Monday, December 18, 2006

Piedade

Na noite de Natal esboço uma prece
pelos que sofrem. Sento-me, acendo
um cigarro e começo a rezar. Tem
piedade dos solitários, ó Deus que talvez
existas. Tem piedade daquele gajo de
barba crescida que há bocado se pôs
a falar comigo quando me sentei para
tomar café. Mal vestido, que fazia
na zona das lojas elegantes? E que
tinha no pescoço? Um inchaço, um
bico. Mas falava, perguntou-me
imensas coisas: o que fazia, de onde
vinha, se morava aqui há muito tempo.
Chateou-me, foi-me preciso paciência
para o ouvir. Mas era a tarde da noite
de Natal, fiz uma boa acção. Tem
piedade também, ó Deus que me
abandonaste a mim, do tipo que esta
manhã passou diante da minha porta e
se apresentou: my name is. Qualquer
coisa, não percebi. Merry Christmas,
disse o gajo. E eu retribuí. Senti,
é evidente, toda a solidão do mundo
em cima dos meus ombros. Mas fiz
que não percebi, distraí-me, fui
à minha vida sem lhe dar dinheiro.
Agora estou aqui, já jantei. E tu,
ó amada que podias modificar a
minha vida, onde estás? Nos braços
do teu namorado dormes, mas sou
eu quem pensa em ti com mais
esperança e amor. É verdade que há
outros corações a bater por mim
e eu por eles e que eu não recuso
nada, aceito tudo o que me acontece
com as mãos abertas de alegria.
Melancólico, às vezes, mas aceito,
assumo. Se eu tivesse tempo para
ser um grande poeta, para ser
grande em qualquer coisa. Se
tivesse. Saudades da pátria, das
raparigas da pátria. Tantos anos
demorei a entender. Agora entendi.
Beijos para todos e em particular
para os abandonados, para aqueles
em quem ninguém pensa, nesta
desolada noite de Natal. Ninguém,
eu sei, não há ninguém. E aqueles
que falaram connosco nada entenderam
da nossa solidão sem remédio.

Santa Barbara, 24 de Dezembro de 1996

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