguém, uma pessoa. Com quem pudesse trocar olhares e palavras, alguns gestos, e seriam cúmplices na miséria do abandono. Depois venceriam o tempo e da escassez nasceriam os frutos abundantes e vermelhos de sumo denso. Em nós transportamos, no deserto do espírito, a semente escondida de todos os amores e de todos os ódios. No obscuro terreno do corpo vivem, como que adormecidos, os embriões das árvores de que se fará a floresta impenetrável. Mas os olhos das raparigas, repetia K. como se se lamentasse, mas os olhos das raparigas, que futuros cheios de plenitude escondem na sua profundidade?


Santa Barbara, 1 de Setembro de 1994