Friday, December 15, 2006

E ri-me de mim

Aonde ir, enfim, quando ao fim do dia
nos cafés mais desertos conversam grupos
de rapazes e apenas um sorriso de rapariga,
o seu riso ruidoso lembra por momentos
que viver de outra maneira ainda é possível?
A casa podia ser o lugar de habitação, o refúgio
ou palácio do rei soberano, mas quem às oito
da noite, depois de um dia monótono, aspira
a encerrar-se nesse túmulo de solidão? E o
espírito sonha com o desconhecido: alguém
com quem se possa conversar, que se possa
tocar com o gume dos olhos e das palavras.
Na sua ingenuidade, o espírito, inocente,
alimenta a chama da esperança. Ou é a
chama da esperança que nenhum vento
apaga que, brincando com o desejo, nos
faz andar de ilusão em espera, de espera
em devaneio? O futuro será possível?
Ri-me de mim mesmo quando me dei
conta
da solenidade obscena da pergunta.
Não
estou aqui sentado, cheio de vigor e
confiança,
a meditar sobre as razões da
crença e da
descrença? Talvez saiba, antes
de morrer,
de que me serviu acumular em dias
sucessivos
o dinheiro do desejo e se pude gastá-lo.

Santa Barbara, 7 de Setembro de 1994

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