Friday, December 08, 2006

Irremediável

Compreender, pelo menos, as razões da ira.
Mas não há razões. Nem a revolta dura ainda
depois dos anos de aprendizagem do amor (do
desamor, mas é a mesma coisa). A melancolia
descia de novo sobre mim, pesava-me na cabeça
o desejo da morte, eterna distância. A morte:
o seu rosto agora assemelhava-se ao das raparigas
que nos cafés eternamente sorriam, mostrando os
dentes brancos e sacudindo os cabelos com gestos
que só elas sabem repetir. Na casa isolada
a minha solidão metia medo. Não a mim,
àquele que de fora assistia à degradação da
imagem. Insuportável espectáculo da decadência.
Mas o meu corpo oferecia ao olhar de Deus
a compostura, a serenidade do olhar, a
paz exterior das feições. Mesmo lá dentro
o oceano das paixões e dos detritos permanecia
relativamente calmo. Meu Deus, que me acontece?
Amavam-me, mas eu era insensível ao amor.
A memória de uma mulher, jovem rapariga
da minha juventude, assombrava o meu destino,
provavelmente. Que fazer, agora? Irremediável
tudo. Eu não queria morrer, mas por que razão
continuar a dançar em cima da corda
suspensa do abismo? A queda já não me
assustava, nada assustava o meu coração
de adolescente ferido pelas carícias da vida.
Nem sequer podia queixar-me realmente. Tivera
tanta coisa. Desprezara tanta coisa. Meu Deus,
meu Deus, disse para mim mesmo. E podia
ter caído de bruços em cima da cama e chorar.
Mas continuei sentado diante da televisão a fumar.

Santa Barbara, 22 de Abril de 1998

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