Friday, December 08, 2006

Talvez

Uma voz estendia-se, ruidosa, ao longo da tarde:
como se o motor do desejo, perdido o objecto, não
cessasse de se embriagar na sua procura. Assim era
eu às vezes, quando o tédio ou o isolamento me
afastavam dos caminhos que levam a um destino.
Na mesma tarde que a monotonia ia saturando,
um corpo de rapariga marcava, com a sua presença,
o lugar da habitação. Longe de mim a realidade,
mas eu observei-a distraidamente, admirei as sardas
no seu rosto juvenil, os cabelos que caíam nas costas
da cadeira. Era a hora indecisa em que uns comiam,
outros liam, outros conversavam. E o dia ia morrendo.
Na minha poesia deixava de haver um sujeito, o meu
olhar era como uma máquina posta de serviço a
contemplar o desfilar das presenças, a anotar o espaço
das ausências. Não morrera, porém, e empregado neste
emprego esperava pela oportunidade de vir a entrar na
cena
do amor e na cena do ódio, na cena do ciúme e na
cena do deslumbramento. Teria noites povoadas de
sonhos
reais, sofreria com a esperança de não vir a
sofrer, talvez
alcançasse, talvez chegasse. Talvez,
antes da morte, descobrisse
um mistério novo da
existência, coisas que nunca suspeitara,
sentimentos
que me tinham sido inacessíveis. Quem sabe?



Santa Barbara, 27 de Outubro de 1994

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