Monday, December 18, 2006

Muito

As noites eram infindáveis, o frigorífico
rugia na cozinha, os pássaros de madrugada
cantavam nas árvores próximas da residência.
Eu fumava. Tinha saudades vagas de não
sabia quem, de não sabia o quê. A amada
(aquela que eu decidira, para fazer parte
da vida, designar com esse nome pomposo)
tinha-se esquecido de me telefonar. Onde
estaria? Amo-te muito, muito, dizia-me
ela às vezes ao ouvido, apertando-me
contra si. Eu sorria, não acreditava;
coisas de crianças, repetia para mim
mesmo na solidão do espírito. Mas
os seus lábios, as suas mãos, o seu
corpo frágil faziam-me falta na
noite desolada que o tédio aborrecia.

Santa Barbara, 28 de Março de 1997

No comments: