Saturday, December 09, 2006

No seu rosto liso

A tinta no papel, isto é, o sangue negro
a corromper o silêncio.
Confissão ou
disfarce, mas os
cavalos da imaginação,
meio ébrios,
não sabem repousar. Que
nos move,
que puxa a mão e a conduz?
Que nos
impede de dormir? Durante o dia
o sol
brilha nas casas da velha cidade,
as ruas
abrem-se, vastas, e nelas passam
as raparigas
que podíamos amar. Elas
vêem-nos, mas
falta-nos o pretexto
para sair-lhes ao
caminho e convidá-las
a falar.
Sangue negro na página branca
do inocente
dia, remorso, expiação, isso
é o poema. Na
noite silenciosa e branca,
no seu rosto liso
de lago adormecido
lançamos pedras. As mãos
escapam-se
de nós, os olhos escapam-se de nós,

o desejo confunde-se com a maldição
de existir
sem nunca chegar a possuir.
Ó jovem menina de
braços e peito nus,
apeteceu-me tanto acariciar
a tua pele
quando tu passaste por mim e depois
te
reencontrei na paragem do autocarro.
Que
havia de tão singular em ti? Nada,
talvez, aos
olhos vulgares com que
vivemos o dia a dia. M
as a revelação
aconteceu, por breves segundos
eu tive
o pressentimento do amor, fiquei como
uma árvore desprotegida a oferecer os
ramos aos
ventos violentos da noite. Na
planície vêm
vindo os cavalos, ouvem-se
os seus cascos
bater a terra repetidamente.
E tu, ó jovem
filha do guerreiro, ó irmã da
noite e das
montanhas, refugias-te em casa
e à janela
assomas depois, tímida, para
assistir à
passagem do furacão. O sangue
negro cai,
como chuva, na neve da planície,
estamos
no Norte, a solidão é inevitável
e dolorosa. Mas
os teus olhos, mas as tuas
delicadas
sobrancelhas, mas as tuas mãos
– e os teus braços.
Tu depois desceste
do autocarro, eu continuei.
Mas não
me esqueci, nunca mais me esquecerei .


Rennes, 22 de Setembro de 1997

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