Tuesday, December 19, 2006

Os cafés fechavam-se

A quem escrever, com quem falar?
Comigo mesmo eu falava. Ou dirigia
à figura anónima e imprevisível do leitor
cartas desesperadas, à procura do sentido.
A dado momento o tédio instalava-se.
As
ruas ficavam desertas quando a noite
caía.
Os cafés fechavam-se. Os automóveis
circulavam, anónimos, na auto-estrada,
aonde iriam aqueles que, silhuetas na
sombra, carregavam no acelerador?
Um
circo, a vida. Mas é sempre uma
questão
de perspectiva: o lugar onde se
está dita
a forma do pensamento. A
economia
domina as relações como
domina o
mundo, tudo o que existe.
No mercado
do humano quanto vale
um homem só,
inseguro do seu destino,
demasiado
consciente do seu desejo?
Acendeu
um cigarro, abriu um livro.
Com quem
falar, a quem responder?
O problema
provavelmente não tinha solução.
Provavelmente nem sequer havia
problema.
Franziu o nariz, céptico.

Santa Barbara, 10 de Setembro de 1994

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