Friday, December 08, 2006

Ausências

Só o que não existe suscita o desejo: a casa que nunca habitaremos, o amor que permanecerá inacessível, o lugar de uma definitiva paz entre os pinheiros; a forma perfeita, a montanha isolada, a absoluta solidão longe dos homens e das cidades ruidosas onde se mastiga inutilmente o tempo do nosso destino. Mas nada acontece inocentemente e de tudo ficam os vestígios e o remorso. A nostalgia é ilógica, cruel, fonte de todos os males e doenças do espírito. E se o espírito se sente débil, o corpo também resiste mal às intempéries. Os anos de aprendizagem vão passando. Anos e dias de ausências, marcados pelo couro do chicote. E no entanto à beira-mar podíamos ter sido tão felizes, havia um lugar vazio à nossa espera. Porque ficámos em casa a ver filmes na televisão em vez de ir ao encontro daquilo a que se chama a vida real? Que distingue um fantasma de outro fantasma? E na quieta sombra de uma sala, a sós connosco mesmos, tentávamos repousar. A sós connosco mesmos quer dizer a sós com a memória e a imaginação do que podia ter sido e nunca foi ou se passou de outra maneira. Só o que está longe suscita o desejo, só o que não existe tem existência verdadeira? Quem não deseja é como se já tivesse morrido? Morrer, em todo o caso, devia ser entrar na casa da paz sem ter deixado atrás de si, colado ainda à realidade perecível, a inquietação do desejo e do sonho. Na tarde de Verão que ia passando o homem levanta-se da cadeira em que esteve sentado no café e dirige-se lentamente para a saída.

Santa Barbara, 28 de Maio de 1994

No comments: