Saturday, December 09, 2006

Com os anos

Ela abraçava o rapaz com ternura e quando ele se foi embora e ela me pediu um cigarro eu disse: estás apaixonada. Estou, respondeu ela, mas tenho medo, compromissos sérios com o amor são perigosos. É simples o mundo, às vezes, quando no domingo o sol brilha e a música, vinda não se sabe de onde, perturba, cansativa, o tédio da tarde. Rapazes e raparigas passavam de bicicleta. Renunciei à vida, pensei a dado momento: agora são os outros que ocupam o meu espírito com os seus problemas. O meu filho detesta-me, está em idade disso. Apetece-me dizer-lhe: vai-te embora, as nossas relações são impossíveis e tenho de viver a minha vida. Ele acredita em coisas em que não devia acreditar. És inteligente ou parvo? – pergunto-lhe às vezes para o provocar. Tenho dezassete anos, quase dezoito, um dia destes vais deixar de poder mandar em mim, responde ele. Óptimo, desabafo eu, podes fazer as malas e ir-te embora já. O que é o amor? O que é a família? Com os anos e os filhos acabarei conservador? Já não entendo? O que é que eu não entendo? Eles embebedam-se, fumam marijuana, passam as noites fora em concertos e orgias estúpidas. Não entendo, é certo, mas que há para entender? A mãe mal lhe escreve, pouco lhe telefona, ele diz: sou um homem, não preciso da mãe ao pé de mim. Mas às vezes quase lhe vêm as lágrimas aos olhos quando se queixa de não ter quem lhe arranje a roupa e prepare as refeições. Eu faço o melhor que posso, digo-lhe eu, mas não consigo ser pai e mãe ao mesmo tempo. Se o toco, ele afasta-se, parece ter nojo de mim fisicamente. Por isso penso: que vá à sua vida, que me deixe em paz e à minha definitiva desilusão. Domingo à tarde, tempo fútil, América da selva e do deserto, campo de concentração confortável, laboratório do humano. Mas para onde ir, onde existe ainda um país, o lugar, a terra da habitação?

(1995)

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