Saturday, December 09, 2006

Perturbação

Espantosos dias, eu esperava pelo cair da noite
para me encontrar contigo. E a pátria distante,
como um paraíso que nenhum pecado destruiu,
confundia-se no meu espírito com a imagem
do teu rosto, a recordação da tua voz. Coisas
pequenas, tu sabes, mas no pais do exílio, longe
de todas as outras rotas do meu destino, não podia
deixar de pensar em ti: o encontro no café de bairro,
o passeio desastrado à beira-mar, a tua hesitação
e nervosismo. E eu, sempre distraído da vivência
das paixões, ia assimilando a lição, introduziam-se
em mim os perigosos germes da perturbação.
Nunca mais ninguém havia de inquietar-me
como tu me inquietavas, nunca mais com
ninguém, maldição e bênção, o amor. Mas tu,
inocente, não sabias o teu poder de modificar
o andamento dos dias, tu, perdida de ti mesma,
escapavas às minhas mãos, insensatez.

(1998)

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