Sunday, December 10, 2006

É sábado

Que música na tarde perturba a minha dor?
Onde estão os braços, os lábios, o peito do amor?
A vida é um exílio permanente, os dias
arrastam-se e trazem-nos humilhações, furores.
Ó meu amor, se as tuas mãos tocassem o meu rosto,
se te ouvisse dizer-me as palavras que consolam.
É sábado, ausentaste-te, tens um namorado antigo
(falei com ele ao telefone, sentia-me inibido)
e nem sequer sei se voltarei a ver-te. O fim-de-
-semana será triste, resta-me apenas a amargura
que me nasceu de uma ofensa inesperada. No fim
dos tempos nada terá grande importância, eu sei.
Mas agora estou aqui com o corpo às costas, um
pouco triste, a não saber que fazer de mim, do
tempo, como passar as horas. Porque vem a
música perturbar o meu torpor e os raios de sol
do fim da tarde, já sem ardor, iluminar a mesa
do café, fazer sombras na paisagem? Adeus,
ó juventude serena das melancolias românticas,
quando sofrer era um estado de espírito
respeitável e nos passeávamos tristes pelas
ruas da cidade no Natal, a acariciar a solidão.
Preocupávam-nos sentimentos
vagos,
antevíamos talvez os mistérios que a
vida
ocultava no seu ventre ainda por abrir.


Santa Barbara, 5 Novembro de 1994

No comments: