Thursday, December 28, 2006

água

o mar que sobe no teu peito e te asfixia
mar de pouca água mas pode incomodar

tu moves-te nas ruas da cidade

como se caminhasses nos ramos de vidro
da teia que a exímia aranha foi tecendo

é como se vivesses suspenso no vazio
cada passo que dás pode fazer-te escorregar

a tarde é um tempo sem marcas sem
limites
uma espécie de infinito adormecido
pelo tédio
é uma espécie de planície sem
árvores e tu
lembras-te de que neste país
não há salvo
nobres excepções pessoas só

há máquinas
de calcular somam diminuem
multiplicam
dividem entretanto enferrujam
morrem e
são substituídas imediatamente
por outras
máquinas idênticas talvez mais
perfeitas
mais máquinas mais rentáveis e

por isso
ou porque ainda crês que existe
para além
de ti outro território não desistes

por
instantes esqueces a água que vai
subindo
como uma maré no teu peito

depois
decides sair de casa talvez a rapariga
do sonho tenha de facto descido à terra
e esteja a pensar em ti encostada à parede
do cinema e então se tu de repente apareceres

no horizonte do seu olhar talvez ela se alegre
e terias no dia insignificante servido para alguma
coisa consola-te acredita na felicidade o amor
é se a gente quiser assunto ocupação bastante

No comments: