Sunday, December 10, 2006

Ninguém nos salvará

Na ausência daquela a quem amei
recordo os seus olhos, os seus gestos,
o som da sua voz. O amor
visita-me assim, discreto e quase
envergonhado, na tarde de Outono.
Estou de novo longe da pátria, dos
seus costumes moderados e dos seus
políticos sem habilidade. Não tenho
saudades nem soluções, apenas penas
e preocupações. Mas tudo passa,
passará também provavelmente
por nós a ideia da pátria, o mito da
terra das origens. Em qualquer
parte se pode viver, é certo.
E ninguém nos salvará da morte,
essa punição. Imortais foram-no
os deuses inventados. A nós
educam-nos a corrupção dos
sentimentos, o espectáculo
da ambição, o desplante de todas
as vaidades. Que nos ensinam?
A prudência, a modéstia, a imperfeição
do mundo. Fama? Glória? Dinheiro?
Capítulos, títulos de capítulos do
romance que eternamente se repete
diante dos nossos olhos. E nós,
personagens involuntários da História,
percorremos os caminhos do mundo
com a convicção inabalável dos crentes,
daqueles a quem a ideia de Deus e da
eternidade moldou o espírito e o destino.
Quem quer ouvir o que nós pensamos,
em segredo, na intimidade da consciência
desprevenida? Quem quer estender-nos a
mão, participar connosco na revolução dos
costumes? Bela tarde de Verão. Longe da pátria,
todos os devaneios parece terem sentido.

Santa Barbara, 10 de Outubro de 2003

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