Monday, December 11, 2006

Como se

Vivíamos nos cafés
a olhar uns para os
outros. E a vida
parecia interessante.
Mas quando regressávamos
a casa no fim do serão
de novo pesava na nossa
existência o inexplicável
tédio. Corpos abandonados
nas cadeiras, rostos
escondidos na contemplação
dos livros. E a noite
ia avançando e nela
a desesperança amolecia
como o papel na água
da chuva. Civilizações,
ideais, cultura, boas
e más maneiras, ópio
e vinho. Distrair-se da
incapacidade de olhar
para a profunda e
escondida natureza do
ser em nós. Poesia?
O amor das palavras
é desamor da vida?
Questões secundárias.
O fumo dos cigarros
ia subindo no ar,
desaparecia, era como
se nunca tivesse enchido
de nuvens o ar quente do
café. E amávamos a vida.

Santa Barbara, 20 de Fevereiro de 2006

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