Friday, December 15, 2006

Vagabundo

A tentação resiste à lúcida análise
da situação, aos ensinamentos da
experiência. Diante da porta aberta,
sempre pensas em entrar. O impulso é
instintivo, só depois reflectes e te recordas.
Gato escaldado das águas frias tem medo.
Tu nem das quentes. Pelas janelas abertas
e até pelas fechadas o teu olhar logo entra,
incauto, vítima do desejo. Que pode haver
lá dentro, nas salas desconhecidas, para que
de cada vez repitas o sonho ou o erro de
acreditar? E assim vais na vida, embalado
pelas esperanças, movido pelos apetites
mais humanos, mais carnais, mais espirituais.

Senta-te à mesa de um café, diante do museu.
Descobre, lá à frente, a rapariga que cruzaste
nas escadas. Fugiu de um quadro de Matisse,
vê-se pelas cores da camisa chinesa: azul,
vermelho, amarelo, verde. Ela lê, depois
escreve num bloco de papel. Tiras-lhe o
retrato, vários retratos, de longe e de perto,
ela nada sabe da obsessão com o desconhecido
que eternamente te há-de tentar. Devias
levantar-te, ir falar com ela, mas não vais.
Ficas sentado, irracionalmente, a desejar
conhecê-la, a imaginar o esplendor da sua
personalidade, a sua maneira tão terna de
falar, de amar. E vai passando o tempo
na tarde monótona da cidade em que estás
de passagem. Cansas-te e não te vais embora.
Andas pelas ruas, voltas ao museu. Matisse,
Picasso, cores e formas, vais de sala em sala.
Mais tarde cruza-la de novo no átrio do museu
e ela sorri, tu sorris, mas não dizes nada.
Sempre foste assim, indeciso, pouco corajoso
ou incapaz de decidir: o momento chega e
tu, desprevenido, mostras apenas os dentes
e segues o teu caminho. Vives no meio das
nuvens? As tuas contradições são inexplicáveis.

Abandonaste a cidade distante e tinhas
saudades daquele rosto, daquela presença.
Nunca mais a verás, nunca mais. Como é
possível? Dizes: preferia não a ter olhado,
não ter dado pela sua existência. Mas sempre
deste pela presença, ao teu lado, dos desejos
dos outros, da necessidade que eles têm, sem
o saberem, de existir através do teu olhar.
Acalma-se a tua inquietação com este pensamento.
Chegaste a uma conclusão, podes ir dormir.


Santa Barbara, 17 de Junho de 2000

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