Saturday, December 09, 2006

Imagens de sonho

É-nos concedida alguma capacidade de ver e assim, apesar de cegos para a realidade mais profunda, podemos viver. Amamos, odiamos. Esperamos e vamos alimentando a esperança com imagens de sonho reais. Imagens tão fulgurantes que estremecemos de terror e prazer ao contemplar o futuro que nos espera. Cegos, apesar de irmos de olhos abertos pelos caminhos que circundam as montanhas, apesar de corrermos, seguros de nós e do nosso destino, ao encontro de todos as aventuras. Ao longo de séculos sem fim foi-se construindo o edifício da coerência, a teia de aranha dos desejos, a curiosidade e aquilo que a há-de satisfazer. E nós aprendemos os gestos que era preciso. Obsessivamente vamos caminhamos, não paramos de caminhar ao encontro da nossa morte anónima. Ameaça já a podridão e o mau cheiro, o verme da terra à terra vai regressar de vez. Conformados ou distraídos, vamos indo sempre, como se não soubéssemos o destino da viagem.

Rennes, 10 de Setembro de 1997

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