Friday, December 22, 2006

e ele amava-a

a lógica então hoje dia sombrio
quando na avenida anónimos
de casaco escuro vão e vêm
como num quadro de munk
num poema ocidental de cesário
de onde para onde não se sabe
seria necessário perguntar
para ter uma base sólida
de sentido é evidente para ter
alguma coisa a partir da qual
se começasse a discussão
é natal ok a gente sabe isso
a solidão aumenta quando
toda gente se agita se aglomera
é um facto indiscutível
portanto nada impede que
eu permaneça aqui sentado
sem fazer nada a pensar por
exemplo em escrever uma
longa carta carta de horas
ou de dias não de minutos
revendo a situação e tudo
o que a precedeu a permitiu
e depois as consequências
de certas atitudes de certas
formas de comportamento
particularmente inaceitáveis
talvez então se pudesse
progredir na direcção da
verdade mas seria preciso
que todos os intervenientes
os cobardes e os corajosos
os oportunistas e os generosos
os inteligentes e os estúpidos
colaborassem de boa fé no
inquérito de outro modo os
dados que permitiriam as
conclusões tornariam rigorosamente
falso tudo o que se descobrisse
consciente disso fico paralisado
em casa não decido nada nada
e a noite de tédio não terá fim
nem esta nem as que virão
a seguir as ofensas que nos
fizeram também não serão
perdoadas nunca o silêncio
rodeava-me no apartamento
onde eu só sentado meditava
na vida nos acontecimentos
que a tinham definitivamente
transformado o poder da acção
é insubstituível pela eficácia
do pensamento são unidades
de famílias distintas dois
domínios existenciais completamente
estranhos um ao outro e sendo assim
de que adianta querer esquecer
querer corrigir não serve de nada claro
eu apesar disso sentado no apartamento
ao fim da tarde e era já de noite eu
apesar disso acreditava sem me
aperceber do que fazia numa conclusão
útil aceitável esclarecedora e até
pacificadora mas de onde me viria
tanta esperança tanta confiança
no sentido encadeado do que acontece
não sei mas era assim indiscutivelmente
e nas hipóteses de conclusão eventuais
não estava incluído o perdão nem o
esquecimento devo sublinhá-lo para
que não haja malentendidos esperanças
nem estava prevista a vingança qualquer
violência o que evidentemente reduzia
as possibilidades de se sair do longo
emaranhado em que vivíamos e eu
sabia além disso que quem mais
necessitava de estar atento de
compreender de resolver o problema
era quem menos se interessava pela
sua resolução sabe-se porquê é que
o problema nessa cabeça enfraquecida já
estava resolvido nunca tinha na verdade
sido problema nem sequer malentendido
nada de absurdo nada que contrariasse
a lógica comum os rios correm para a foz
e as montanhas elevam-se para o céu e
portanto a lógica dos acontecimentos
nunca fora pervertida eu sabia eu sabia
mas a tarde foi tomando conta de mim
adormeci nela confundi-me comigo
mesmo há muitos anos nesta cidade
no meu quarto a esta hora sossegada
provavelmente a tomar chá com a
rapariga que conhecera numa festa
que depois dormiu comigo duas vezes
e me telefonou três dias depois à noite
para se despedir o namorado tinha
vindo de paris para a levar ela tinha
contado o que se passara e ele amava-a



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