Saturday, December 09, 2006

Quem não fala

Em tempo de confusão multiplicam-se
as palavras. Falar até à perversão,
nada tem sentido, espasmos musculares
da garganta, da alma, da língua. Heróis
que se sabem reis nus e não podem
abandonar o barco naufragado da
linguagem. Temos destino, mas
secreto, só no silêncio e na solidão
nos olhamos no espelho sem corar
e entendemos a modéstia da grandeza,
a grandeza da modéstia. Mas quem não
fala parece não existir. E depois, como
abandonaríamos a si próprios, ao seu
desespero, à inutilidade os amigos, os
companheiros forçados da viagem obrigada
da vida? Um amor novo traz-nos – podia
trazer-nos - a ilusão que permite resistir
com um sorriso sério na boca ao absurdo
dos tempos de declínio. Na pele, no corpo
da amada refaz-se o universo e o sentido,
nós saímos de casa a seguir com pés
ligeiros e os olhos límpidos da objectividade,
da ausência de desejos por satisfazer.
Coincidimos de novo com os mistérios
da natureza, entendemos, podem ir
connosco até à beira dos lagos
e das
montanhas que os mapas ignoram

e não se perderão porque nós sabemos
aonde vamos, conhecemos todos os
lugares. Em casa enfim, no lugar
da habitação. Entrámos nele pela mão
da amada. Reduz-se o ruído, aumenta
o silêncio. É então que podemos falar,
que falamos, as palavras entraram na
propriedade novamente, nos domínios
daquele que antes se sabia no barco à deriva.


Santa Barbara, 11 de Maio de 1994

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