Friday, December 22, 2006

têmpera

para quem não existimos podemos
morrer não será sentida a nossa ausência
para quem nos amou e se esqueceu de nós
não existimos alguém ocupa agora o lugar
do morto para quem nos ofendeu não somos
nada nem sombra nem mancha e com a
consciência destas coisas é que temos
de ir ao supermercado comprar o pão
o leite as cebolas as batatas os legumes
felizmente tivemos uma educação estóica
a nossa têmpera é indiscutível a nossa
força moral enorme a nossa capacidade
de resistir às intempéries um assombro
para nós mesmos e se pensamos neles
naqueles para quem já não somos ninguém
temos alguma pena da aridez que lhes vai
secando o coração e está a fazer deles
antecipadamente irmãos das pedras
e podemos ter-lhes alguma raiva mas
não adianta porque eles serão felizes
e infelizes sem nós e a nossa inutilidade
é um fardo que teremos de transportar
às costas até o podermos descarregar
numa lixeira e não sei se ainda teremos
força e vontade nesse momento para
caminhar voltar regressar ou se preferimos
adormecer entre os velhos farrapos os
restos de comida os detritos nojentos
e esperar por eles no meio da podridão

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