Friday, December 22, 2006

nocturno descontrolado

des mots insensés que tu comprendras
e os meus nervos que não suportam o
ruído não me interrompas estava a pensar
no porto os barcos alguns vagabundos
a cidade adormecia e de não sei onde
o fumo das recordações o azedo o acre
ninguém nas ruas ou vamos ver se talvez
eu passava a maior parte do tempo só
cavernas lúgubres do nada do prazer do
inferno não aprendemos o código as regras
há um excesso de opiniões em circulação
e a gente perde-se na barafunda e claro
o amor é em geral ingrato espada de dois
gumes nem falar nem entender nos é possível
oh meu deus e tu na cidade amaldiçoada
continuavas o teu percurso de perdição
sorrias abrias-te gastavas-te escondias-te
seduzias aproveitavas-te emproavas-te
não se podia fazer nada por ti e eu
apesar disso recordava-te como se
tu fosses alguém com quem se podia
falar grande engano erro grave ia pagar
cara a ingenuidade pressenti isso e outras
coisas nessa noite incêndios tempestades
nos nervos mas eu estava sereno calado
aborrecia-me tanto não via a luz o fogo
ao fundo do túnel ela a ciganinha tinha
transformado o destino de tanta gente
lia-lhes a sina e estava tudo errado
nas suas previsões mas ela acreditava
nas suas próprias mentiras sorria
a vida às vezes é absurda e sobretudo
admitir que somos responsáveis custa
a nossa ignorância não tem cura já
entendi mas vou esquecer-me e amar
a rapariga que me dizia i don’t know
neste momento só penso nela que soube
tocar a corda mais gasta mais desafinada
do violoncelo mas sabe-se lá não estou nada
preocupado o que tiver de ser será eu sei
as pessoas que nos desprezam reduzem-nos
a pó antes de termos apodrecido secado
cruelmente mas não é com intenção de
nos magoar é claro é claro que não ó
pérfida bruxa coruja ó madalena sem
paixão perdida no nevoeiro da ambição
e da estupidez da falta de vista da falta de
tudo e eu por que razão parei na rua e te
falei mil vezes agora me arrependo e há
tantas raparigas que podíamos amar mas
como escolher como decidir em qual delas
investir todo o esforço toda a inteligência
toda a energia todo o tempo disponível
por isso acabamos sozinhos num quarto de
hotel há ainda umas mulheres de cinquenta
anos bem conservadas com educação
acredite-me dizia o meu psicanalista
a gente envelhece mas não é como
antigamente digamos até que etc. etc.
como ele me compreendia ele sabia do que
falava eu ouvia-o modestamente com
simpatia ele era paternal e eu pensava
que em mim ele se curava também
da inevitabilidade do erro e da pobreza
agora longe a vida não mudara nada eu
continuava tão só como sempre tinha
estado culpa de quem senão minha
e podia continuar eternamente a falar
em vez de sair de casa e ir ver se na rua
acontecia alguma coisa era tarde porém
uma guitarra tentava encantar a noite
e no porto os barcos adormecidos
esperavam pelo nascer do sol pelo dia

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