Wednesday, December 13, 2006

A imagem da amada

Também eu amei, mesmo se às vezes
duvido de ter visto de perto o rosto
da amada. No tempo que passa
perdeu-se a recordação da paixão,
dos erros, dos momentos em que
pensei: isto é a plenitude. Num
país longínquo vive agora aquela
que eu inventei para poder ter
experiência da minha humana
imperfeição, do meu natural desejo
de companhia e de adulação.
Não a esqueci, não a esquecerei
nunca, mesmo se agora o ódio
vem às vezes perturbar a paz
do espírito separado dos sentimentos
do passado. A imagem da amada
entranhou-se no sangue daquele
que a amou e todas as palavras se
recordam ainda, apesar de ser
necessário sobretudo pensar
no futuro e preparar a
morte. Como esquecer?
Dói a separação. Aquelas
que um dia amámos, para
sempre serão amadas. E não
entendemos a sua ausência,
não sabemos como suportar
a ideia do seu desaparecimento
definitivo da história dos nossos
dias. Não ignoramos que se morre
só. Mas como aceitar que não tenha
havido nem sejam ditas nunca as
palavras de despedida? Aceitar
a indigência da nossa condição:
tudo o que aconteceu é como
se nunca tivesse acontecido.

Santa Barbara, 12 de Setembro de 1994

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