Wednesday, December 20, 2006

you talk a lot


you talk a lot disse z.

qual é o problema perguntou r.

não sei qual é o problema você é que deve saber disse z.

talvez saiba disse r.

as coisas são simples disse z vive-se e morre-se não adianta discutir tentar perceber você usa os seus narradores inquietos parciais para problematizar e explicar tudo ora querer compreender tudo não é necessário não adianta e ter em primeiro plano da narrativa um tipo que se apaixona que se deixa perturbar pode ser incómodo para o leitor.

eu li os seus livros disse r e você também fala bastante só que o seu narrador não tem rosto é uma máquina de contar histórias aparentemente sem opinião nem coração.

pois disse z o meu narrador limita-se a contar o que aconteceu o que acontece as pessoas encontram-se amam-se enganam-se separam-se por exemplo mas não compete ao meu narrador saber porquê o leitor que decida o narrador não tem explicação ciência sabedoria divina sobre o que se passa nem ninguém a tem como sabe só existem as verdades que nós acreditamos serem verdades só existem os problemas que nós consideramos serem problemas e não há em lugar nenhum uma verdade uma conclusão uma explicação que seria a correcta em relação à qual tudo o que nós dizemos teria de ser comparado confrontado isso são coisas que se nos metem na cabeça é como aquela coisa de imaginar que existe no céu um livro onde a nossa vida já está escrita de antemão sabida por alguém antes mesmo de ser vivida se já se viu ideia mais tonta meu deus.

foi assim que nos educaram disse r para viver na crença de que existe alguma coisa para além do que acontece mesmo platão colaborou nessa brincadeira infantil com as teorias as metáforas da caverna e das sombras da caverna la vida es sueño además.

sabe uma coisa disse z as pessoas amam-se porque podem odeiam-se porque podem casam-se porque podem separam-se porque podem mentem e matam porque podem tudo o que se diga para além disso é pura especulação. podem e apetece-lhes e se elas dão outras explicações é porque têm medo são escravas da boa educação que receberam que pretende que nada acontece que não tenha uma explicação profunda séria relacionada com o carácter e com a situação particular em que se encontram as pessoas. entendo que quem esteja envolvido directamente nos acontecimentos queira perceber é natural e por essa razão eu deixo falar nos meus livros as personagens eles e elas que se expliquem mas eu não sei se eles dizem a verdade nem se há verdade que de facto possa ser dita o que existe são opiniões não há mais nada senão opiniões creio eu. eles falam e tentam perceber o que lhes acontece porque não se conformam não suportam o que aconteceu necessitam de acalmar a dor a incompreensão tentando perceber falando reflectindo inventando histórias mas são eles não eu quem especula quem fala quem conta essas histórias quero dizer que não é o meu narrador quem tenta impor explicações ao leitor são eles directamente. para mim a realidade meu amigo a vida e a realidade são coisas simples nasce-se e morre-se ama-se e odeia-se o amor começa e acaba não há explicação não é necessário justificar o que não tem justificação é assim e pronto pensar e falar não servem de nada é perder tempo eu sou um tanto budista. as minhas personagens é que são diferentes de mim e eu aproveito-me disso sem ter de me preocupar pelo menos aparentemente em saber se elas têm razão ou não pois não tenho forçosamente de pronunciar-me enquanto autor nem o meu narrador invisível tem de explicar-se de tomar posição as personagens que se assumam e que se entendam entre si.

r calou-se durante uns instantes ficou a pensar e depois disse talvez eu mesmo enquanto autor das minhas histórias seja apenas uma personagem dos seus livros das suas histórias é por isso que lhe dou a impressão de falar de mais de pensar de mais de me agitar de mais não me peça imparcialidade nem indiferença ou antes não peça imparcialidade nem indiferença aos meus narradores pois eles estão dentro das histórias que contam estão lá quase de carne e osso é a história deles são eles que sofrem que são felizes que lutam que ganham que perdem que debatem que pensam está a ver o que eu quero dizer.

pois disse z eu também li os seus livros e entendo o que está a dizer foi por isso que comecei a falar que lhe disse você fala de mais quando na realidade são os seus narradores que falam de mais eu estava a provocá-lo para podermos discutir um pouco ambos sabemos que estamos a falar de técnica narrativa e que as escolhas nesse domínio nunca são inocentes eu deixo falar as minhas personagens e não tomo partido o meu narrador não toma partido não comenta ele é um funcionário de confiança objectivo tanto quanto se pode ser objectivo eu faço o que posso para que nem através da maneira de deixar ou fazer falar as personagens se possa entender que o meu narrador tem uma opinião acerca do que lhes acontece a elas claro não sei se consigo atingir essa imparcialidade mas é nessa direcção que se exerce o meu esforço até porque dessa maneira acabo eu mesmo por descobrir o que não sabia por pensar em coisas que antes não me tinham ocorrido. ora você isto é o seu narrador a pessoa que conta as suas histórias o seu empregado contador de episódios de intrigas não se mantém nunca friamente distanciado do que conta antes pelo contrário está sempre a tomar partido elogia e condena entusiasma-se a favor ou contra as outras personagens mostra-se a favor ou contra o que lhes acontece a favor ou contra os argumentos que elas utilizam a favor ou contra o que elas pensam julga-as critica-as odeia-as ama-as. como vê há uma grande diferença entre os seus livros e os meus entre as minhas histórias e as suas o seu narrador abusa perigosamente do poder que lhe confere o facto de ser ele a expor os acontecimentos o que o pode tornar odioso pois mesmo quando ele quer ser simpático ou imparcial com as outras personagens e adopta pontos de vista que são supostamente os pontos de vista delas pontos de vista que negam se opõem ou entram em conflito com os seus na realidade é uma ilusão pois tudo é contaminado pela sua visão das coisas das pessoas ele a sua sensibilidade e experiência filtram tudo e como é evidente ele só sabe pensar dentro dos limites da sua própria experiência e subjectividade ele só vê o que pode ver e não o que outras personagens vêem.

pois mas você parece esquecer-se de um pormenor muito importante disse r é que você escreve em geral na terceira pessoa ele disse ela fez eles pensaram e eu escrevo sobretudo na primeira pessoa eu digo eu penso eu vi eu sofri eu fui feliz o meu narrador ao contrário do seu é como já disse uma personagem da história que conta errado seria imaginar que mesmo quando ele fala de si está a dizer o que eu penso o que eu autor sinto ou penso porque não é isso que se passa nada disso o narrador faz parte da história por isso não pode ser levado à letra isto é o que ele diz pode não ter nada a ver nem com o que eu penso nem com uma análise rigorosa correcta fiel do que se passou se é que isso existe ele pode errar aliás nem se trata de errar trata-se apenas de ter uma opinião de adoptar uma perspectiva em vez de qualquer outra é isso que ele faz adopta uma perspectiva tem opiniões paixões não é neutro não é imparcial embora se possa dizer que é desse poder que ele por vezes abusa. faz parte do meu método que o narrador sendo ao mesmo tempo personagem e com frequência um dos protagonistas possa errar esteja errado não lhe compete aliás dizer a verdade não tem obrigação disso se ele filosofa é a sua filosofia que ele expõe não a de sócrates ou de kant ou de wittgenstein ele é mais modesto nas suas ambições. claro porque ele usufrui dos privilégios certamente excessivos de detentor da palavra pode pensar-se que tudo o que ele diz é mais verdade do que outras coisas que se pudessem dizer mais verdade mais acertado mais fiel à realidade do que aquilo que as outras personagens que ele não deixa falar suficientemente pudessem dizer ora isso não é minimamente o caso ele deixe-me sublinhar isso bem limita-se a ter uma opinião e a comunicá-la ele faz a sua narrativa e o leitor pode deixar-se iludir mas se o leitor souber ler a ambiguidade o malentendido desaparecem. aliás o seu narrador da terceira pessoa não se assumindo nem se mostrando à luz do dia como detentor de um ponto de vista acaba por ser mais manipulador menos honesto do que o meu e portanto paradoxalmente dou-me conta agora menos digno de confiança do que o meu narrador que é personagem ao mesmo tempo o meu narrador mostra a cara e pode ser facilmente acusado disto ou daquilo criticado enquanto personagem enquanto pessoa que faz isto ou aquilo pode em resumo ser julgado ao passo que o seu.

essa da honestidade agora é inesperada disse z eu faço o possível por ter ao meu serviço um narrador neutro não o deixo envolver-se é um facto e como disse antes não ignoro que é impossível ser imparcial mas ainda assim a situação nas minhas histórias é radicalmente diferente da situação nas suas o seu narrador como tem um extraordinário vital interesse enquanto personagem no que vai contando na imagem que quer deixar ao leitor daquilo que vai contando acaba por dar a impressão de falar de mais de pensar excessivamente de não ser lúcido de perder tempo e energias os seus defeitos obsessões paixões tornam-se podem aparecer como demasiado evidentes e o leitor pode por conseguinte duvidar não acreditar em nada do que ele diz.


mas é isso mesmo que eu quero disse r o meu narrador sendo personagem quer ser julgado enquanto tal portanto não creio que estejamos em desacordo o meu narrador de facto acaba por assemelhar-se a uma pessoa real pode até confundir leitores inexperientes ou desatentos e deixá-los acreditar levá-los a acreditar que o que estão a ler é a opinião do próprio autor a opinião a narrativa do escritor isto é a minha o que é totalmente absurdo os meus narradores contam sem qualquer ambiguidade desse ponto de vista histórias em que estão seriamente envolvidos e que são as deles e portanto só exprimem os seus próprios pontos de vista não peço portanto para eles mais tolerância do que para as personagens de que eles falam do que para as personagens que eles julgam ou acusam amam ou odeiam antes pelo contrário quero que eles sejam julgados é necessário que ele sejam sempre avaliados julgados também pela opinião que exprimem ou deixam transparecer sobre outras personagens e pela maneira como as situam na trama das suas histórias intrigas inclusivamente em relação a si próprio.

claro eu sei ao ler os seus livros a gente não se pode esquecer de que quem conta as histórias é o seu narrador disse z mas também não nos escapa que esse narrador sendo personagem na história que conta está a falar de coisas que de uma maneira ou outra lhe dizem sempre respeito a ele ora esse detalhe pode fazer com que não o levem a sério pode fazer com que o leitor desconfie dele que deixe de o interpretar à letra e esteja sempre de pé atrás o seu narrador por conseguinte é muito menos digno de confiança do que um narrador como os meus que são neutros que não fazem parte da história mas se limitam a contá-la.

mas há algum mal nisso ser indigno de confiança como narrador ou personagem é pejorativo negativo algum crime? antes pelo contrário e não se esqueça que platão aristóteles henry james e outros consideraram que era essa a melhor maneira de contar uma história usando a voz e os pontos de vista de personagens directamente envolvidas no que se vai passando. ser indigno de confiança neste caso é uma qualidade não um defeito. é natural por outro lado continuou r eu admito isso como perfeitamente natural que o leitor tenha tendência em última análise a desconfiar de mim e não do meu narrador mas será necessário sublinhar que eu sou apenas o metteur en scène o grande construtor exterior à intriga? claro que não é necessário explicar isso a não ser a gente ignorante.

no fundo eu aceito isso disse z você como autor é tão exterior em relação à história como o meu narrador neutro mas repare que não se pode dizer a mesma coisa do seu narrador e que é aí que está a diferença entre as suas histórias e as minhas pois ao nível da narração as suas histórias e as minhas são muito diferentes. repare que quem fala de si próprio directa ou indirectamente quem fala enquanto personagem não escapa nunca em maior ou menor grau às suas paixões ao passo que o meu narrador tem mais liberdade de manobra e é facilmente esquecido porque é apenas um funcionário ao meu serviço alguém a quem eu não concedo em situação alguma em caso algum que interfira se pronuncie directamente sobre a vida das personagens sobre os episódios que vai expondo na narrativa o que lhe confere um estatuto de inocência apreciável.

sem dúvida disse r mas as suas escolhas e as minhas correspondem a estratégias diferentes pode até dizer-se que as duas técnicas a sua da neutralidade e a minha de envolvimento do narrador correspondem a duas estéticas a dois temperamentos diferentes eu não me importo antes pelo contrário que o leitor se irrite se enerve com o meu narrador que duvide dele que suspenda as suas conclusões que o odeie ao passo que você com a sua estratégia de neutralidade aparente leva de facto o leitor a deixar-se enganar pois nem por adoptar um narrador neutro muito à hemingway você deixa de fazer as suas escolhas de criar um sentido determinado e não outros de levar a história numa determinada direcção e não noutras as suas personagens resolvem ou não resolvem os conflitos mas por detrás delas estão os seus próprios conflitos de pessoa de autor que você dessa maneira descobre enquanto escreve e que através das suas personagens vai tentando entender tornar mais compreensíveis.

e no seu caso disse z por detrás dos seus narradores problemáticos isto é com problemas está você mesmo como pessoa como autor tem de reconhecer que acabamos os dois por cair dentro do mesmo cesto a inocência nestas questões não existe espero que esteja de acordo comigo.

inteiramente de acordo disse r o que eu consigo fazendo expor-se talvez excessivamente o meu narrador você atinge-o recorrendo a processos totalmente opostos mas estamos os dois dentro do mesmo cesto de facto.

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