Monday, December 18, 2006

Os jogos do amor

Falávamos muito, tu e eu, eu mais do que tu.
O sentido das palavras ficou suspenso na árvore,
fruta verde em que não receámos partir os dentes,
tu e eu, cegos pela miragem do amor. Do amor?
Como lhe chamaria agora, à distância de algumas
semanas, perdido para sempre o encanto da
escravidão? Eu nunca amei, talvez, nem tu, nem
ninguém. Confundimos o desejo com o amor.
Sobretudo queremos distrair-nos. A ilusão
do sentido é a que mais falta nos faz. Por isso
tu me chamaste para o jogo do amor no pátio
da escola. Por isso eu acedi a sair de casa, a
abandonar a janela, para ir ao teu encontro.
Importante era apenas a nossa capacidade de
corrermos um atrás do outro, de sorrir, de nos
agarrarmos pelo braço, de nos beijarmos à
sombra da amoreira, contra o tronco espesso
e tu a respirar quase sem fôlego. Mais tarde
tu havias de cansar-te de correr atrás de mim
e eu de correr atrás de ti. E eu voltaria sozinho
à janela da minha solidão. Aconteceu tudo
como eu tinha previsto. Deixei-te nos braços
do teu amor antigo, a sonharem os dois com
felicidades futuras e crianças risonhas. E
encerrei-me na casa vazia, fechei as janelas,
durante algumas semanas nem me apeteceu
ver o sol. Não foi uma derrota, no entanto. Eu
de novo servi-me do amor para entender que
por detrás da ficção dos nossos desejos e da
fé com que fazemos de conta que acreditamos no
que dizemos e ouvimos se escondem a pobreza
irremediável, a grandeza e o heroísmo do ser.

Santa Barbara, 9 de Agosto de 1998

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