Saturday, December 23, 2006

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recorda-te ouve o que eu digo de cada vez que eu viajava me ia embora me aproximava do lugar onde tu imaginavas que se escondia o tesoiro o amor clandestino que ameaçava a tua paz tu pensavas que eu te abandonava te traía me preparava para te deixar mas não era verdade tu inventavas-me envolvido em histórias insensatas receosa amedrontada comportavas-te como a miúda que o pai e a mãe deixavam de manhã no jardim escola e não entendia por que razão a esqueciam então para te vingares cuspias nas pessoas que passavam ao alcance da tua boca e se as apanhavas de costas fazias gestos obscenos com os dedos e para fugir à angústia do abandono e do desprezo para que a vingança fosse mais feroz mais sem remédio mais imprevisível mais excitante mais perigosa introduzias na casa que não era tua pessoas que te tinham claramente proibido de deixar lá entrar o teu pai a tua mãe onde é que estavam como podiam como ousavam cruéis eliminar-te da vida deles repetidamente o teu espírito nunca percebeu a razão das longas ausências na tua cabeça infantil eles sempre estavam presentes como um remorso uma ferida se eles soubessem da desobediência tu serias castigada é claro claro que sim mas não te importavas o ódio imaginário que lhes tinhas era mais urgente do que o amor que todos os dias te roubavam do que a punição que todos os dias te infligiam que sem motivo sem razão te infligiam o teu coração magoado vingava-se e nunca mais deixou de odiar de punir quem dizendo que te amava se ausentava sem o saberes sempre confundiste tudo eu por exemplo nunca fui quem tu imaginavas mas de cada vez que me afastei protegeste-te contra mim como se eu fizesse parte da dor dos teus obscuros anos infantis só assim se explica o prazer doentio que tu tinhas em provocar a minha ira e a necessidade que tu amedrontada e enraivecida tinhas de procurar outra pessoa alguém que pudesse representar o papel de não sei que salvador um estranho um estrangeiro evidentemente também para esse subterfúgio não havia outra explicação mas eu não sou nunca fui teu pai nem tua mãe por isso não necessitavas de me informar de que enfim eras livre e podias voar essas ofensas a prisão em que estavas metida essas grades invisíveis essa falsa libertação com que te alegravas e iludias nada tinham a ver nada podiam ter a ver com a minha pessoa desengana-te eu não era nunca fui personagem dessa história que alimentava a tua imaginação tu misturaste tudo um dia finalmente como era de esperar o barco afundou-se e então tu fechaste-te definitivamente na casa das máquinas no quarto mais distante às escuras amaldiçoando-me ainda e sorrias curiosamente sorrias talvez para acreditarmos que eras feliz imagino e não querias falar comigo parecias convencida de ter descoberto a terra prometida de ter chegado ao paraíso entendi que eu era agora definitivamente o inimigo aquele que não te amara o falso herói do conto de fadas que não soubera vencer os obstáculos que tu com uma sabedoria inconsciente tinhas semeado no seu caminho e que portanto tinha de ser punido eu entendi eu percebi e de longe observava com um sorriso de dor irónico nos lábios a morte do amor a inutilidade da pena a repetição do teu erro a continuação do fucking malentendido

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