Tuesday, October 31, 2006

Monday, October 30, 2006

E ouvia

São elas, as jovens mulheres, quem
intrometendo-se no fio das horas, faz
avivar-se no espírito a memória
do amor. À mesa dos cafés falam
de “uma relação profunda, essa
coisa quase impossível, as pessoas
só pensam em divertir-se”. Ou ouvi
mal? Ela estava descalça e tinha os pés
sujos. O olhar dela era límpido, porém,
e sorrira com uma inesperada doçura
quando se levantara para ir buscar o jornal.
Ouvia os dois rapazes loiros
com uma atenção cheia de ternura,
falava-lhes como se a maldade
não existisse, nem o perigo, nem a
possibilidade de equívoco. Um
deles pediu-lhe o número de telefone,
depois convidou-a para jantar. Mais
tarde ela levantou-se e, sorrindo,
foi, com os olhos azuis, a boca
e os dentes inocentes, à sua vida.


Santa Bárbara, 1 e 2 de Junho de 1994

A quem?

Risca no meu espírito com a tua rudeza
selvagem e caótica, ó noite de Verão.
O vento abanava os ramos das palmeiras.
Duas raparigas conversavam, um grupo de
estudantes ria. Percorriam as ruas desertas,
nesse sábado à noite, misteriosas
figuras de mulher. Aonde iam?
O silêncio ameaçava e a solidão.
A quem telefonar? Indiferente, o espírito
abandonava-se à apatia. Risca,
dizia ele, em mim com a tua rudeza
selvagem, ó noite fria de Verão.

Santa Barbara, 27 de Agosto de 1994


The Departed

Um amigo meu acha que a celebração do machismo, da masculinidade, do mundo fechado dos homens é um tópico fundamental do filme de Scorcese. A minha primeira impressão, enquanto ia vendo: um filme sobre o que é a América, sobre aquilo em que a América se transformou. A violência e a brutalidade dominam as relações entre as pessoas. As instituições são frágeis e corruptas, a incompetência é frequente. O desrespeito da lei justifica-se com a imoralidade absoluta dos criminosos. Os mitos delirantes do heroísmo nascem neste contexto. Morrem os "heróis", mas a guerra continuará. Excessos da masculinidade? Os excessos da América? Uma coisa não exclui a outra. De qualquer modo: actores fora de série, um comando da intriga magistral... Cinema.

Friday, October 27, 2006

Monday, October 23, 2006

Viagem a Salamanca














quanto te devo perguntou ela. eu estava distraído a olhar para a montra de uma livraria uns livros de unamuno e não prestei atenção. ela repetiu devo-te quanto lembras-te? eu ouvi e disse não sei acho que não me deves nada. mas foste tu que pagaste o hotel e o jantar de ontem à noite disse ela. e tu pagaste a gasolina porque o carro é teu disse eu. está bem então disse ela. e desapareceu dentro de outra loja de roupa. eu fiquei cá fora a tirar fotografias às casas e a algumas pessoas que passavam tentando enquadrá-las de maneira a pôr em evidência formas cores linhas gestos atitudes a que o olhar normal utilitário não prestaria a devida atenção.


a maneira como se olha modifica tudo à nossa volta. concentremo-nos por exemplo numa janela. ou no pé de uma pessoa. ou nos seus olhos. se separamos a parte do todo e se além disso conseguirmos respeitar as leis básicas da harmonia talvez tenhamos tirado uma boa fotografia. a luz e as cores podem trabalhar-se depois no computador.

andei ali na rua de trás para diante e de diante para trás tirei uma péssima fotografia a um péssimo saxofonista que se sentara numa esquina e infestava o silêncio com os seus sons desagradáveis depois voltei à porta da loja para ver se ela ainda estava concentrada a ver roupa ou se já estava com ar de quem vai sair em breve e abandonar a busca. ela viu-me e começou a dirigir-se para a saída mas antes ainda parou para observar e tocar uma saia que lhe apareceu no caminho. e agora aonde vamos perguntei eu. se não te importas ainda há mais duas ou três lojas ali em cima que gostava de ver.

eu não me importava. a ideia da viagem fora dela. eu estava em casa a dormir era sexta-feira de manhã e inesperadamente ela tinha telefonado: vamos a salamanca. o que é que lhe dera? eu não a via há duas semanas e agora íamos a salamanca? está bem concordei eu vamos a salamanca. dormimos lá e voltamos amanhã. tudo bem disse eu e comecei e levantar-me fui tomar um duche e vesti-me. lembrei-me então de que ela tinha feito anos dois dias antes. e não pensei mais no assunto meti apenas as minhas coisas dentro de um saco e fiquei à espera que ela aparecesse. ela aquela que mandava nos meus dias que decidia quando e aonde íamos que tinha projectos obscuros para mim mas claros para ela e que decidira levar-me a passear para lhe fazer companhia. sentia-me um tanto confuso parecia-me que me estavam a tratar como se eu fosse um objecto um boneco sem vontade própria nem coisas pessoais a organizar ou a fazer como se eu fosse alguém sempre disponível porque sem objectivos na vida sem destino que merecesse respeito. mas não a via há duas semanas e viajar com ela compensava-me da sua longa ausência.

não sei o que é que ela fez nesse verão foram três meses e tal e no entanto pouco a vi. é verdade que eu próprio estive ausente em itália duas semanas e meia e que de vez em quando sem dizer nada me metia no comboio e ia até lisboa ficava lá uns dias em casa de uns amigos. ainda assim era estranho difícil de entender o seu comportamento. mas eu tenho bom feitio e ou sou tolerante ou sou peguiçoso ou estou-me nas tintas. não sei bem qual é a melhor explicação. compreendo aprendi a compreender e aceitar sem me questionar excessivamente todos os comportamentos todos os estados de espírito. das pessoas tudo se pode esperar já nada me surpreende.

e no entanto perguntei-me: terá deixado de me amar? já não tem prazer em estar em falar em jantar em andar em viajar em dormir comigo? porque no princípio ela aproveitava todas as oportunidades para fugir de casa dos pais fazia os trinta e tal quilómetros que a separavam de mim fosse dia ou noite e vinha jantar comigo dormir comigo passava comigo todo o tempo que lhe era possível e estava sempre a telefonar mesmo enquanto conduzia para a quinta onde morava.

agora não. agora passava bem sem me ver sem falar comigo sem dormir comigo. devia ter outras preocupações mas quais eu não conseguia adivinhar. invadira-a a depressão a melancolia o desespero o medo do futuro? cheguei a pensar que ela tinha um amante na vila onde vivia com os pais mas afastei a ideia. eu conhecia-a o suficiente e à sua ambição. nunca na vida ela se interessaria por alguém que vivesse naquela parvónia. não havia lá ninguém com classe com bom gosto com requinte suficiente para ela. aliás ela não queria viver em portugal e todos os seus projectos passavam por exilar-se noutro país mais civilizado mais moderno mais aristocrático mais rico com costumes e pessoas mais interessantes.

de momento eu era parte da realização do projecto. desde há uns cinco ou seis anos. mas tendo em conta que eu tinha o meu trabalho de investigador numa universidade para lá do oceano e que não contava voltar tão depressa para a europa devia admitir a possibilidade de me separar dela mais cedo ou mais tarde. quando ela se tivesse fartado de andar pela cidade a ver lojas de roupa de colares de móveis quando ela se fartasse de esperar que eu voltasse do laboratório onde passava os dias a observar os olhos das moscas e de outros insectos contribuindo dessa maneira para o progresso da ciência.


mas por ora estamos em salamanca e vamos voltar a portugal a meio da tarde. ontem e hoje ela andou de loja em loja a ver roupa depois fomos a um antiquário onde ela se deixou seduzir por um candeeiro por um baú de madeira por uma bacia por uma cómoda por não sei mais o quê e depois entrámos numa loja de bugigangas para a casa flores secas espelhos móveis cortinas tapetes coisas assim. eu às vezes entrava com ela e ela pedia-me para dar a minha opinião outras vezes ficava na rua a tirar fotografias aos edifícios e a algumas pessoas que iam passando e que me pareciam curiosas ou interessantes ou simplesmente banais.

depois ao fim da tarde ainda na véspera tínhamos ido ao hotel e descansámos um pouco ela mudou de roupa. tínhamos decidido jantar num restaurante ali perto que era caro tinha estilo e portanto devia ser bom. já não sei quem é que teve a ideia se foi ela ou se fui eu devemos ter sido os dois ela sempre gostou de bons restaurantes não perdia uma oportunidade de comer bem fosse comigo ou com outra pessoa. creio que como ela disse fui eu que paguei portanto terei sido eu a convidá-la porque ela tinha feito anos uns dias antes mas ficara com os pais pois a mãe evidentemente ficava doente se ela tivesse ido festejar os anos com outra pessoa.


recordo-me de que foi um excelente jantar a carne era boa o vinho excelente e sei que quem nos visse de fora outros clientes ou os criados que serviam à mesa por exemplo não deixaria de perceber que a nossa relação era sólida já antiga uma boa relação e que estávamos a festejar qualquer coisa. creio que depois de jantar tomámos um café na enorme e bela praça ali perto onde já tínhamos estado sentados à tarde a tomar chá. depois ela murchou como era costume a essa hora ficou com frio agarrou-se ao meu braço encostou-se ao meu corpo e fomos andando a pé para o hotel fomos deitar-nos. eu também tinha andado de um lado para o outro enquanto ela via as montras e entrava nas lojas e sem me dar conta tinha feito alguns quilómetros doíam-me um pouco os pés e as pernas.

estamos a almoçar num restaurante da grande praça e daqui a bocado metemo-nos no carro não tardará muito e voltamos a portugal. ela conduz eu não tenho carro cá na europa. às vezes alugo um mas desta vez não. e depois quando chegarmos a casa ela deixa-me no meu apartamento e segue para casa dos pais.

do meu sexto andar olha-se para a extensa planície que lá longe acaba por ir dar a espanha. vêem-se umas montanhas antes mas a distância é grande tudo é pouco nítido às vezes penso que é por ali que fica a vila e a quinta onde ela vive com os pais mas não sei pode ser apenas parvoíce minha obsessão uma maneira de sentir saudades dela. um dia quando nos separarmos creio que vendo o apartamento pois não me apetece nada sempre que vou à janela ou à varanda ter de pensar nela ser agredido pelo passado por recordações que me incomodam. porque esta relação cada vez se me torna mais incompreensível e ela uma pessoa misteriosa cada vez menos a pessoa que eu imaginava que ela era.


era uma criança quando a conheci. não tinha experiência nenhuma da vida e menos ainda do amor. separara-se por tédio do namorado da adolescência tivera uma vaga estranha aventura com um professor de liceu sofrera um desgosto com um don juan algarvio e depois apareci eu. se eu quisesse explicar por que razão estamos juntos não tinha grande coisa a dizer. vimo-nos uma semana num hotel das termas onde ambos estávamos de férias falámos um pouco no início depois todos os dias. combinámos reencontrar-nos na cidade onde ambos tínhamos estudado e onde eu vivo no verão. et voilà.

dois dias depois fui com ela a extremoz e a évora onde dormimos. a minha ternura por ela que me supreendia com a sua paixão ia aumentando. foi bom já não queríamos estar um sem o outro eu estava surpreendido com o que me estava a acontecer. quando apanhei o autocarro para regressar a casa porque ela continuava a viagem para o sul onde ia visitar uma prima ela deu-me diante de toda a gente um beijo tão bom tão verdadeiro que nunca mais me esqueci desse momento. hoje ainda tenho na memória a imagem dela no vestido branco a despedir-se de mim com a mão no ar enquanto o autocarro se afastava. por causa desse momento dessa despedida devo ter-lhe perdoado mais tarde muita coisa.

essa ternura sem manchas durou dois anos. depois não sei o que aconteceu passei a ter a impressão de viver com uma desconhecida a quem teriam feito uma lavagem ao cérebro que a transformou completamente. o que estamos aqui a fazer então? por que estou aqui a almoçar com ela antes de voltarmos à nossa velha cidade? não sei e talvez saiba.

sou muito paciente ou pouco exigente? às vezes sou pouco exigente contento-me com o que tenho e com o que me dão. vou esperando por dias melhores. tenho um carácter fraco não sou muito corajoso. ou então amo-a e não estou disposto a pôr os meus sentimentos em causa por ora. se a perdesse até as nossas discussões me fariam falta e havia de fazer-me falta ter de esperar por ela enquanto ela gastava horas em lojas de roupas e havia de fazer-me falta protestar quando a visse diante da televisão a ver programas de moda ou a querer aprender como se transforma uma casa velha e horrorosa numa casa moderna e agradável. por outras palavras: ainda não me apeteceu reflectir sobre a situação aceito-a como ela é e mais tarde logo se vê. acho que não vale a pena tomar decisões drásticas sem razões sérias para isso. podemos inclusivamente eganar-nos e fazer asneiras. é preferível portanto pensar que tudo se há-de resolver de uma maneira ou de outra naturalmente.



que isto não está bem não está. eu sei. é inegável ela irrita-me às vezes. acho que ela se tornou cínica e calculista nos últimos anos e tenho consciência disso. só não entendo a razão de tão profunda transformação. razões hereditárias biológicas? um amigo meu que é psicanalista explicou-me uma vez o que é a histeria falou-me da influência perigosa de uma mãe castradora na libido das raparigas mas eu não entendo dessas coisas ouvi-o distraído. o meu cepticismo é e sempre foi grande. não sei sequer se acredito que é ciência muito do que hoje se apresenta como ciência. quanto à verdade ao que nós chamamos ou cremos que é a verdade é preferível eu não dar a minha opinião. a minha especialidade são os olhos dos insectos. como são constituídos que forma e tamanho têm onde estão situados como se movem e reagindo a que estímulos ou necessidades até onde vêem se abarcam muito espaço lateralmente a relação entre o ver e outros fenómenos exteriores a sincronização ou relação entre o olhar e o comportamento do resto do corpo coisas assim pequeninas modestas.

ela está pronta. já viu mais umas lojas e agora podemos ir embora. entramos no carro e noto-lhe o mesmo ar decidido que já tinha observado quando ela me telefonou e me foi buscar a casa. como se tudo isto esta viagem estes dois dias tivessem obedecido a um projecto claro com intenções bem definidas. mas escapa-me qualquer coisa há por aqui um mistério uma obscuridade uma desordem uma decisão que não consigo penetrar. ou estarei hoje com vontade de inventar histórias? o carro já rola passamos perto da ponte de pedra antiga vemos ao longe as torres das igrejas e dos palácios vamo-nos afastando.

estás contente gostaste de ter vindo a salamanca pergunta-me ela. eu sinto que não estou nada contente que me atormenta uma amargura inexplicável mas digo que sim que foi uma excelente ideia que salamanca é uma cidade de que sempre gostei até era capaz de vir viver para cá um dia mais tarde quem sabe.
não sei se ela me ouviu. tem os olhos concentrados na estrada não sorri parece embebida noutros pensamentos e é como se eu não estivesse ao seu lado como se eu não existisse. haverá já alguém entre nós a separar-nos e eu não o sei e ela não o quer confessar?

apeteceu-me bruscamente pedir-lhe que parasse o carro e que me deixasse em salamanca. eu voltava de comboio. devia dizer-lhe que queria estar só porque o comportamento dela as decisões dela as suas atitudes me deixavam muito inquieto estranhamente nervoso. queria falar-lhe do meu mal-estar da minha incapacidade de entender o que é que a move o que é que ela quer da vida e de mim que ideia foi essa de me trazer a salamanca como se leva uma criança ao circo ou ao cinema em que é que ela está a pensar enquanto conduz. mas não digo nada limito-me a olhá-la em silêncio fico a observar a fria determinação com que ela se concentra na estrada.


de repente invade-me uma inesperada angústia fico melancólico e de olhos perdidos no seu rosto imóvel frio determinado. já pressenti que nos tornámos estranhos um para o outro e que não há nada a fazer. esta viagem teve qualquer coisa de artificial serviu não sei para quê exactamente. ela deve saber mas não lhe pergunto nada. em breve partiremos cada um para seu lado sem o lamentar e reprimindo todas as recordações que acumulámos vivendo juntos. esqueceremos sem remorsos o que vivemos aquilo a que chamámos o amor. esqueceremos tudo o que demorou tanto tempo a construir. não há mais nada a ler o livro acabou. ficaremos com um ramo de flores que já secou nas mãos frias. o que nos fez viver já não servirá para nada gastou-se como se gasta o alcatrão das estradas com a passagem dos automóveis e dos caminhões. o nosso passado transformou-se num cadáver. antes que comece a apodrecer a cheirar mal vai ser preciso atirá-lo sem hesitação nem compaixão para o caixote do lixo. haverá outra solução? não sei mas talvez não haja. ela vai conduzindo sabe aonde vai não tenho de preocupar-me. eu penso na pobreza do nosso destino na inutilidade do amor e de tudo o que nos acontece mas não abro a boca reprimo as saudades futuras que hei-de ter deste momento porto-me muito bem. mais tarde logo se vê não vale a pena forçar o destino.

campos

Sunday, October 22, 2006

Saturday, October 21, 2006

a hiena

e quando chegava a noite o terror que como um veneno se introduzira em nós a meio da tarde tornava-se por momentos insuportável depois de jantar e já durante o jantar abatia-se sobre nós como uma hiena faminta ávida de carne humana ávida de sangue e nós saíamos de casa para ir ao café porque ficar em casa na companhia da fera era arriscado era sexta-feira ou quinta ou outro dia não fazia muita diferença mas na esplanada daquele café certas manhãs certas tardes certas noites parecia que só se reuniam os esquecidos os tristes os abandonados aqueles que não tinham a quem amar nem quem os amasse a quem olhar nem quem os visse a quem falar nem quem os ouvisse e por isso vinham refugiar-se ali eram quatro ou cinco às vezes menos raramente mais um gordo de barba um rapaz judeu que lia livros de ficção científica dois estudantes melancólicos um magro e outro grandão e depois pessoas que vinham só às vezes e outras que era a primeira vez ou pelo menos não eram clientes habituais do café. e era sobretudo uma solidão um abandono masculino. os rapazes os homens bebiam café com leite em copos de papel fumavam falavam. era deprimente e eu comecei a detestar pessoas que tinham o ar de vagabundos não me apatecia nada ir sentar-me ao pé deles.

lá dentro os estudantes escreviam ou liam nos computadores ou nos cadernos e nos livros e havia raparigas que em geral não pareciam tão afectadas pela solidão mas a verdade é que todos todas passavam ali horas e o café muitas vezes à tarde à noite estava cheio. as raparigas eram as que mais facilmente riam brincavam às vezes sentavam-se à mesma mesa em grupo e pareciam satisfeitas com a vida. mas nem todas riam ou conversavam pois algumas estavam concentradas num trabalho ou numa leitura qualquer quase não levantavam os olhos do que estavam a fazer.

não era sempre a mesma coisa podia variar mas era assim certos dias e nunca se sabia quando e então parecia que vivíamos no deserto. nesses dias a mesma paisagem desolada o mesmo tédio a mesma tristeza ou monotonia que pareciam sem solução por todo o lado. nós fugíamos da esplanada tentávamos o starbuck por exemplo ou a borders mas nada mudava era sempre a mesma desolação parecia que vivíamos numa cidade desertada. os mesmos rostos de rapazes de homens sós meio fechados às vezes três ou quatro gatos pingados e as raparigas tinham desaparecido quase todas creio que era sempre pior nas sextas-feiras e nos sábados.


depois de tomar café e de fumar dois cigarros e ler um pouco e escrever num caderno não havia outra solução senão regressar a casa onde nos esperava para nos atacar impiedosamente a hiena que na realidade nunca nos perdera de vista nos seguira se escondera se tornara invisível mas que assim que entrávamos em casa nos mostrava logo os dentes afiados cruéis e o olhar de desejo já sem disfarce já sem receio nem pudor. e a gente tentava distraí-la olhando um programa de televisão ouvindo um disco lendo um livro mas a hiena não renunciava a tornar-se notada a ir espetando as suas garras na carne indefesa merda de país dizíamos nós raivosamente o que é que eu estou aqui a fazer como é que eu vim aqui parar nunca gostei desta maneira de viver desta maneira de pensar tenho pena dos infelizes pobres escravos do materialismo que nasceram aqui e não têm oportunidade de ir viver para outro sítio.

muitas vezes afastava a hiena de mim escrevendo contando histórias sei lá tentando fazer alguma coisa do tempo pois gastar usar todas as horas apenas a ler a dormir a trabalhar de qualquer modo não bastava era impossível não era solução evidentemente. meses e anos antes mas fora há quanto tempo alguém me fizera companhia e os dias o desencanto o tédio eram mais suportáveis mas o meu carácter provavelmente difícil de suportar a minha incapacidade de me relacionar com as pessoas ou sobretudo de lhes prestar a atenção que elas mereciam ou exigiam deixavam-me ciclicamente só. e então eu sentia a punição e à medida que passavam os anos e se aprofundava o conhecimento do país e daquilo que é a vida tornava-se mais difícil enganar-me distrair-me a mim mesmo suportar o fardo. uma noite há anos nos primeiros anos da solidão eu chorara diante do computador mas não fora um choro de vencido não não nada disso eu tivera bruscamente um arrepio comovente de orgulho de mim mesmo porque apesar de adversidades várias da força de alguns inimigos daquilo que tinha já perdido ou recusado eu não sucumbira antes pelo contrário tinha cumprido as minhas obrigações e não desiludira quem tivera confiança em mim fizera progredir as coisas de que me ocupava.

escrever escrever para adormecer a hiena era um vício absurdo devia ser sobretudo uma maneira de acreditar ou fazer de conta que acreditava que assim a solidão seria vencida. anos perdidos. dias e noites perdidos. para nada ou para não se sabia se sabe o quê. então uma noite pensei que nunca oferecera flores às mulheres que amara que também me esquecera de lhes oferecer pulseiras anéis perfumes roupa e que esse esquecimento ou distracção ou egoísmo devia ter desempenhado um papel importante na minha caminhada para a solidão detestável.

não era verdade porém eu sempre ofereci e gostei de comprar prendas coisas que via nas lojas para as pessoas às vezes até as enviava pelo correio o que acontecia era que eu não gostava nada nunca gostei de me comportar de acordo com os calendários oficiais das prendas e dos sentimentos e das obrigações não eu dou quando me apetece e detesto ser manipulado pelos comerciantes pela publicidade pelas datas pela tradição pelas invenções modernas de dias fixos para comemorações para despesas para aparentes loucuras e distracções.

não é impossível que essa minha aversão às convenções me tenha transformado numa pessoa menos sociável menos amável menos humana como se na realidade eu tivesse mesmo quando estava acompanhado gasto de maneira egoísta e estúpida tempo de mais a ocupar-me de pôr a minha vida em ordem escrevendo poemas aprendendo música gastando as horas com porcarias na internet.

e lá dentro na sala eu lembrava-me disso agora com remorsos e nostalgia alguém me chamava para ir ver um filme ou assistir a qualquer coisa na televisão e eu dizia já vou já vou e depois não ia e às vezes até reagia com palavras tortas e protestava com ar meio zangado que queria que me deixassem em paz e se era uma mulher que me tinha chamado que tinha querido a minha companhia só nos encontrávamos só nos víamos de novo na cama quando já tarde eu me ia deitar.

queria quis estar em paz que me deixassem em paz e tive a paz que desejava deixaram-me em paz. agora tinha remorsos de ter sido tão egoísta de ter estado tão ausente da vida dos sentimentos dos outros e não sabia que fazer da paz mortal em que vivia até infantil inventava histórias de hienas para tornar mais interessante através dessa metáfora banal de imagens conhecidas de técnicas já aperfeiçoadas por outros e portanto com pouca capacidade de surpreender de revelar de iluminar uma história que não tinha qualquer ou grande interesse. e se não era para tornar a tragédia o desajuste interessante devia ser uma maneira de os tentar vencer através daquilo que algumas pessoas designam por arte através do fazer do agir ó grande ilusão.

só que eu não conseguia enganar-me a mim mesmo e enquanto me ocupava enquanto fazia enquanto criava começava ou nunca deixava de duvidar do subterfúgio eu sabia e não podia esquecer eu compreendia eu sabia que nada nos salvará da insignificância nem da amargura das ausências nem da dor dos abandonos nem das consequêcias de haver à nossa espera à espera daqueles que amamos a morte.

imaginamos que sim que podemos escapar ao destino comum e pode até ser por idealismo por educação humanista que em vez de renunciar nos levantamos todos os dias continuamos o ritual aprendido respeitamos as virtudes elogiadas premiadas. mas nem por isso se vence o que não poderá nunca ser vencido o nada o niente o rien du tout que são as nossas existências de duração miserável e no entanto de duração suficiente e mais do que suficiente quando o sofrimento em vez da satisfação a dor em vez da alegria a derrota em vez da esperança são o nosso pão de todos os dias ou quase quotidiano.


apesar da antiga intensa juvenil selvagem vontade de viver vão-nos aniquilando as contrariedades as doenças as decepções os erros as paixões o desaparecimento dos sonhos e das pessoas dos projectos e o extenuar-se da esperança. nada do que acontece acontece sem consequências e se não for cedo é tarde que nos damos conta disso.

eu dizia a mim mesmo que a solidão actual me doía mas que não devia esquecer-me de que fora eu mesmo a procurá-la a aspirar a ela e que para a atingir a merecer tratara muitas vezes aqueles que estavam na minha vida como se eles tivessem obrigação de suportar o abandono o isolamento que eu lhe impunha que tantas vezes talvez cruelmente mas sem me dar conta disso eu lhes impusera.

eu pensara ou imaginara com desenvoltura distraidamente que eles os que eu amava e que me amavam não se podiam queixar que não podiam estar descontentes. não havia razão eu estava perto na mesma casa no outro quarto lá dentro a fazer outra coisa qualquer coisa a perseguir não sei o quê que nunca terminava ficava sempre matéria para investigar ou corrigir ou recomeçar no dia seguinte. e ausentando-me em vez de estar a prestar-lhe atenção a fazer-lhe a companhia que os amantes os filhos e os pais se fazem uns aos outros eu acabara por traçar o meu destino tinha sido punido com a realização do que desejara com aquilo a que aspirara.

o nosso destino está muito mais nas nossas mãos do que nós pensamos. mas aprendemos muito tarde às vezes não sei se sempre tarde de mais o poder que temos o poder que tivemos. e infantilmente com arrogância com ignorância esbanjamos desperdiçámos todas as ocasiões.

If

..........................................
Angel!: If there were a place that we didn't know of, and there,
on some unsayable carpet, lovers displayed
what they never could bring to mastery here - the bold
exploits of their high-flying hearts,
their towers of pleasure, their ladders
that have long since been standing where there was no ground, leaning
just on each other, trembling, - and could master all this,
before the surrounding spectators, the innumerable soundless dead:
Would these, then, throw down their final, forever saved-up,
forever hidden, unknown to us, eternally valid
coins of happiness before the at last
genuinely smiling pair on the gratified
carpet?


R. M. Rilke, Duino Elegies, The Fifth (translation Stephen Mitchell)

Sunday, October 15, 2006

lisboa

nocturno

eu não tenho nada a dizer porque estou conformado com o meu destino. de que me serviria queixar-me? quem poderia consolar-me ou contribuir para modificar a minha existência? ninguém. não serve de nada a gente queixar-se porque só alguém que poderia beneficiar de uma relação connosco responderia ao nosso apelo. ora as probabilidades de essa pessoa ter alguma coisa a ver com o indivíduo que nós realmente somos, as possibilidades de esse estranho nos vir a interessar são incertas.

acho a vida tão apaixonante como absurda. se não acreditasse ainda no amor, na possibilidade de encontrar alguém que se interesse por mim, entenda o que eu sou, e me preste atenção, provavelmente suicidava-me. nada disto, o mundo, a sociedade, a nossa existência, tem muito sentido, a brevidade da vida humana é ridícula, uma ofensa à nossa inteligência e às nossas capacidades. mas se alguém me amar, eu mudo de opinião.

o sucesso profissional já não me diz nada: não tenho, nunca tive a ambição de ser o melhor na minha disciplina ou noutra. aliás estou-me nas tintas para o prestígio social, a maior parte das pessoas que triunfaram na vida são frequentemente uma fraude. eu sou pela existência tranquila, longe dos holofotes da fama, essa ilusão infantil. tendo em conta os dez ou quinze anos de vida que me restam, para quê preocupar-me com mundanidades? não me aborreçam.

em vez de estar aqui a aborrecer-me, a triturar-me, sozinho em casa à uma e meia da manhã, porque não mando vir um táxi e não vou às putas? algumas são belas, simpáticas, têm educação universitária. o que é que as torna menos competentes em questões afectivas e sexuais do que as meninas a quem pagamos o jantar, por exemplo? as putas pelo menos dão-nos alguma garantia de saberem o que estão a fazer, provavelmente fazem-no bem. e o preço é fixo. além disso, se nos iludem, é por breves instantes, pois o pragmatismo renasce depressa das cinzas da falsa afectividade. não tenho experiência nestas questões porque nunca frequentei esse universo. começo a perguntar-me se não fiz mal

as putas, antes de nos terem seguros, de nos apanharem no quarto da pensão, são encantadoras. sabem seduzir-nos, são excepcionalmente amáveis. prometem-nos tudo. e a gente sente-se bem, gratificado, vingado das humilhações da vida - ou pelo menos do dia. uma vez que receberam “o presentinho”, porém, ficam apressadas. se são profissionais com um mínimo de consideração pela profissão e pelo cliente, fazem o que têm a fazer relativamente bem e disfarçam a pressa. mas para o meu gosto são de facto em geral apressadas e mecânicas. tenha-se em conta, porém, que a minha experiência é reduzida.

é uma profissão ingrata e difícil, reconheço. mas incomoda-me que uma vez que nos apanham despidos elas revelem tão pouco interesse pela pessoa que nós somos. olham de lado em vez de nos olhar nos olhos. querem manipular-nos o corpo e mandar nele em vez de nos deixarem acariciar os seus ventres lisos e bonitos, as suas coxas serenas, os seus rabos bem feitos. parecem, por vezes, bruscamente, meninas envergonhadas. a dignidade perdida, afinal não se perdeu.

a técnica da manipulação metódica e rápida do meu corpo pelas mãos aparentemente experientes delas no meu caso não funciona. eu não aceito ser um objecto sexual. recuso-me - e como sou eu que pago, tenho esse direito. não estou disposto a abdicar da minha condição de sujeito nem sequer na relação mercantil com uma mulher. se me decidir a prosseguir nesta via, a adquirir mais experiência, a cultivar-me neste ramo, estou seguro de que acabarei por ser eu a dominá-las com suave firmeza e a controlar inteiramente a situação. juro que não as deixarei nunca manipular-me como se fosse um boneco de borracha que deve inchar e explodir quando elas querem.

um amigo meu, que não tem paciência para aturar mulheres no quotidiano, vai às putas duas vezes por semana. imagino que, sendo ele um cliente regular, elas lhe fazem um desconto. essa solução permite-lhe, por ora, dedicar mais tempo à sua profissão. como ele diz: problemas sentimentais é coisa que não tenho, felizmente; há coisas mais sérias com que ocupar-se e eu sou uma pessoa muito ocupada. infelizmente nem toda a gente é tão sã, tão cínica ou tão inteligente como ele.

no meio destas reflexões tive de fazer uma viagem profissional a londres. é uma cidade que conheço um pouco, por lá ter vivido. se fosse rico, aliás, escolheria londres como lugar fixo de residência. em londres há cultura, a vida tem qualidade: livrarias, museus, teatro, cinema, música, o que de melhor se faz no universo acaba mais tarde ou mais cedo por estar em londres - se é que não nasceu lá. eu conheci uma vez uma menina no aeroporto, ela deu-me dois dedos de conversa até aparecer um rapaz de cabeça rapada a ir ao seu encontro e a abraçá-la. achei-o gordo de mais para ela, que era magrinha, e feio de mais também: com a cabeçorra rapada, ele parecia um sargento alemão. ela, em contrapartida, era uma florzinha de estufa, bonitinha, delicada. vi-a entrar no carro dele, que era velho, com as malas. beijaram-se longamente já sentados, abraçaram-se, acariciaram-se, eu estava espantado com o fervor daquela paixão despropositada entre a besta e a bela. mas entretanto chegou o meu táxi e esqueci-me deles, fui à minha vida.

voltei a encontrá-los mais tarde, por pura coincidência, em chelsea, numa farmácia perto da casa onde então vivia. eles não me viram nem podiam reconhecer-me. sim, eu tinha vagamente trocado umas palavras com a rapariga no aeroporto antes de chegar o sedutor skinhead com as suas botas pesadas e o seu ar abrutalhado; mas ela, tão ocupada a deixar-se lambuzar pelas patorras do romeu camponês, não me viu nem certamente se lembrava de mim. comprei as aspirinas que tinha vindo procurar e deixei-os a escolher preservativos numa estante da farmácia. fui-me embora desgostoso, no entanto. cheio de inveja talvez. desiludido com o atentado às leis da harmonia que aqueles dois pareciam cometer sem qualquer pudor. provavelmente o tipo era um lambedor competentíssimo de clítoris, esse órgão feminino tão intrigante que transforma as relações amorosas numa troca de serviços pouco elegante entre dois masturbadores. mas achei-me vilão e vulgar por pensar, sem razões evidentes para isso, aquilo que tinha pensado. não gostava do tipo, pronto, mas não era necessário atribuir-lhe a ele e à sua companheira vícios e incapacidades so disgusting.

o acaso, porém, colocou-os uma vez mais no meu caminho uma tarde em notting hill. eu devia partir no dia seguinte para estocolmo, onde tinha uma conferência profissional importante sobre anti-depressivos. entrei num café que costumava frequentar para tomar chá e comer qualquer coisa. ora lá estavam eles de novo de olhos nos olhos, a acariciar-se mutuamente as mãos. ele tinha olhos de carneiro, ela parecia uma nossa senhora de cera a derreter-se de embevecimento. achei demais e, chocado, desiludido, irritado, saí imediatamente do café, sem ter tomado nada. depois disso nunca mais os vi.

sentado no aeroporto à espera da hora do meu voo, interroguei-me: qual será a diferença real, científica, entre uma puta que se assume como tal e uma rapariga que se liga a um homem por interesse? serão os sentimentos da segunda mais sinceros e profundos do que os da primeira? serão a solidariedade, a amizade, a lealdade, elementos fundamentais e distintivos na relação de um homem com uma rapariga decente, isto é, com uma rapariga que não é puta?

quando voltei a lisboa tinha uma mensagem à minha espera no meu telefone. ela, que eu esquecera e pensava ter-me esquecido, lembrara-se de mim. queria saber se eu estava bom, há tanto tempo que não dava notícias. eu não tinha novidades a dar a ninguém, mas achei piada ela ter telefonado. sentia-se sozinha? precisava de me pedir algum favor? estava cansado, fui tomar um duche e deitei-me. eram seis da tarde e se acordasse a tempo contava sair para jantar.

sonhei com ela. sonho estúpido: enrolada em colares de pedras azuis e vermelhas do afeganistão, a sua nudez deixava-se entrever pelos intervalos das pérolas de feitios diversos. estava deitada numa poltrona de coiro beije e sorria-me com concupiscência. eu estava sentado no chão aos seus pés mas não entendia por que diabo ela se estava a comportar como uma odalisca oriental. à volta dos olhos as sombras azuis salpicadas de pó dourado davam-lhe um ar vulgar. um cão enorme subia o focinho na direcção das suas pernas magras onde se notavam as linhas dos ossos. eu estava de copo de whisky na mão a olhar para ela e não dizia nada, mas a dado momento comecei a rir às gargalhadas, sabe-se lá porquê. ela não gostou, mostrou-me má cara, franziu a testa, fez um gesto de enfado com a mão direita. a esquerda servia-lhe de apoio ao queixo. o cão, surpreendido pelas minhas gargalhadas histéricas, começou a ladrar, mas não tirava os olhos da dona.

acordei a transpirar, cheio de sede, eram umas oito e vinte. levantei-me, pensei em telefonar-lhe. há quantos meses não a via? mas tinha a certeza de querer vê-la? fui-me vestindo e tentando perceber o que é que me apetecia fazer. decidi finalmente telefonar-lhe, embora sentisse em mim, quando peguei no telefone, um vago receio, inexplicável.

ela veio jantar comigo. camisa de seda cinzenta com florinhas aberta no cimo, viam-se-lhe os seios redondos e carnudos. contei-lhe que sonhara com ela, ela riu-se. tu andas assim na rua a mostrar as mamas a quem quer que passa, perguntei eu, irónico. não sejas parvo, disse ela, eu trazia um casaco por cima da camisa. e só o tiro porque estou contigo, tu tens direito a ver as minhas maminhas, para ti não são novidade.

ela a falar e eu e lembrar-me de que ela ia assim para o liceu onde dava aulas e onde havia um tipo que a beijava na boca quando a apanhava no gabinete dele, que a apalpava e lhe metia as mãos pelas pernas acima. ela mesma me tinha contado esses episódios eróticos do fim do dia, quando o liceu ficava quase vazio e ela e o outro se sentiam à vontade para se pôr na marmelada. duas vezes até tinham feito amor no gabinete dele, correndo alguns riscos. e uma vez, mais entusiasmados, tinham saído do liceu logo a seguir às aulas e tinham passado o resto da tarde a foder num hotel próximo. ela não tinha pejo em me contar a sua vida mais íntima. as convenções sociais nunca a tinham impedido de viver a sua vida como lhe apetecia. ela era o exemplo da mulher moderna, o tipo de mulher capaz de pegar no telefone e chamar um amigo só porque tinha vontade de ir para a cama com ele. tinha vários amigos com quem o fazia. e que sabiam que ela o fazia com outros homens. com ela não se falava de amor nem do futuro, não se faziam projectos. ela dava e recebia - e depois ia à vida dela. se algum dos homens com quem ela se dava se mostrava ciumento, começava a tornar-se exigente, a criticava, dava mostras de querer modificar a relação, ela cortava com ele, nunca mais lhe telefonava, não respondia aos seus telefonemas

quereria dormir comigo, fora com essa intenção que me telefonara? eu não sabia ainda, as relações com ela não eram tão previsíveis nem tão lineares como poderia pensar-se. eu próprio não sabia se me apetecia dormir com ela, aliás, tinha de pensar no assunto ou de esperar um pouco para saber o que sentia.

concentrei-me no jantar. o vinho tinto era agradável. o bife e as batatas fritas impecáveis. e eu ia vendo as suas maminhas balançar-se ligeiramente dentro do soutien quando ela se ria. foi excelente.

Monday, October 09, 2006

Aker Brygge

mulher de pedra

banco de madeira

If they knew how

Lovers, if they knew how, might utter strange, marvelous
words in the night air. For it seems that everything
hides us. Look: trees do exist; the houses
that we live in are in still stand. We alone
fly past all things, as fugitive as the wind.

Rainer Maria Rilke (The second elegy)

petit lapin

Wednesday, October 04, 2006

Tuesday, October 03, 2006