Monday, December 04, 2006

Dia único

Ó sempre ausente, filha ou amada,
que sabes da solidão daquele que te
olha na fotografia e vai ouvindo os
Nocturnos de Chopin, interrogando-se
sobre o sentido da existência? Não,
a poesia não é a fundação do mundo.
Nem a fundação da História. Nem
criou os deuses. Nem revelou a essência
das coisas. O que não quer dizer que
a poesia não seja o início escrito
do balbuciar de protesto, da interrogação.
Querer ser, eis o que a linguagem, como
sintoma, revela. Denunciar a impossibilidade
de ser, eis o que a poesia provavelmente
inaugura. Mas quem se aproxima o
bastante da fonte de água pura, do
fogo do amor, das origens, da morte?
À noite na casa silenciosa eu recordava
o corpo de uma mulher, jovem rapariga
que me acolhia nos seus braços; e assim
diminuía o peso da minha vida solitária.
Mas se ela surgisse à porta da casa
ou me telefonasse, eu não tinha lugar
para ela no espírito (disperso pela sala,
confundido com a música do piano).
Quem, como eu, tinha uma filha amada
longe de si, com o seu rosto e a sua ternura
apenas sugerida pela fotografia? Parecia-me
que tinha sido bom com os meus semelhantes,
mas quem sabe se não era apenas a minha
maneira de me consolar de tudo o que não tinha?
Recordava-me das mãos da mulher que um
dia me tinha deixado acreditar no amor?
Anos e anos durara a ilusão, eu próprio
a construíra. Agora, porém, era o tempo
de todas as desilusões. E ninguém
poderia compreender o que eu escrevia,
entender o que eu pensava, saber o que eu
sentia. Amigos? Onde estavam os amigos?
Amantes? Onde estavam as antigas amantes?
Ficou-me a música como consolação e à noite,
sozinho em casa, escrevo. O filho adolescente
partiu para a cidade e na noite procura o seu
destino. Se ele me ouvisse, pudesse conversar
comigo. Mas é insensata e forte a juventude,
que lhe importam as palavra da experiência?
Na ausência dos deuses e do sentido do mundo,
a vida, apesar de tudo, tinha sentido. Quem
me escreveria, quem pensava ainda em mim,
quem queria saber da minha existência? Anos
magros foram esses. Todos os anos o foram.
Mas a nostalgia da idade jovem negava os
meus pressentimentos e dizia-me: enganas-te,
viveste feliz antigamente. Talvez, respondia eu.
E apetecia-me que uma lágrima deslizasse pelo
meu rosto. Mas, impassível, assistia apenas ao
escorrer suave do tempo inútil, embriagando-me,
sem vergonha, de tédio, do nada, de todas as perdas.
Sexta-feira à noite, Outono, dia único.


Santa Barbara, 9 de Dezembro de 1994

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