Monday, December 04, 2006

Indiferente

Os objectos, o mundo exterior. Movem-se as silhuetas dos desconhecidos entre as mesas e as cadeiras, atravessam as ruas. E o espírito, perturbado, não se fixa em nada particularmente, é-lhe indiferente a divisão caótica do mundo em partes ordenadas. Identifica, mas logo a seguir esquece-se de si mesmo. Como se a relação de desejo estivesse para sempre terminada. As pernas de uma rapariga ou o seu rosto sublime de divina adolescente passam anonimamente. Flutua a imagem do universo na cabeça confusa daquele que não encontra a paz. É impossível o amor, impossível o próprio ódio. Ó antepassados heróicos e ilustres que nos deixastes uma identidade, razões de orgulho, esperanças. Ó pátria distante, cujo solo daria ao meu corpo a sólida estrutura das estátuas. Ó país de exílio ou de desterro, belo com o teu mar perto e as tuas palmeiras e os fins da tarde com cores no céu extraordinárias. A tudo isso é indiferente o exilado quando à tarde se senta na esplanada de um café. Ligado ainda àquilo que recorda, mas é-lhe impossível vencer a indiferença, aceder de novo à nostalgia e ao infantil entusiasmo dos que querem possuir. Justify Full


Santa Barbara, 22 de Novembro de 1994

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