Tuesday, December 19, 2006

Avaliar o real

A poesia pode ser a arte exímia
com que se transforma o insuportável
em objecto de contentamento. E pode
ser muitas outras coisas: canto ou choro,
elogio do herói, promoção da ordem,
tentativa de denunciar a injustiça. Acima
de tudo, no entanto, a poesia devia ser
a língua que em toda a parte nos é recusada,
a linguagem em que nos aproximamos da
pureza do ser. Quem resiste à sedução
do que parece digno de ser amado e assim
se convence de que nada pode ser amado?
Quem mantém, em plena constatação da
catástrofe, a serenidade que impede de
dizer mal e de dizer bem? O poeta deve
aspirar à santidade? Não, certamente;
sim, certamente. Entender o sentido
das palavras. Na solidão isenta, longe
do poder e do ruído, pesar os gestos,
renunciar à consolação e à amargura.
O cimo deserto das montanhas
áridas e cobertas de neve podia
ser a metáfora do nosso destino.

Santa Barbara, 7 de Setembro de 1994

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