Tuesday, December 05, 2006

Ignorar

Os espaços infinitos seduzem o olhar e o espírito anima-se com os sonhos insensatos da sua liberdade. O corpo, esquecido de si mesmo, repousa e assiste aos delírios da razão e do instinto. Um dia, porém, é-lhe dada a palavra enfim e ele diz: sem outro corpo que sirva de barreira à insensatez da ânsia de absoluto, como podemos viver? Conhecer é a nossa vocação, mas é uma vocação dolorosa. Ignorar é inevitável, mas ignorar que ignoramos é a nossa ilusão mais necessária, provavelmente. O amor que se fixa num objecto particular escapa ao caos, repousa enfim nos seus limites e de novo é possível imaginar o infinito. A quem, no entanto, é dada a graça tão rara do encontro, a quem é oferecido no acaso o rosto cujos movimentos podem impressionar o desejo e responder ao amor?


Santa Barbara, 24 de Outubro de 1994

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