Tuesday, December 05, 2006

Tudo era pouco

Como um fantasma vindo do passado,
olhava-me às vezes uma rapariga loira.
Jovem, talvez selvagem, quem sabe se
capaz de um amor profundo, da fidelidade
excessiva dos amantes trágicos. Via-a
sentada no café a ler, ela cruzava as pernas
e parecia ter nos lábios um eterno sorriso.
Interessar-me romanescamente pela existência
das pessoas que não conhecia fazia parte
do meu destino nesses anos. Não me
levantava, porém, para ir ao encontro de
ninguém, nem sequer respondia aos olhares
que distraidamente se pousavam em mim.
Eu próprio que imagens da vida fazia nascer
no espírito daqueles que não me conheciam?
Mistério eterno, não haverá nunca respostas
para essa curiosidade. E tanto se me dava já,
a própria música deixara de ferir a minha
sensibilidade. Mas sem amor o que vale
um homem, o que vale uma mulher?
Repetidamente, nos intervalos da acção
eficaz, eu fazia as perguntas para as quais
não há resposta. Para outros parecia fácil
o caminho da vida: amavam, triunfavam,
riam, faziam discursos solenes, aureolava-os
a glória e o êxito. Não que me escapasse
o alcance dos meus gestos nem as suas
consequências. Mas tudo era pouco para
satisfazer a minha necessidade de paz interior.
Alguma vez me contentaria comigo mesmo
e com os resultados dos meus esforços?
Ao fim da tarde, entre as palmeiras, o céu
cinzento manchava-se de nuvens negras. Mas
nem sequer ameaçava chover, a tranquilidade
era absoluta. Eu bebia café e fumava, assim
iam passando as horas e os minutos do tédio.

Santa Barbara, 24 de Outubro de 1994

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