Saturday, December 09, 2006

Não sofrer

Só o que nós entendemos é sabedoria. O que ouvimos, o que lemos, o que nos dizem pode ser tido em consideração. Deve ser tido em consideração. Mas como discurso vindo do exterior e que terá de ser submetido à prova da necessidade. Entrar em contacto profundo com o ser é tarefa para a vida inteira. Quem sabe isso? Todos nós sabemos isso. O lugar de habitação, a casa do ser, eis a meta do destino e o objecto da nostalgia. Compreender o mundo é interrogá-lo. Só aqueles que não têm tempo nem espírito avançam apressadamente a caminho da vida. Subjugados ao desejo obscuro, à confusão, são vítimas da necessidade que não sabe esperar pelo que necessita e se contenta com o frenesim das posses bruscas. Assim entendia eu o mundo às vezes, quando a lucidez visitava o meu espírito e a tranquilidade (a ausência de remorsos e de desejos) me permitia analisar imparcialmente todas as coisas. Não que tivesse junto de mim a amada. Mas sabia que encontrar a amada é um acontecimento extraordinário. Por isso aprendera a não sofrer enquanto contemplava o rosto das jovens raparigas. Não lhes dirigia a palavra. Quem prestaria a devida atenção ao solitário com a barba esbranquiçada, de olhar excessivamente inquieto quando observado com a devida atenção? Eu calava-me, tomava café, acendia um cigarro, concentrava-me na densidade ambígua das palavras e das atitudes. Às vezes lia, às vezes escrevia. Outras vezes pensava. Não sofria, verdadeiramente, pois sabia que a inevitabilidade da morte reduzia a minha existência a proporções modestas. Para quê aborrecer-me ou queixar-me, nestas circunstâncias? Era uma questão de tempo. E chegava a parecer-me abusivo e risível o esforço da medicina para salvar aqueles que a doença condenara ou ameaçava. Pode parecer, mas é errado, que eu acreditava na vida eterna, esse lugar imaginário onde se realizariam todas as sínteses, onde aconteceria enfim tudo o que antes, em vida, não pudera acontecer. Noites de Verão à beira-mar, que saudades me havíeis de deixar? Um dia, no futuro, eu saberia. Por ora era o tédio, era a ausência, era o equívoco e a solidão que dominavam a minha existência. Eu aspirava a ser, porém, com certa dor aspirava à existência plena, a do amor. Uma mulher, no futuro, poderia talvez escutar-me, saberia falar-me, nunca me deixaria sentir que estava só no universo. Só, isto é, a sós com os meus pensamentos, com a fragilidade do ser em mim. Passavam os anos, porém, e eu temia que para sempre ficassem sem resposta os meus anseios principais, sem alimento a minha fome ancestral. Ó noites de Verão à beira-mar, quando os rapazes e as raparigas passavam de bicicleta em frente do café e era como se pertencessem a outro mundo e nada tivesse a ver com o meu destino o que eles viviam. A dado momento, não por cansaço, mas por ter atingido os limites da reflexão, eu abanava a cabeça, fechava as portas do espírito que davam acesso às zonas mais obscuras de mim mesmo. Pouco depois levantava-me e ia para casa. Era uma parte do meu destino. Quem poderia entender-me, quem um dia me prestaria a devida atenção?


Santa Barbara, 29 de Agosto de 1994

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