Saturday, December 09, 2006

Contra mim

Morro de tédio ou de sono, longe
do mar. Se me visitasse, vinda
do país das laranjeiras da infância,
a jovem amiga. Alguém, enfim,
que nas mãos trouxesse que dar e
nos dedos nervosos a paixão de tocar.
E eu sairia, por algum tempo, da
obscura zona da privação, antes de
morrer ao sol. A noite tão
adiantada,
a minha falta de
tudo. As palavras hoje
pesam,
são densas como um rio incerto
no espírito. Eu acolho-as, chamo-as e elas
vêm, não
sei se estou de acordo com o que
elas dizem. Voltam-se
contra mim, palavras
sem mãe,
nascidas na solidão do exílio.
Tocam-me, é certo, as frases que às vezes
me dirigem. E eu
fico surpreendido, uma
água fria
nasce-me nos olhos. Ela falou, a
jovem mulher, eu ouvi
o silêncio entre as
linhas. Tão poucas
palavras e tocaram-me.
Fiquei mais
prudente, a interrogar-me
sobre o
sentido das minhas convicções.
Bem
sei, tudo é maneira de ir passando
o tempo. Mas afastei com a mão a ideia
do amor,
limpei os olhos e sentei-me a ler.

Rennes, 11 de Setembro de 1997

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