Saturday, December 09, 2006

O som

Ele falava, num inglês de espanhol, e ela ria,
ia rodeando de ternura as palavras em que ele
confessava visões do mundo e contava o passado
exótico, estabelecendo os limites da identidade.
Às vezes, em vez de rir, ela falava também. Mas
de novo, sempre, como uma resposta e
confirmação do ser, o som da sua garganta
era uma recompensa sinceramente oferecida
– como um orgasmo – à importância
que ele lhe dava. Ao longe, a rapariga loira
de camisa branca, com os seus olhos pequenos,
limitava o horizonte do que poderia, sem ela,
atormentar-nos com a sua imensidão.

Santa Barbara, 27 de Maio de 1994

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