Saturday, September 30, 2006

Presença

Uma voz, som que irrompe
do silêncio; se souberes ouvir,
se prestares atenção, se for
o momento da revelação, podes
entender o que nunca foi explicado:
a vida, a morte, o amor às
árvores, às vinhas e às colinas,
aos rios e às cidades, às
manhãs que nascem e às noites
em que morre a luz e o dia.
Uma voz, se ouvida, enche
o espaço imenso da criação,
habita-o, dá-lhe o sentido
que se procurava. E tu, sentado,
nem sequer mexeste a cabeça,
ficaste a olhar o infinito, embebido
e embrenhado no som, no rosto,
na súbita presença. Meu Deus,
pensaste. Mas não disseste mais nada.


Santa Barbara, 29 de Junho de 2004

Ruído

Como um desastre, uma
morte, uma surpresa:
a voz, o som que no
ar toma forma e vai
e se curva, prolonga-se,
e eu não deixarei nunca
mais de ouvir, de saber
que estamos, eu existo
enfim, acordei ou nasci.
Vagido do ser que irrompeu
do ventre oculto do nada
e criou o mundo, um risco
azul ou preto na página
branca bastam para
reinventar, iludir talvez.
Mas aquele que ouviu,
contente, recebe a imagem
e a consolação, alegra-se-lhe
o dia e o espírito, o
futuro, de novo, pode
imaginar-se, amar-se.

Santa Barbara, 30 de Junho de 2004

O tempo marcado

O som da voz: no nada,
na deserta paisagem, surge
uma sombra. Presença, pedra
afável, montanha contra o
céu azul. Fonte, água
que corre. Luz habitada,
a forma. Ser. Sussurro ou
sorriso, não importa. O
som: há vida no palco
monótono e invisível, a
chuva que cai, a nuvem
que voa, o automóvel que
atravessa o sono e o sonho.
Amar. Ficará a memória.
O tempo marcado. Cor e luz,
murmúrio, confidência. Ó
meu amor, ó eterna solidão.

SB, 30 de Junho de 2004

braços

Tão simples

Como nascer: no silêncio
ou no ruído de fundo
do dia irrompe
o rosto, o som, a cor.
Presença. Eu vejo ou
sinto ou imagino e
sorrio. A terna vida,
a consoladora natureza,
vestígios da existência
antiga dos deuses e dos
mistérios. Mas tão simples
tudo, apenas uma gota de
água na folha verde de
manhã, à fraca luz.

Santa Barbara, 30 de Junho de 2004

Nunca mais

Olho de lado, para o
sítio do ruído. Quem
falou? E vejo o rosto,
o braço e a mão, a
curva amável do ombro,
a pele apetecível da nuca.
Acordaste-me, digo. Como
num lamento, num segredo.
Mas falo para dentro, não
perturbo o que nasceu, a
revelação. A intensidade
da paixão, o milagre.
A aparição, a violência
do que é. Estremece
de prazer e temor o
corpo, o sangue acelera-se,
depois retoma, como um rio,
o curso tranquilo.
Deus talvez ou apenas
a pedra, a montanha.
E o olhar, o gesto
esboçado, a indecisão.
Mas ouvi e escuto ainda.
Nunca mais esquecer, nunca mais.

Santa Barbara, 30 de Junho, 2004

janela

Friday, September 29, 2006

Promiscuidade


O segredo é a alma do negócio e de todas as conspirações. Os rostos, no entanto, deixavam às vezes transparecer uma estranha inquietação. As mãos, nervosas, tremiam ligeiramente. Os olhares esquivavam-se. Amar o próprio como a si mesmo, evidentemente. Mas se possível, ó América do liberalismo selvagem, passar-lhe uma rasteira com um sorriso nos dentes. A simpatia não impede os assassinatos simbólicos. E o simbolismo não impede que o assassinado se transforme em cadáver real. Os anos que eu passei a aprender. Circular entre as pessoas, cumprimentá-las (como está? bem muito obrigado), sabendo que na sombra a calúnia e a inveja, às vezes, fermentava nas borras da amargura íntima. Não nascemos todos iguais. Não perseguimos com a mesma intensidade e fervor a verdade e a salvação. Ou antes: uns perseguem o seu destino; outros perseguem o destino alheio. O ódio não é aceitável. Nem o racismo. Nem o sexismo. Teoricamente. Claro que não é aceitável. Mas então sejamos claros: nem mascarados de boas maneiras, de solidariedade aparente. Mistérios da vida americana. A caldeira fervilhava, lá dentro não se sabia que corpos triturados, que órgãos decepados se agitavam. Eu saía da zona do perigo e ia sentar-me na esplanada de um café a descansar. Tentava entender. Mas não havia nada a entender para além dos jogos da ambição e da promiscuidade da luta pela vida, selvagem, impiedosa.


S. B. 28 Out. 1994

janelas

Eu nada sabia

Que dizer? Tu falavas no telefone,
estavas tão longe. Sentiste-te mal,
um indigestão provavelmente. Quase
choravas, abatida. Que devo tomar,
perguntaste. E eu não sabia que responder.
Eu nada sabia da tua vida: nem o
sentido das tuas palavras nem o
sentido dos teus dias. Na farmácia,
respondi, dizem-te o que tomar; explica
o que sentes e eles devem saber. Mais tarde
voltaste a telefonar, alguém te preparava
um chá, estavas mais tranquila. Mas eu
continuava sem saber o que tu tinhas e
o que pensar. Olhava a tua fotografia
na estante e pensava: como é possível
ela ter envelhecido tão depressa, deixado
de ser a inocente rapariga que uma tarde
caiu nos meus braços, a sorrir de alegria?


Santa Barbara, 5 de Março de 2004

Alguém



Passa a hora como passam na rua as bicicletas, como passa o calor e chega o frio da noite. Cada dia é uma existência inteira. Esquecemos o instante, imaginamos o eterno. Nessa confusão vivemos. Quem teria energia para sobreviver se com o dia lhe fosse dado o ano? Há a hora da chegada, a hora da partida. Juntar-se aos outros, depois abandoná-los. Desaparecem as pessoas, refugiam-se na casa. Uma música romântica tenta atenuar o rigor do momento, prolongar a ilusão da duração. Inútil. O coração não se deixa enganar, o seu próprio relógio preside à ordem de todos os outros relógios. Fim de tarde sem encanto, apesar de a luz se derramar suavemente nos objectos. Passam os automóveis com os faróis já acesos, silhuetas brancas de transeuntes silenciosos. Alguém, no café ao ar livre, tenta ainda ler. Não há eternidade, porém, nada que permaneça para além do breve instante da presença fugaz. Eu próprio, ele próprio, o fugitivo, o exilado, o insatisfeito, torna-se invisível. E não tem projectos. Levanta-se, parte ao encontro do nada.


Santa Barbara, 30 de Outubro de 1994

tira de pele

Thursday, September 28, 2006

Wednesday, September 27, 2006

A amada

Pensar na amada é imaginar os gestos mais simples:
apertá-la contra o peito, acariciar-lhe os cabelos,
beijá-la no rosto e no pescoço; e a emoção
confere a cada movimento o peso e a gravidade
do nascimento e da morte. Através da presença
da amada elimina-se a solidão; e o próprio
espírito, como que alegrando-se na sua tristeza,
põe sobre todas as coisas que existem um olhar
benevolente. Longe o ódio e o ressentimento,
longe o pensar estéril que anda à volta do
objecto obsessivo sem encontrar uma solução
que conduza de novo aos caminhos da vida.
O rosto da amada ocupa o corpo daquele
que sente a sua ausência. Ele olha para
as raparigas que passam ao longe e às vezes,
alucinado, crê ver nelas o perfil da ausente.
A amada, porém, que sabe do amor que
suscita, das preocupações que por sua causa
atormentam às vezes o inseguro amador?
A amada saberá o que é o amor?
Interrogando-se, aquele que espera inquieta-se:
e se errei, se foi um momento de equívoco
o que nos reuniu durante um breve instante
à beira do precipício da solidão? E não
tem respostas, ninguém pode oferecer-lhe a
paz de espírito, ninguém o pode consolar. Só
a amada, desejada, detém agora todos os poderes.


Santa Barbara, 3 de Novembro de 1994

parede e janelas

Sunday, September 24, 2006

janela

Transformation

I haven't written a single poem
in months.
I've lived humbly, reading the paper,
pondering the riddle of power
and the reasons for obedience.
I've watched sunsets
(crimson, anxious),
I've heard the birds grow quiet
and night's muteness.
I've seen sunflowers dangling
their heads at dusk, as if a careless hangman
had gone strolling through the gardens.

September's sweet dust gathered
on the windowsill and lizards
hid in the bends of walls.
I've taken long walks,
craving one thing only:
lightning,
transformation,
you.



Adam Zagajewski, Without End, New and selected poems,
Farrar, Straus and Giroux, N.Y., 2002

Saturday, September 23, 2006

objectos














Inger Johanne Nygren (Norway)

Friday, September 22, 2006

Thursday, September 21, 2006

o real e a literatura

“Si le monde que présente la littérature est par définition déjà fictif, et si de plus, selon la théorie constructiviste, le monde ‘réel’ est aussi inventé, alors la réalité qu’invente la littérature est doublement fictive.”

Rolf Breuer
Continua a comer-se mal no Sud-Express... Mas que ideia a sua, ó caríssimo Lourenço Viegas, de ir jantar a um comboio... E já agora, e porque eu sou um romântico dos caminhos de ferro, diga-me: as carruagens eram confortáveis?

http://www.contra-prova.blogspot.com/

Friday, September 15, 2006

contradição?



à força de recearmos que determinado acontecimento aconteça, somos nós que acabamos por provocar o seu acontecimento. depois queixamo-nos de ter acontecido o que nunca teria acontecido se nós não tivéssemos dado tanta importância ao seu acontecimento, se nós não tivéssemos imaginado com tanta ansiedade que podia acontecer o que dizemos que não queríamos que acontecesse.

somos nós que criamos oss nossos adversários e inimigos, que os tiramos do anonimato e lhes damos o privilégio da fama. sem a nossa interferência, sem a publicidade que lhes fizemos, ninguém teria dado pela sua existência.

sem o altar onde os colocamos, os amantes das nossas mulheres nunca lhes teriam despertado uma atenção prolongada. mas nós, ao privilegiá-los com um olhar nosso, pomos fim à sua insignificância. e as nossas mulheres, revelando grande consideração pelo nosso ponto de vista, dão-nos a honra de nos enganar com eles. também é um método relativamente subtil (não muito, não muito) de nos livrarmos de uma mulher que já não suportamos.

uma vez acontecido o que receávamos que acontecesse, ficamos descansados: as previsões confirmaram-se, o que só prova a nossa perspicácia; e desapareceu finalmente esse receio, que nos estragava os dias, de que viesse a acontecer o que agora já aconteceu.

a melhor maneira de fazer com que uma relação não funcione é a gente imaginar desde o princípio que os obstáculos são muitos, que o seu sucesso é improvável. e em seguida proteger-se do desastre de maneira inteligente, iniciando assim que possível outra relação, que será mantida em banho maria clandestinamente por uns tempos (podem ser anos). depois é só ir mudando de uma relação para a outra até compreender finalmente que nenhuma das relações tinha possibilidades de sobreviver. o nosso "partner", aliás, nunca provou claramente que nos amava e depois acusava-nos de leviandade, de estarmos distantes. parecia estar à espera da primeira oportunidade para se desfazer de nós. era portanto natural, para nos precavermos de sermos abandonadas/os, que nos fôssemos embora por nossa própria iniciativa, de livre vontade. ficámos finalmente sós ou aterrámos na relação errada, mas a nós ninguém nos abandona, nós damos o salto primeiro assim que nos parece que a nossa situação está ameaçada.

Thursday, September 14, 2006

a filarmónica



fonte

“Thank you”


After a long and arduous journey a young Japanese man arrived deep in a forest where the teacher of his choice was living in a small house he had made. When the student arrived, the teacher was sweeping up fallen leaves. Greeting his master, the young man received no greeting in return. And to all his questions, there were no replies. Realizing there was nothing he could do to get the teacher’s attention, the student went to another part of the same forest and built himself a house. Years later, when he was sweeping up fallen leaves, he was enlightened. He then dropped everything, ran through the forest to his teacher, and said, “Thank you.”


John Cage

Wednesday, September 13, 2006

Sandra Salomé







































mozart ou schumann?


e
ra um tipo curioso. ou estava a comportar-se de maneira que ele próprio achou curiosa. amara uma mulher que o aborrecia e irritava, que ele achava superficial e meio doida. separaram-se. quando voltou a casa depois de uma viagem pelo estrangeiro, porém, achou-a excessivamente vazia. tudo lhe lembrava a desaparecida, desde o ridículo tapete no quarto ao seu lugar por ocupar à mesa. sentou-se no sofá onde ela costumava adormecer invariavelmente a meio de um filme. apetecia-lhe a consolação da música. sentado no chão a escolher um cd, hesitou: così fan tute ou dictherliebe opus 48? o amor é uma farsa ou uma tragédia? decidiu-se por schumann, pôs o cd a tocar. sentou-se, acendeu um cigarro. tinha sede, foi buscar um copo de água. voltou a sentar-se. a dado momento leu, no livrinho que acompanhava o disco, o que heine escreveu e schumman sofreu: when i hear the sound of a song / that once my beloved sang, / my bosom is near to bursting / with the savage strain of sorrow. // a dark longing drives me / up to the woody heigths; / there in tears is released / my overwhelming woe. deixou-se impregnar pela música e esqueceu-se de sentir os seus próprios sentimentos.

nada.niente: we lose our way


"At first, we think we advance toward the light; then, wearied by an aimless march, we lose our way; the earth, less and less secure, no longer supports us; it opens under our feet. Vainly we should try to follow a path toward a sunlit goal; the shadows mount within and below us. "


Cioran