Friday, December 08, 2006

A terra e as árvores

As deliciosas uvas negras que eu
comia à noite, na solidão do meu
quarto de estudante. E como na infância
das vindimas de Setembro, o meu coração
alegrava-se. Lembras-te ainda, ó forasteiro,
do rapaz que conduzia o carro de bois
com os cestos cheios de bagos doirados?
Um dia deitou-se a um poço de madrugada,
esquecido desses dias de sonho e de esperança.
O vinho feito e guardado não o bebeu o
amaldiçoado. Nunca lhe conheceram uma
mulher, viveu longe de tudo como se não
tivesse desejos. A terra e as árvores
do vale conheciam-no e amavam-no,
não o esqueceram. Todas as manhãs ele
vinha e ocupava-se delas como dos filhos
que nunca teve. Nessa manhã, porém,
enganaram-se: ele passou por elas
e seguiu o seu caminho, na direcção
do poço. Tinha vindo a pé. Longe, na
ribeira, ecoam ainda os seus passos e o
ruído que o seu corpo fez ao cair na água.
Madrugada silenciosa. Porquê? Que havia
ainda a dizer e não foi dito, a fazer e não
foi feito? Ou é normal que os filhos
do homem abandonem o seu destino e
se lancem das falésias para as águas
profundas do oceano, sem esperança já,
sem remorsos? Incapazes de pensar,
incapazes de deter-se ainda e perdoar à
vida o ter tão pouco sentido. Ó primo
antigo da minha infância, tu, que morreste
jovem, perdoa à nossa velhice os erros
que cometer. Não sejas severo connosco,
esquece que nunca ninguém mais pôde
ocupar-se das uvas e dos pinheiros como
tu. Desterrado, o teu companheiro de infância
recorda ainda o teu rosto. No país distante
tem saudades do tempo inocente das vindimas.

Rennes, 22 de Setembo de 1997

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