Wednesday, December 13, 2006

Pela janela da mansarda

Por quem esperamos? Que
esperam
aqueles que,
aceitando o peso incómodo

de um corpo inútil, vêem passar
os dias
da água-furtada separada
da realidade,
distantes de todos
os encontros? Quem
nos
acompanhará um dia para que,
deixando
de estar sós, se aproxime
enfim, a sorrir, o
fogo divino de um
grande amor? Pelo amor
é que esperamos? Pela janela
da mansarda
o homem observa
a agitação do dia:
as pessoas
passam na rua, entre as árvores,
as casas, os automóveis. Dói-lhe
a cabeça
e ele diz: gostava
de ter um destino igual
ao das pessoas que vejo
atravessar a
estrada e entrar
no supermercado; à noite

vão ao café e ao cinema
e alguém conversa
com eles,
tocam-se as mãos. Não ignora
que tudo está condenado
ao desaparecimento.
Viu
cair de joelhos e chorar
às vezes, impotentes,
aqueles
que um dia tinham sido felizes.

A vocação do poeta, diz ele, pode
ser nomear o mundo;
mas não é
apropriar-se dele; a linguagem

é apropriação fictícia da morte.


Santa Barbara, 11 de Setembro de 1994

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