Sunday, December 10, 2006

E recuamos

Há as estações tranquilas da infância e
da adolescência. Depois, um dia, revela-se
a intriga da existência uma história
insensata. Quem é tão sábio que possa
evitar os erros de que nasce o sofrimento?
E a vida, esse livro absurdo, leva-nos
de página em página, forçando-nos a mão
e os passos, até à beira dos precipícios.
Olhamos para a profundidade do abismo
e recuamos, fascinados no entanto pela
vertigem da perdição. Na tarde de Inverno
eu meditava, inquieto, sobre o futuro e o
passado, essas paixões de que se alimenta
o presente. Quem poderia ouvir-me se
eu falasse, quem poderia dizer-me o
que fazer para que enfim reinasse a
ordem na casa deserta e mal arrumada?
Esperava por mim o fardo das obrigações,
a decepção das ingratidões. Consolava-me
da miséria dos dias a certeza de nunca ter
perdido de vista a ideia do meu destino.
A própria poesia nascia do esforço, uma
espécie de dor atormentava o meu peito
permanentemente. De que serve viver?
Para quê escrever? Quem quer saber?

Santa Barbara, 4 de Fevereiro de 1995

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